Abrindo parênteses, antes mesmo de começar a escrever
A melhor coisa de escrever no modo centralizado é não ter que me preocupar com margem de lado nenhum. Saio escrevendo e o programa determina.
Fechando parênteses
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Mais uma vez citando Moacyr Scliar e sua coluna da ZH de domingo, ele fala de uma coisa com que eu concordo plenamente, sobre a ficção: ela é a vida como a gente acha que deveria ser, portanto não é mentirosa. Nenhuma ficção é mentirosa, porque não trata da realidade como ela é, mas de como achamos que deveria ser. Mesmo aquelas que retratam a realidade nua e crua, mesmo essas, tratam a vida como quem as cria vê, ou acha que vê, ou gostaria de ver, ou lamenta ter que ver.
Dito (ou escrito) isso, me atenho ao final de uma história que escrevi, e que tenho pronto, mas que não tenho coragem de assumir e publicar.
Trata-se de um final em que acontece um lance de amor à primeira vista. Na época em que escrevi não me parecia autobiográfico, e ainda não me parece, porque este tipo de coisa nunca me aconteceu. A meu juízo, amor à primeira vista não é para pessoas como eu. Entretanto, há a parte dos questionamentos pessoais do personagem masculino, que nem era o principal da narrativa, mas que se envolve com uma das personagens femininas principais, que me parecem muito semelhantes aos meus, e olha que quando comecei a botar aquela ideia no papel escrevi sobre uma pessoa que tinha mais idade do que eu tenho hoje, mas que foi criada há mais de 20 anos.
Então.
Aos 52 anos, o pai de Nic e Elaine se questionava sobre a falta de romance em sua vida. A mulher, que originalmente se chamava Madalena, mas que vou singelamente rebatizar, não estava mais representando algo de novo e bom em sua vida. Talvez até nem precisasse representar algo de novo, mas, para que continuassem juntos, mesmo sem novidade, deveria ser algo bom, que eventualmente pode acontecer. Mas havia horas que nem isso ela representava.
Nada de novo, nada de bom.
E ele também estava começando a se questionar sobre o tipo de pessoa que estava se tornando, por conta daquele convívio. Já tinha sido aconselhado pela própria filha a se separar. Elaine enxergava de longe que seu pai estava com problemas, e que estes eram criados basicamente pela pessoa que a mãe havia se tornado.
E então surgiu Marisa. Que mal e mal conhecia Nic, que não conhecia Elaine.
E com ela surgiu o amor à primeira vista. Inédito para ambos.
Toda esta parte tenho escrita em casa, mas para torná-la pública terei que reescrevê-la, recriar diálogos, personagens, tudo, porque hoje eu já não sou, também, aquele que escreveu essas coisas há 20 anos.
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É o mesmo que penso sobre o que escrevia nos anos 70 e 80.
Não sou mais aquele que escreveu. Há coisas ali nas quais não acredito hoje, e nem sei por que foram escritas. Então, que razão há para que eu as tire do pepel e traga “à colação“, na telinha?
Existe uma tendência muito forte de que eu jogue tudo fora, o que não fiz durante anos, mas o fato é que preciso me livrar da papelada.
Faz bastante tempo que ando com o espírito de “eu hoje joguei tanta coisa fora.“
Não vai começar e nem terminar por isso, mas vai passar por.
Porto Alegre