Brasileirão, 36a. Rodada
SÁBADO
19:30
CORINTHIANS 0 x 0 NÁUTICO
ATLÉTICO/PR 0 x 0 CRUZEIRO
-
DOMINGO
17:00
SANTOS 0 x 0 CORITIBA
BOTAFOGO 0 x 0 SÃO PAULO
SPORT 0 x 0 FLUMINENSE
SANTO ANDRÉ 0 x 0 AVAÍ
-
19:30
VITÓRIA 0 x 0 BARUERI
FLAMENGO 0 x 0 GOIÁS
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****Page Under Construction****
Cap. 3 Pt. 2
Virgínia chegava mesmo a acreditar que sentia amor por Helena, e não temia decepcionar-se num eventual reencontro. Queria falar com Helena sobre as coisas que estava pensando e sentindo. Esperava preparar-se para isso durante as férias, dando a si mesma o tempo necessário para refletir a respeito. Entretanto, não estava bem certa sobre que reação Geraldo teria quando soubesse de seus planos. Ele era uma pessoa bem diferente dela, e, mesmo tendo recebido a mesma educação, nunca deixara de sentir um profundo ódio pelos pais e pela irmã.
- Muito bem, e você?
- Eu? - ele sorriu largamente. - Veja como estou radiante!!! Vendi dois, hoje de manhã. Sabe o que é isso? A volta das férias garantida!!!
- Parabéns! - Virgínia sorriu, contagiada. - Isso nos ajuda muito, não é mesmo? Há dias em que você não tem tanta sorte.
- Ah, não, você não vai abalar a minha auto-confiança, hoje.
Virginia riu.
- Querido, você sabe que não é isso. Como estava o trânsito?
- Estava bom, achei que vim rápido, até.
- Então melhorou, porque na hora em que eu vim… Você acredita que o ônibus levou quarenta minutos? Quarenta minutos! Acho que tinha muita gente na rua, muitos carros, sei lá, todo mundo se preparando, já viu, né? Recebemos carta de tia Gisela. E Arabela lhe mandou um beijo.
- Arabela? Aquela gostosa? - ele sentou-se à mesa, rindo muito, pois sabia que sua irmã não gostava que se referisse daquela maneira à sua amiga.
- Aham, aham. - Virgínia dirigiu-lhe um olhar desconfiado. - Está lá na mesa da sala. Não viu, quando passou por lá?
- Não, nem notei.
- Acho que ela gosta de você.
- Você acha? E o namorado…?
- Você é bem mais bonito que ele.
Geraldo riu novamente.
- Ela sabe que você pensa isso sobre o namorado dela? Vamos ver no que isso vai dar. - comentou.
Virgínia ficou calada, por instantes. Queria falar com ele sobre Helena, mas não sabia como nem quando fazê-lo. Por causa disso, parou, pensativa, perdendo o fio da meada do que estava preparando como refeição.
- O que houve? - Geraldo notou-lhe o ar preocupado.
- Nada. - ela balançou a cabeça. - Nada, mesmo.
- Nada não a deixaria assim tão quieta de repente. Você estava pensando em algo. Algo que a deixou preocupada. Algum problema no banco?
- O banco não me dá problemas, Geraldo. Tenho problemas apenas em minha vida particular.
Geraldo ficou olhando para a irmã, alguns segundos. O tom de voz dela tinha se alterado, estava mais firme, como se ela estivesse zangada e indignada.
- Está pensando no que eu acho que está pensando?
Virgínia devolveu-lhe o olhar profundo por alguns segundos, desviando os olhos sem nada dizer, depois.
- Sinto vontade de ver Helena, Geraldo.
- Eu não acredito.
- Ela é nossa irmã. Sofreu tanto quanto nós.
- Não acredito no que estou ouvindo.
- Por quê?
- Porque não posso crer que tenha esquecido tudo que ela nos fez passar.
- Não esqueci. Mas também há outras coisas que não esqueci.
- Não comece a falar sobre o sofrimento dela.
- Estamos sem vê-la há mais de doze anos. Você também deveria estar interessado em saber como ela está hoje.
- Espero que esteja morta. - ele ergueu-se, com os sapatos na mão.
- Não admito que fale assim! - Virgínia chegou às lágrimas. - Ela é minha irmã!
Geraldo estava surpreso com Virgínia. Mesmo que não sentisse o mesmo que ela, admitia que sentisse desejo de ver a irmã. E seus sentimentos deviam ser respeitados.
- Desculpe, Virgínia… - olhou-a com ternura. - Está bem, mana, não falarei assim. Não acho que valha a pena nós brigarmos por causa dela. Eu não quero, não me interessa este assunto. Tente não falar comigo sobre Helena, eu não quero voltar a vê-la, nunca mais.
- Mas Geraldo…isso é tão…inútil…
- Esqueça, Virgínia. Eu não quero falar sobre isso.
A jovem balançou a cabeça.
- Certo. Sinto muito. Não tocarei mais neste assunto.
Renascendo - Cap. 3 Pt. 1
MARJORIE trabalhava com o pai numa banca de advocacia.
Mas aquela não era uma banca comum. Funcionavam como uma agência de Detetives Particulares, também, e Marjorie era especializada em encontrar pessoas desaparecidas. Ela não era sequer formada em Direito. Era formada em Educação Física. Tinha vários cursos de formação em Escolas de Detetives. Desde pequena, sempre tivera grande e irresistível atração por mistérios. Localizar pessoas desaparecidas era uma arte, ela pensava, e sempre que podia fazer aquele tipo de serviço, ficava vibrando. Em seu currículo contava a espetacular localização de uma pessoa em 2 horas, partindo apenas do nome de uma rua, numa cidade vizinha, e mais nada, sendo que, ao chegar ao local, dera de cara com um terreno baldio.
- Bom dia… ãhn… - ela olhou na ficha, vendo o nome da mulher. - Dona Marina.
- Pode me chamar de Marina, apenas. - a mulher estava muito séria.
Era baixinha. Marjorie diria que ela era muito gorda, para sua altura, parecendo muito mais velha do que provavelmente seria.
- Bem, então, Marina, seu marido anda com comportamento estranho…
- Sim, Ele tem passado muito tempo fora de casa, está sempre com ar preocupado, e eu chequei o odômetro do carro, e parece que ele tem rodado muito. Suponho que ele tem andado com outra mulher. Não me dá mais a mesma atenção de antes…
”Com toda essa massa”, pensou Marjorie, “eu também não daria…”
A mulher ficou olhando para Marjorie, como que a avaliá-la.
- O que houve? -indagou Marjorie. - Acha que não tenho capacidade para bisbilhotar a vida de alguém?
- Vou lhe dizer uma coisa, meu marido não é bonito, mas é meu. Eu o amo.
Marjorie cruzou os braços sobre a mesa e inclinou-se na direção dela.
- Está querendo insinuar que eu possa vir a ter alguma coisa com seu marido?
- Você é uma mulher bastante atraente…
Marjorie não tencionava perder uma cliente. Ganhava por comissão, uma percentagem sobre o valor de tabela dos procedimentos investigativos, mas não estava disposta a levar desaforos para casa.
- Marina… a princípio, a investigação é feita à distância. Eu nem chegarei perto de seu marido, e ele provavelmente nunca saberá que estará sendo investigado. Mas eu lhe digo uma coisa, com toda franqueza, se ele a estiver traindo, estou certa de que sabe de quem terá sido a culpa. Eu começo amanhã. Mas lhe dou uma dica, se seu marido inventar uma desculpa para sair sem a família, deixe que vá. Vai facilitar em muito o meu trabalho. Agora, se acha que não poderá confiar em nosso serviço, ou em mim, há dezenas de outros profissionais lá fora, é só você passar pela porta, e pode escolher quem quiser.
A mulher pareceu ficar por alguns instantes sem saber o que dizer, mas perguntou, depois:
- Quando pretende começar a trabalhar?
- Como eu acabei de dizer, começo amanhã. Amanhã cedo já estarei vigiando a sua casa. Como eu também já disse, se ele inventar alguma desculpa para sair sozinho, não se oponha.
- Tudo bem.
- Ótimo. Aos detalhes, então.
* * * *
Depois de vestir um calção e uma camiseta, Virgínia foi para a cozinha. Geraldo chegaria em pouco tempo, e queria almoçar com ele. Sentia-se muito animada e não via a hora de enveredar pelos caminhos do litoral. Durante aquelas férias, Virginia pretendia refletir bastante sobre a idéia que estava amadurecendo em seu cérebro. Uma idéia que surgira espontaneamente em seus pensamentos, e que não lhe causava mal estar no coração. Virgínia pensava em dar um jeito de tornar a ver sua irmã mais velha, Helena, autora dos mais terríveis maus tratos por ela e seu irmão sofridos.
Virgínia raciocinava em termos de ter sido Helena nada mais do que uma vítima de seus pais. Vítima, talvez, de seu próprio temor. Seis anos mais velha que Geraldo, tinha plenas condições de revelar tudo a Gisela ou a Aurélio, muito antes da época em que eles intervieram no que estava acontecendo.
Doze anos depois, aquilo tudo era um passado muito distante, que quase nada significava, pelo menos para ela. Virgínia olhava para trás com a sensação de que nada tinha acontecido com ela. Vieram, depois, os anos maravilhosos, sob a tutela de Aurélio e Gisela. A paixão por Augusto…
Enquanto Isso…
Hora brasileira de Verão
07:25
Com o termômetro de parede estacionado nos 25ºC, o dia amanheceu nublado e parece que está passando a parcialmente nublado, mas a previsão é de chuva. Aliás, ela ontem ameaçou a tarde toda, mas não veio, e depois na madrugada, quando começou a ventar, mas por enquanto ainda nada.
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VIRANDO e REVIRANDO
Não foi uma noite muito boa. Acho que o sono da tarde de ontem, que começou depois das 15, mas não lembro 15 e quanto, e terminou às 16:30, aproximadamente, deve ter causado algum retardo depois.
Li muito, virei para lá e para cá, botei o som a tocar, sem repetição dos cd’s, o que deu mais ou menos 4 horas de música ininterrupta. Devo ter perdido alguma coisa, com certeza, mas escutei o começo e o fim do período.
Um horror.
No fim, acabei dormindo por volta de 3 e meia, estava naquela função desde as 23.
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Contando: 396, 1936, 201, 693, 2244, 979, 406, 41, 13, 92 - dias. (57, 81, 161, 67, 253, 114, 316)
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E DEPOIS?
Quer coisa mais narcisista do que escrever um blog onde o assunto básico é o próprio autor?
A pessoa nesta condição em geral se acha a tal. Eu me acho o tal quando faço algumas previsões e dou opiniões sobre futebol, mas já cansei de afirmar que não entendo nada do assunto, então não dá para me considerar mais do que um sortudo.
Se escrevesse um diário em um caderno, poderia dizer muita coisa sobre muitas pessoas citando nomes, etc., porque ninguém veria. Aqui, não. Aqui sou obrigado a ser relativamente discreto, apesar de vez por outra sair dessa linha, mas agora até faz algum tempo que não tenho comentado muita coisa. A última vez que falei de alguém que não fosse eu foi há 10 dias, quando mencionei que minha filha não tem costume de levar o lixo para a rua.
Fora isso, estou bem quietinho.
Entretanto, estive pensando, tudo que está aqui tem uma data previamente acertada para deixar de ter importância, e ela está localizada no dia de amanhã. Como também já mencionei, antes, o que escrevo hoje serve para hoje, amanhã já não é mais. Escrevendo agora pela manhã, cedinho, quando for a noite já não fará muito sentido, mesmo continuando dentro do mesmo período de 24 horas. Quando o relógio passar daquela marca, isso aqui será definitivamente passado, amanhã não vai mais interessar.
É como quando eu vou lá olhar a contagem de 10 dias atrás, para ver se a de hoje está certa. Praticamente nem leio o que escrevi; encontro alguns erros de digitação que acerto apenas pela questão estética (narcisista, talvez?) do texto. Algumas vezes me vejo na obrigação de acertar a contagem.
Mas se eu mesmo não dou bola para o que está escrito há dez dias atrás, quem dará? É um exercício de pura vaidade.
Indo além: o que está aqui não durará para sempre. Um dia vai deixar de existir. Meu primo não estará mais aqui para coordenar os bastidores técnicos da página, os servidores da Median não vão mais existir, eu não estarei mais aqui para escrever. Tudo que estiver colocado nesta página virará irremediavelmente passado, não passando, para mim, neste momento, de uma singela muleta digital.
Amanhã ou depois (quem sabe, bem depois, mas sem grandes variações no destino final) não haverá mais visitantes, nem leitores, eu não me iludo quanto ao caráter temporário desta página. então, para que me preocupar em fazer back up de tudo que foi escrito? No futuro, quem vai querer saber quem foi o Nilton Roberto? Meus netos? Bisnetos? Que bobagem.
Assim como nada pode ser mais narcisista do que escrever sobre mim mesmo todos os dias, nada mais tranquilizador do que saber que algum dia virarei passado, deixarei de existir fisicamente e algum dia me tornarei uma vaga lembrança, porque, como bem escreveu a Martha Medeiros no começo do mês, a gente só dura enquanto estiver viva a última pessoa que ainda se lembra de nós.
Mas nem o que eu escrever ao longo da vida, ainda mais no mundo digital, vai durar tanto tempo.
Cap. 2 Pt. 2
Ela parou, o coração acelerado pela esperança. Márcio foi até a porta e olhou pelo “olho mágico”. Ao ver o cunhado, percebeu que poderia ter problemas. Voltou para junto de Miranda e disse:
- É o seu irmão.
Miranda sorriu, olhando-o com malícia.
- Agora você se ferrou. O que vai fazer?
- Vou falar com ele. Se você der um pio, quem se ferra é você.
- E se ele quiser entrar?
- Não vai querer.
Novo toque. Márcio foi até à porta, abrindo-a muito pouco.
- Olá. - disse Ernesto.
- Olá. - falou Márcio, sem sorrir. - Que deseja?
- Que jeito estranho de receber seu cunhado, meu caro, depois de tanto tempo. Mas já que é assim, eu desejo ver minha irmã. Tenho uma notícia para dar a ela.
- Pôxa, ela não está. Foi visitar uma amiga.
Um pouco mais afastada, Miranda não ouviu o que seu irmão respondeu.
- Bem, eu não tenho nada para o almoço. - disse Márcio.
Miranda estava bastante apavorada com o pensamento de que sua chance pudesse escapar. Poderia ficar calada e continuar com a esperança de uma mudança no modo de agir de Márcio e de que tudo voltasse ao normal. Mas tal esperança, baseada acima de tudo na criação de Luciano, não podia ser maior que sua necessidade de, como ser humano, levar uma vida digna, com chances de crescimento espiritual. Márcio jamais mudaria e certamente não saberia dar valor à sua dedicação, se decidisse permanecer ali, ao lado dele. Uma decisão como aquela parecia-lhe ser insuficiente para reverter a situação. Ao contrário, Márcio podia vir a pensar que ela gostava de ser maltratada e agredida.
Aqueles pensamentos passaram por seu cérebro numa fração de segundo, e ela percebeu que aquela era sua última chance em muito tempo de fugir daquele inferno.
- Ernesto, eu estou aqui! - gritou.
Já à espera de qualquer coisa, Ernesto colocou um pé na porta, forçando Márcio a abri-la. Miranda correu até o irmão e abraçou-o, em lágrimas.
- Mano… Por favor, me leve embora!
Ernesto olhou para ela, para suas marcas, e controlou-se para não chorar, também. Miranda estava com a boca inchada e tinha marcas vermelhas nos braços e no rosto. Vestida com jeans e colant, parecia uma caricatura da menina viva e alegre que ele vira crescer.
- Pegue o bebê e vamos embora. - falou à irmã.
- Negativo. - interveio Márcio, colocando a mão no braço de Miranda. - Quem manda aqui sou eu.
- Tire a mão dela. - falou Ernesto, com firmeza. - Por que não experimenta bater em mim?
- Você não pode levá-la.
- Posso, e vou. Tente me impedir, para ver o que acontece.
Miranda livrou o braço e encaminhou-se para o quarto.
- Miranda! - Márcio fez menção de sair atrás dela.
Ernesto já estava psicologicamente preparado para entrar em luta corporal com o cunhado. Sabia que, graças à ginástica, estava com bom preparo físico. Sabia, também, que, devido às sessões de musculação, estava com um potencial de impacto bastante forte, se precisasse aplicar um soco em alguém. Como aquilo parecia inevitável, Ernesto pegou o cunhado por um braço e soqueou-o no rosto, tendo Márcio cambaleado, com o nariz ensangüentado. Ao perceber-se ferido, Márcio avançou para Ernesto, que não se deixou surpreender. Mais uma vez, desferiu um soco em Márcio, que jogou-se-lhe por cima. Ao cair, Ernesto bateu com a cabeça na quina do braço de uma poltrona estofada, o que amorteceu em parte o choque. Soqueou o estômago de Márcio, pensando, na hora que, embora não estivesse acostumado àquele tipo de atividade, o outro certamente estava menos ainda, o que lhe concedia pequena vantagem. Márcio conseguiu acertá-lo no estômago, também, deixando-o momentaneamente sem ar. Com algum esforço, conseguiu jogar Márcio à distância.
Miranda voltou naquele momento, trazendo apenas o filho e uma sacola com algumas coisas suas e dele.
- Vamos embora, Ernesto. Não precisa mais sujar suas mãos neste monte de esterco.
- Vamos, vamos. Passe ali por trás. Eu não deixo ele se aproximar.
Renascendo - Cap. 2 pt. 1
ERNESTO tinha cabelos louros e olhos verdes.
Tinha cerca de 1,80m, um rosto bastante atraente e estava em forma.
Estava com o carro parado numa sinaleira, pensando nos dois problemas que tinha nas mãos. A crise à qual estava para dar um basta e a notícia que tinha para dar. Pensava que até mesmo trabalhar lhe agradaria mais do que estar ali, dirigindo-se à casa da irmã.
A buzina do carro de trás alertou-o para o sinal verde, e ele arrancou.
Estava indo buscar a irmã, tendo na lembrança a carta que ela lhes escrevera, e, pelo que ela dizia, Ernesto tinha muita curiosidade para saber como aquela carta tinha sido enviada. A letra não era de Miranda, o que tornava ainda mais grave a situação. E tinha que falar a ela sobre a morte do pai, que sofrera um ataque cardíaco dois dias antes, exatamente por causa da chegada da carta da filha, e morrera sem ter contato com ela.
Ernesto vinha há tempos trabalhando nas empresas do pai, uma cadeia de lojas de departamentos e (numa mistura muito engraçada) uma empresa de transporte coletivo intermunicipal. Estava sendo, segundo sua opinião, uma experiência gratificante, especialmente porque seu pai dera-lhe responsabilidades, não apenas o tornara um assistente das coisas. Ernesto tomava decisões. Agora teria que assumir os negócios em sua totalidade e sozinho. E talvez (o que o preocupava mais) nunca mais voltasse a ver a garota da academia.
Ernesto sempre levara uma vida fácil. Tanto ele quanto Miranda.
Os melhores colégios, os melhores clubes, o convívio com pessoas de seu mesmo nível sócio-econômico. Durante muitos anos aquele modelo lhe servira. Mas ele nunca fora um jovem alienado. Felizmente, sempre fora amigo de seu pai, que tinha sido um homem justo e trabalhador. Conversaram muito durante toda a sua vida, e Ernesto lhe pedira uma oportunidade nas empresas. Ernesto tinha certeza de que a vida que passara a levar dali em diante determinara toda uma mudança em seu comportamento e seu modo de pensar. Trocara as velhas companhias, os velhos bares e clubes por um apartamento só seu. Dos hábitos antigos, conservara praticamente apenas o de fazer ginástica. Porém, trocara de academia, um local mais em nível de classe média, e ali a tinha visto pela primeira vez. Era loura, também, tinha um corpo bem feito, estava sempre de cabelos presos como um rabo de cavalo, vira-a apenas vestindo malha de ginástica, sempre acompanhada de uma amiga. Jamais falara com ela, até porque quando ele chegava para seu horario ela estava de saída.
O rosto era muito atraente, e Ernesto estava fascinado por ela. Pensava sempre numa maneira de um dia puxar algum assunto e firmar uma amizade, mas dem deixá-la saber sobre sua origem, pois ele queria saber se ela podia ser o seu tipo de garota. Ser de família rica podia ser uma faca de dois gumes, podia tanto atrair como afastar as pessoas.
Ernesto estava sempre com ela na cabeça, uma sensação de ter encontrado alguém, mas ao mesmo tempo com uma sensação de perda, por não saber nada dela, nem o nome, nem como encontrá-la, e não a vira na última semana, que antecedera ao Natal. Agora, depois da morte de seu pai, tocar a todos os negócios, mesmo com as ajudas que teria, parecia-lhe uma tarefa que consumiria todo o seu tempo. Nunca mais a veria?
Era preocupante.
A placa da esquina mostrou a Ernesto que chegara ao seu destino. O número da casa era 162. Ele parou o carro e olhou para ela. Modesta, de alvenaria. Estava fechada, era quase meio-dia, e ele sentiu-se sem saber o que fazer. A rua estava deserta, e ele pensou se deveria voltar ou se valeria a pena esperar. Saiu do carro. Avistou, então, um casal de meia idade, numa janela da casa ao lado. Aproximou-se devagar e disse:
- Bom dia.
- Bom dia. - respondeu o homem, que tinha muitos cabelos brancos e um ar bonachão.
- O senhor sabe dizer se as pessoas aí ao lado vão voltar… tarde, ou…?
- Você veio por causa da carta, filho? - indagou a mulher.
Um arrepio percorreu o corpo de Ernesto.
- Então foram vocês.
- Ela ditou a carta pela janela. - disse o homem. - E eles estão em casa… ele prende ela sempre.
- Prende? - outro arrepio percorreu o corpo de Ernesto.
- E tiveram uma briga feia, hoje pela manhã, mas é sempre assim. Uma situação revoltante, meu filho. O homem bate nela sempre que pode.
- Meu Deus. - Ernesto levou as mãos à cintura, sentindo o sangue ferver em suas veias. - Eu não acredito. - sacudiu a cabeça, inconformado. Por sua memória passaram imagens dos tempos em que Miranda e Márcio namoravam.
Nada indicava que ele fosse de alguma maneira possessivo, ciumento ou até mesmo violento. Ernesto estava perplexo, na carta Miranda dizia poucas coisas, mas o suficiente para deixar seu pai preocupado e fazê-lo ter um ataque cardíaco. Tal comportamento por parte do cunhado certamente tinha explicação, talvez não lógica, mas tinha. Qualquer coisa poderia ser usada como pretexto para agredir Miranda, ou enclausurá-la. O que fazer?
Olhando de volta para o casal, que o observava com evidente curiosidade e expectativa, perguntou:
- E na criança? Ele… bate no menino…?
- Na criança, não. - falou a mulher. - Mas a moça apanha em dobro.
Ernesto tomou uma decisão, cerrando os punhos, e olhando para a casa ao lado.
- Bom, gente, acabou. Agora isso vai ter um fim.
- Você é irmão dela? - quis saber a mulher, não resistindo à curiosidade.
- Sou, sim. Fiquem tranquilos, e obrigado pela ajuda.
Em seguida, Ernesto dirigiu-se para a porta do 162.
* * * *
Miranda tinha cabelos meio louros, meio castanhos, cacheados, e olhos de uma cor azulada, que às vezes pendia para o cinza.
Seu rosto sempre fora atraente, bonito mesmo, e ela sempre chamara a atenção das pessoas, desde menininha. Porém, agora, ao olhar-se no espelho da cômoda, Miranda via marcas vermelhas, hematomas, que, se tivessem um tempo, desapareceriam, deixando dores no coração e na alma, apenas. Era engraçada a forma como o amor podia transformar-se em indiferença e ódio. E era muito triste, também. Não sabia, ao certo, o que sentia por Márcio, agora. Mas sabia que ele a odiava. Jamais poderia acreditar que fizesse o que estava fazendo com ela por amor.
Previsões
Horário brasileiro de Verão
09:10
Depois de uma madrugada de céu limpo, o dia amanheceu nublado, passando a parcialmente nublado. Ontem acertei de novo a minha previsão pessoal do tempo. Embora a lenda insista em que amanhã volta a chover, para hoje não acredito, apesar das nuvens. A temperatura deu mais uma recuada, voltando aos 25ºC.
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FICANDO BOM
Ontem escrevi que a possibilidade de a chuva voltar até o final da tarde era grande.
Na verdade, eu tinha escrito que era grande a “probabilidade“, mas depois achei melhor reduzir um pouco, de probabilidade para possibilidade. Probabilidade implicava uma certeza que eu não podia ter, e vamos que não chove? Nunca se sabe quando pode acontecer uma reviravolta.
Então mudei a afirmação para possibilidade, porque o que é possível não implica certeza, aliás, têm-se apenas a certeza de que é possível, não de que será, já que o que é possível pode acontecer ou não.
E eram 12:55 quando o dia virou noite em Porto Alegre, e logo depois vieram os ventos de até 109 km/h, que derrubaram árvores, interrompendo o trânsito em diversas avenidas da cidade, e que fizeram com que a fachada de um prédio antigo caísse e matasse uma mulher de 37 anos que recém tinha saído do trabalho para almoçar.
A parte do vento foi um negócio escandaloso, eu fiquei com medo de que o janelão da minha sacada levantasse vôo, de tanto que se sacudia na esquadria. Uma loucura.
Mas tendo acertado duas previsões de comportamento do clima ao longo da semana usando apenas o olhômetro, acho que estou ficando bom nesse negócio.
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Faltando: 397, 1937, 202, 694, 2245, 980 dias para a Olimpíada de Londres, em 2012, 407, 42, 14, 93. (58, 82, 162, 68, 254, 115, 317)
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SEMPRE CERTO
É chato.
Não era nem tão óbvio, nem tão duvidoso, nem eram tão garantidas assim as hipóteses de saída ou permanência de Tcheco no Grêmio para 2010. Quando escrevi aqui, ontem, que estava encerrado o ciclo dele no Tricolor, não se tinha certeza de nada, e nessas coisas de futebol, que sempre envolvem dinheiro e vontades das pessoas, pode acontecer de tudo.
Mas durante a tarde foi anunciada oficialmente a saída do jogador.
Mas é bom, este Nilton Roberto!
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META ALCANÇADA
Nas minhas mais otimistas projeções, quando o ano começou, estimei que até o final de 2009 seria possível atingir a meta de 25.000 visitas ao Quem Vai Querer Saber, o que já seria uma meta irrisória, tendo em vista que a migração para esta página aconteceu em maio de 2008.
Uma vez que otimismo não tira pedaço, nunca duvidei, nem por um momento, que a meta seria alcançada. Mas me esquvei de alterá-la para cima, mesmo quando os indicadores de frequência apontaram para números maiores. O dia de ontem fechou a conta com 39 visitas, o que fez com que, no total, a meta geral fosse atingida: até ontem à noite foram 25.008 visitantes. Mesmo que a taxa de rejeição seja alta, o que importa é que por 25.008 vezes o site foi acessado, desde maio/08.
A taxa de rejeição é medida pelo índice de pessoas que fizeram algum tipo de pesquisa na internet e o Quem Vai Querer Saber apareceu entre os resultados. As pessoas entraram, viram que não eram o que procuravam e saíram, sem ler nada do conteúdo. Isto é a taxa de rejeição. Já o número de páginas exibidas equivale em média ao dobro das visitas e mais um pouco. Pode-se afirmar, por exemplo, que no dia de ontem, com 39 visitas, no mínimo 80 exibições de páginas aconteceram.
É um índice considerável.
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COM ou SEM CONSCIÊNCIA
Como escrevi anteriormente, agora não lembro se no ano passado, mas deve ter sido, no Brasil não é preciso haver um dia especial de Consciência Negra, porque aos negros não é permitido nunca esquecer que são tratados de maneira diferente.
FONTE: CÂMERA DOIS
Os números estão aí para confirmar.
http://www.clovisduarte.com.br/noticia_ler.php?id=192810
Cap. 1 Pt.2
Gisela terminou de ler a carta da sobrinha e entregou-a à filha.
Seus olhos castanhos pousaram sobre os sanduíches que as duas fizeram para a ceia de Ano Novo. As palavras de Helena fizeram-na recordar o último encontro que tivera com sua irmã, muitos anos atrás. O dia em que tirara Geraldo e Virgínia das mãos de Natália e Eduardo, passando a criá-los ao lado de Elise e Augusto.
Natália tinha sido vítima das ideias atrasadas dos pais, os mesmos pais que ela, Gisela, enfrentara por causa de seu amor por um homem negro, Aurélio, um envolvimento muito mais condenável pela sociedade da época, trinta anos antes, do que agora.
Natália e Eduardo quase arruinaram a vida de Helena, que fora uma criança de aparência adorável, mas que tinha olhos enigmáticos, por medo, soube-se depois. Mas ela fugira, aos doze anos, com o namorado, Roberto. E então, contara tudo. Gisela e Aurélio imediatamente tiraram as crianças da casa dos pais e ameaçaram, entregar o caso à Polícia, caso tivessem problemas.
Gisela olhou para a filha, que lia distraidamente a carta da prima.
Elise herdara seus cabelos pretos lisos e seu sorriso. Herdara um misto de sua cor de pele (pois ela própria era meio morena) e a pele do pai, que não era muito escura. Considerava-a muito bonita, assim como a Augusto. Aquelas duas belezas, duas crianças, suas e de Aurélio, jamais seriam tão bonitas se fossem totalmente negras ou totalmente brancas. A cor de cuia ou cor de jambo era fundamental em sua beleza. Jamais conheceram seus avós maternos e seus tios nunca lhes deram o menor apreço. Porém, tendo sido criados juntos, davam-se bem com os primos Geraldo e Virgínia e, desde alguns anos atrás, com Helena e sua família. Helena era pediatra, uma mãe maravilhosa, muito diferente do que os irmãos lembravam dela. Para eles, a imagem era a de uma torturadora.
Para Gisela, Helena era como sua filha. Todos eles eram seus filhos, afinal, e pensar neles não lhe trazia lembranças de Natália, mas dos erros dela.
- Eu queria escrever como ela. - disse Elise, olhando para a mãe. - Será que eles notam se ela for fazer a redação do Vestibular no meu lugar? - começou a rir.
- Você acha mesmo que ela toparia fazer isso? - rebateu Gisela.
- E por que não? É só ela pensar no bem para a Humanidade que fará, me ajudando a entrar para a faculdade.
- Pergunte a ela e me conte a resposta, depois.
Elise suspirou.
- Assim você não está me ajudando, mamãe. - ela tornou a dar uma risada. - Acho que isso que ela quer fazer vai estragar o veraneio dela…
Gisela fez um meneio de cabeça.
- Quase estragaram a vida dela, também, e eu considero ótimo o esforço que ela faz para consertá-la. Embora saibamos que nenhum dos dois irmãos tem vontade de vê-la novamente.
- Temos certeza disso? Virgínia voltou a ver os pais, agora.
Gisela pensou um pouco.
- Virgínia me surpreende. Nem parece que sofreu nas mãos deles.
- Bobagem, mãezinha. Você esquece o que ela passou na sua mão. Você foi a mãe dela.
- Bom, isso é uma outra história. Eu acho que eles precisam saber como ela é, antes que ela os reencontre.
- Eles nunca nos permitiram sequer continuar qualquer assunto referente a Helena. - ponderou Elise. - Mas se Virgínia está visitando os pais de novo… a bronca maior vai ser com o Geraldo.
- Concordo. Mas nós vamos tentar. - Gisela sorriu. - Tenho adoração pelos filhos de Helena, bem como por ela e Roberto, e acho que essa união de família pode influenciar definitivamente na decisão deles.
Elise estava com ar pensativo.
- Podíamos primeiro incentivar um encontro entre Virgínia e Helena, dependendo das reações de Virgínia. Se ela concordasse, depois do reencontro com Helena, poderia tentar com Geraldo. Vou falar com Helena, no fim de semana.
- Muito bem. Agora, por favor, busque os homens, para tomarmos uma laranjada.
- Eles já leram a carta?
- Vou mostrar-lhes agora.
- Eu já volto. - Elise deixou a cozinha.
Renascendo - Cap. 1 Pt. 1
“Querida tia Gisela
Meus olhos pousaram sobre os dois pequenos seres que dormiam com seu ressonar infantil. Bem, até que nem tanto: com o nariz entupido, Marina roncava como um adulto. - risos.
A penumbra dava àqueles corpos de criança um brilho mágico, por terem ambos saído de dentro de mim. Essa impressão me trouxe um sorriso aos lábios. Muitas lembranças me vieram ao pensamento, me causando alguma dor no coração de mãe. Lembranças de infância, uma parte sofrida de meu passado, cheia de medos e insegurança, onde nada foi fácil.
Lágrimas vieram aos meus olhos. Fiquei olhando para meus filhos adormecidos, meus demoninhos angélicos. Duas crianças agora, duas no passado. Minha segunda chance com crianças. A primeira foi um fracasso. A minha inocência. Outra criança. Mas agora, não. É bem diferente. Estou adulta, e o passado é apenas uma sombra. Porém, existem resquícios… Resquícios vivos.
Fechei a porta do quarto, atirando ao ar um silencioso beijo para os filhos e agradecendo a Deus por possuir aquelas duas crianças, fruto do meu amor, e símbolo de meu reencontro com a vida, com a inocência da vida.
Minha reabilitação.
Olhei para Roberto, que ressonava tranquilamente, em nossa cama. Ele é o meu homem, meu melhor amigo. A pessoa que me conduziu de volta ao amor e à verdade. Através dele retornei à inocência, uma inocência minha, perdida ainda quando criança, e que toda criança traz consigo. Uma criança deixa de ser inocente quando começa a distinguir entre o bem e o mal. Aos pais cabe ensinar-lhe o bem e a ser boa. Entretanto, quando isso não acontece, quando a orientação encaminha para o mal, estimula a prática de maldades, então tudo desmorona, e a criança é sempre um espírito sem forças, em formação, um ser frágil e sem apoio.
Caminhei para a sala, ainda pensando em Roberto.
Ele já cumpriu a sua parte, por assim dizer. Trouxe-me de volta ao mundo mágico da inocência infantil. Fez-me ver o quanto vale respeitar um corpo pequeno e frágil, o que significa um pequeno cérebro vazio de maldade. E, acima disso, ensinou-me a eliminar totalmente a culpa. Fiz, eu também, com que duas crianças muito cedo distinguissem o mal do bem. Ensinei-os a sentir o mal em sua própria carne. Mas não era eu.
Conversei com Roberto sobre minha idéia. A decisão já está tomada, as forças para levá-la a cabo estão dentro de mim. Prever as reações das pessoas é um mito. Nunca dá certo. Mas não quero correr o risco de omitir-me mais uma vez, e desta vez comigo mesma. Certamente não conseguirei reparar os erros cometidos, mas preciso fazer alguma coisa por mim mesma.
Por isso, peço sua ajuda.
Estou começando a perder o sono, não consigo dormir quando estou com um problema para resolver. E há, ainda, o desejo de apresentar dois adultos a duas crianças. Duas crianças a dois adultos. Embora não precise disso, penso em readquirir o amor de duas pessoas a quem se ensinou a odiar. Agi como se as odiasse e admito ser odiada por eles. Talvez ainda o seja por muito tempo, se não as procurar para demonstrar-lhes minha verdadeira personalidade. Sei que podem vir a odiar-me ainda mais se tentar fazê-lo.
Mas só há uma maneira de saber. Tenho que arriscar. Roberto disse que não se importa, desde que eu não sofra. Então, este é o momento.
Peguei este caderno, a caneta, e hesitei.
Pedir ajuda é um gesto que devia ter sido feito há muito mais tempo. Sempre pude contar com seu auxílio, pois meus pais não foram as únicas vítimas da incompreensão e ignorância de meus avós. Pedir ajuda é um gesto que causará surpresa, especialmente em se tratando do que vou pedir. Não tive tempo de preparar Marina para o que pode acontecer a seguir, mas não tem importância. Ela só conhece a Helena adulta. A Helena criança não existe em sua mente.
Meus olhos se perdem no tempo novamente, divagando sobre um triste passado que lhes surge à frente. A menina pequena, frágil e assustada, naquele casebre, causando pânico a duas outras crianças ainda menores. O medo naqueles olhinhos me reconduz às lágrimas.
“Que bobagem”, penso, decidida. “Não posso ficar com medo, e também não adianta chorar.”
Entretanto, numa reação mais que humana, permito-me chorar por alguns minutos. Depois, enxugo as lágrimas, estanco-as, apertando as pálpebras com força. É agora ou nunca. Posso esquecer por um mês ou dois, talvez até por um ano, mas chegará o momento em que recomeçarei a pensar. Amo-os com todas as minhas forças. E pedirei ajuda para fazê-los saberem disso.
Tia Gisela, desejo que a felicidade e a saúde continuem fazendo parte de suas vidas.
Dirijo-me a você em particular, minha tia, porque você hoje me conhece bem. Sabe de tudo que aconteceu. Ajudou-nos, enfim. Todos nós, incluindo você e tio Aurélio, fomos vítimas da incompreensão de umas poucas pessoas. Embora já tenhamos discutido isso, não posso deixar de pensar que há anos devia ter pedido sua ajuda como farei agora. Acontece, querida, que chegou a hora.
Eu fui uma vítima, e, na minha inocência, preferi ser carrasco a correr um risco que poderia salvar a mim e a eles, em especial. A inocência deles.
Bem.
Você sabe que hoje eu sou uma pessoa um pouco mais humana e digna, você acompanhou a mudança. Tio Aurélio, Augusto e Elise, vocês sabem como eu me transformei. Agora, quero salvar (ou tentar salvar) o amor que sinto por meus irmãos.
Eu preciso vê-los. Você pode imaginar que esta decisão é definitiva. Estou totalmente preparada para o reencontro, e para suas inevitáveis conseqüências, sejam elas quais forem. Muitas vezes na vida tomamos decisões atrasadas, talvez por pensarmos muito antes de tomá-las, e a minha eu desejo assumir neste momento. Eu amo meus irmãos. Esta é uma certeza que tenho desde o nascimento de Felipe. Voltei a ter nas mãos dois pequenos seres para cuidar e sei o que isso significa. Geraldo e Virgínia já não são mais crianças e eu também não. Estamos livres da influência que papai e mamãe tiveram sobre nós e você não imagina o quanto me são indiferentes.
Tenho meus filhos para criar. Eles não me temem, apesar de às vezes eu lhes dar umas palmadas, mas jamais sofrerão da maneira como meus irmãos sofreram, ou como eu sofri. Coisas dolorosas, duras demais para serem lembradas, e por isso mesmo difíceis de esquecer. Infelizmente, com muito pouca idade, fui uma das piores pessoas que eles conheceram em suas vidas.
Bom… Como sabe, estamos em férias, e, como sempre, estamos indo para nosso apê na praia. E aí quero ver meus irmãos. Você se importa de tentar fazer o meio de campo? Não quero interferir nas vidas deles sem ser para lhes dar felicidade. Acho que posso mostrar-lhes como realmente é a irmã que eles têm… Eles têm que esquecer a criança que eu fui e conhecer a mulher que eu sou.
Já estaremos aí na véspera de Ano Novo. Um beijão para vocês todos, da Marina, do Felipe, do Roberto e de mim. Reitero minha certeza de que todos aí estão bem e desejo que o Natal e o Ano Novo sejam cheios de felicidade e muita paz.
Sua sobrinha
Helena”
Dando Continuidade
AVISO
A partir de hoje será dada continuidade à publicação das minhas historinhas águas-com-açúcar.
Como sei que para algumas pessoas é complicada e chata a leitura de textos muito grandes (falo por experiência própria) na internet, reitero que na primeira coluna ao lado do corpo do blog há uma divisão dos textos em categorias, portanto, quem não quiser acompanhar as publicações, vá direto no menu lateral e escolha a categoria que mais lhe interesse.
Só para não deixar passar batido, a novela que vem a seguir é composta de 41 capítulos, que serão dividos em no máximo duas partes cada, sendo que a frequência para postagem incialmente programada será de meio capítulo por dia, podendo haver alterações para mais ou para menos, dependendo da disponibilidade do autor e da maneira como o WordPress vai se comportar no momento do procedimento de “cópia e colagem” dos textos.

