08:30
O dia amanheceu ensolarado. Não há previsão de chuva e a temperatura pode chegar a 18ºC. Agora, 10º.
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“Abílio não sabia ao certo o que estava fazendo naquele lugar, àquela hora. Descontada a parte de que não gostava de dirigir entre 18 e 20 horas, não tinha a menor idéia do que poderia acontecer.
Não era a primeira vez que passava por aquele tipo de situação. Sabia que quase nunca dava certo. Não sabia ao certo por que tinha atendido ao chamado. Como se a história não fosse com ele. Como se fosse alguém convidado para dar uma opinião. Alguém que não estivesse envolvido.
Quando ela chegou, ele quase começou a entender por quê.
*
Esta foi uma introdução de algo que passou pela minha cabeça. De repente, quando chegou o momento de colocar no papel, a idéia se esvaziou.
Se eu fosse realmente escrever um diálogo (que podia se tratar tanto de um primeiro encontro quanto de uma reconciliação, mas a escolha de palavras apontou diretamente para a segunda hipótese), o Abílio se transformaria em Bil, porque assim ele seria ou inicialmente apresentado ou carinhosamente chamado por alguém que já o conhecesse.
Compor um personagem me parece fácil: todos os homens são iguais, todas as mulheres também, e assim seguimos em frente (a caneta, a história e eu).
Para ela, pensei que poderia se chamar Lorena. Não é um nome fácil de gerar um apelido. São poucos os nomes femininos que geram um apelido diferente que não seja um mero diminutivo.
*
- Que bom que você veio. – disse ela, logo ao chegar. – Quero dizer, que bom que aceitou o convite.
Ele pensou um pouco, antes de dizer:
- Era tão importante assim que eu aceitasse?
Ela sorriu, baixando a cabeça.
- Foi importante o suficiente para que eu o formulasse.
- Bem… – ele se recostou na cadeira. - Aqui estou. Já haviam me dito que isso aconteceria.
- Ah, é? Uma de suas amigas?
- Aham. Uma delas disse que o fato de você ainda não ter devolvido minhas coisas era sinal de que ainda não havia terminado.
- E você acreditou nela?
- Ela é mulher. Deve entender um pouco de mulheres.
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Aqui há uma espécie de bifurcação: ela poderia dizer que a amiga dele estava certa; poderia dizer que só não entregara o material dele antes por falta de tempo.
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- Bom, eu acho que ela pode não estar totalmente errada. Se fosse só para entregar seu material eu poderia pedir para que algém o fizesse.
- Foi uma coisa que eu também pensei.
- Mas eu não sabia se você concordaria em me ver de novo. Pensei que talvez você já estivesse com alguém e descartaria totalmente a hipótese.
Ele sacudiu a cabeça.
- Se eu estivesse com alguém talvez fosse, mesmo, impossível, estar aqui. Provavelmente estaria envolvido com uma pessoa tão ciumenta quanto você. Não teria a sorte de conhecer alguém que fose diferente.
- Será que não?
- Duvido muito.
- E se eu lhe disser que estou, agora muito diferente?
- Talvez fosse a minha vez de repetir que milagres acontecem.
*
Esta seria a altura da conversa em que a moça poderia começar a falar sobre seus sentimentos; sua relação com o ciúme; poderia contar a ele coisas que aconteceram em sua vida enquanto não estiveram juntos e que a tinham modificado. Seria inevitável, nesse caso, que ela fizesse comparações consigo mesma.
*
Faltando: 217, 833, 2080 dias para a minha aposentadoria, 36, 649, 1141, 124, 2691, 33, 1427, 50 dias para o início do horário de verão.
*
- Você sempre vai achar que eu serei uma ciumenta incorrigível, não vai?
- É bem possível. Mas não há garantias de que eu sempre vá pensar em você de alguma maneira.
- Eu sei. Acho que foi por isso que o convidei.
- Precisou de muita coragem para fazer isso?
- Você sabe que sim. Eu sei que não fui muito legal com você.
- Não precisamos falar nisso.
- Verdade, não precisamos. Mas eu gostaria.
- Eu não. Se você diz que está diferente, se sente assim, fico feliz por você.
- Mas vai querer manter distância…
- Uma certa distância, sim. Acho que você pode entender. Mesmo que fosse para recomeçar, não poderia ser do mesmo ponto em que paramos.
- Você admite, então, que poderia haver essa chance?
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O ser humano é contraditório.
Todo mundo é firme para algumas coisas e frouxo para outras. Acredito que o principal passo para compreender tudo isso é admitir a própria contraditoriedade. É o primeiro passo para a pessoa conseguir se movimentar tanto dentro da aceitação quanto da modificação, ou, ao menos, da tentativa de.
*
- Não sei. No momento, isso nem passa pela minha cabeça. Há pessoas que mudam. Há as que não mudam. Não sei qual das duas é você.
- Você só sabe aquilo que conheceu.
- Pois é.
- Não sabe se gostaria de conhecer uma “eu” diferente.
Outra pausa dele, antes de dizer:
- Uma você diferente eu gostaria de conhecer, sim. Mas não queria ter conhecido a você anterior. Seria muito mais fácil. Não haveria recordações.
- Todas elas más?
- Você sabe o que eu quis dizer. Se não fossem as más recordações não teria havido rompimento.
- Entendo.
*
Aqui também poderia rolar um momento de silêncio constrangedor para ambos, mas especialmente para ela. Obviamente a situação se encaminhava para uma circunstância na qual ele estaria “por cima“, enquanto ela veria sua auto-estima descer a níveis abaixo de zero. O momento só poderia ser salvo por ela mesma, se continuasse falando, mas também dependeria do que falasse.
*
- Mas foram as mesmas más lembranças que me fizeram convidá-lo. Também tenho más recordações de mim mesma. Sou obrigada a conviver com elas, ao contrário de você. Eu as reconheço e preciso me desculpar.
Os olhos de Abílio não esconderam a surpresa que ele sentiu ao escutar aquelas palavras.
- Está me parecendo muito sincero… – começou a dizer.
- E você está parecendo tremendamente surpreso. – ela deu uma risada. – Minha vez de dizer que milagres acontecem.
- Bem… acho que nem você pode negar…
- Claro que não. Não nego nada, pelo contrário, estou pedindo desculpas. Sei que não é o suficiente para ajudar a mudar a imagem que você ficou de mim, mas acho que é um primeiro passo.
- E o que foi que aconteceu?
- Para que eu mudasse? Quer mesmo saber?
- Se quiser contar…
*
E neste momento começa a acontecer uma parte do diálogo que esperou a hora certa para ocorrer.”
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Escrito entre 19 e 26/08/2008
Porto Alegre
Depois do diálogo que escreveste no blog não quero mais ver vc questionando sua competência de escritor…rsrrs
Acredite (eu sou suspeita pra dizer, mas digo mesmo assim), vc é um excelente escritor…
Parabéns!
Valeu a pena ficar dois dias sem ler o blog e ser surpreendida por vc e pelo seu talento de escritor
Beijos!
Selma