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Capítulo 9 pt. 1

       ROGÉRIO despertou, no domingo, com uma sensação muito forte de perda. Uma sensação que o deixava deprimido. 

      Seu primeiro pensamento foi para Luciana. 

      Não tinha muita certeza de por que estava pensando nela. 

      Imaginava que uma parte daquilo tinha origem no que acontecera na casa de Laura, na noite anterior. 

      Ainda não tinha esquecido a vontade de abraçá-la e beijá-la que havia sentido. Jamais saberia o que poderia ter acontecido se o outro rapaz não tivesse aparecido. Mas, em compensação, com Cinara e o amigo dela presentes, certamente nada aconteceria. 

      Não, ele não podia afirmar isso. Os dois poderiam sair, e então ele ficaria a sós com Laura. 

      De toda maneira, nada daquilo tinha acontecido e, de tudo que acontecera, restara-lhe aquela sensação de perda. 

      O que mais o deixava intrigado era que tal sensação não tinha origem em Laura, mas em Luciana. A coisa toda não estava em perdê-la por causa da existência de uma outra menina. Luciana, mesmo não gostando de Laura, mesmo sabendo do interesse dele pela outra menina, não desistira de sua vontade de estar com ele. Como não tinha percebido isso? A sensação, agora, era de ter perdido Luciana para o julgamento que fizera dela. 

      E isso era horrível. 

      Mesmo que ela nunca mais lhe dirigisse a palavra, queria pedir-lhe desculpas. Depois ficaria na sua.   

      Rogério olhou para o irmão, que ainda dormia, e procurou o relógio. Eram nove e alguma coisa da manhã. 

     

      Se soubesse onde encontrá-la, sairia atrás de Luciana, naquele momento. Se tivesse um número de telefone, ao menos…     

      Rogério começou a vislumbrar a perspectiva de algum dia vir a deixar de ser um idiota. E este dia, aparentemente, não estava muito longe. Ou até já tinha passado. Ou o estava vivendo naquele domingo. 

     

      Rogério não tornou a olhar para o relógio a não ser quando percebeu que Eduardo estava se mexendo na cama. Com muito custo, ele abriu os olhos e percebeu Rogério já desperto. Tornou a fechar os olhos, suspirando. 

      Os últimos minutos de sono ele gostava de curtir, como se não tivesse forças para levantar. 

      Ainda de olhos fechados, falou: 

      – Cara, que fogo que eu tomei… 

      Rogério nada disse. Limitou-se a ficar olhando para o irmão anestesiado 

      Passados mais alguns minutos, Eduardo olhou para o irmão. 

      – Bah, meo, no que você está pensando? Está com uma cara de abutre que vou te contar! 

      – ‘Tá bom, você vai sair, à tarde? 

      – Hum, hum. – Eduardo tornou a fechar os olhos. – A Bete quer ir ao fliperama. 

      – Fliperama? O que houve com você, virou abobadinho? 

      – Claro que não. 

      – Isso é coisa de guri da minha idade. Ela não sabe que você não gosta? 

      – Sabe. 

      – E você vai, mesmo assim? 

      – Vou, né? Ela gosta. De vez em quando tenho que acompanhá-la em algo que ela gosta. Senão, meo, vem outro e vai com ela. 

      Rogério ponderou que, se seu irmão concordava com aquela idéia, era porque gostava muito de Elisabete. 

      – Eu estou numa enrascada, Eduardo. 

      – Você? O irmão desajustadinho? 

      Apesar da pilhéria, Eduardo permaneceu sério, de olhos fechados. 

      – Andréa falou com você sobre o açougue que a mãe quer botar no armazém? 

      – Falou. 

      – Você adorou ela me chamar de desajustadinho, né? 

      – Pode apostar. Isso é bem feito para você. Precisa perder essa mania de ficar classificando as pessoas. 

      Rogério ficou quieto, um pouco. Não era por nada, mas seu irmão sabia do que estava falando. 

      – O que foi que você andou fazendo agora, guri? – insistiu Eduardo. 

      – Você já acordou? Vai prestar atenção? 

      – Aproveite enquanto eu estou com tempo. Me conte tudo. 

      Rogério o fez. 

      Contou-lhe tudo o que podia sobre Laura e Luciana. Quando terminou, Eduardo já não conseguia ficar de olhos fechados. 

      – A filha da Cinara Vergara? – falou. – Nem dá pra dizer que aquela mulher tem uma filha de dezesseis anos. 

      – Mas tem. Ela é um mulherão. 

      – Mas a filha… pisou na bola com você. E você… pisou na bola com a outra. Eu disse que você precisa perder essa mania… 

      Rogério ficou quieto. 

      – ‘Tá bom, e o que pensa fazer, agora? – continuou Eduardo. – Será que a menina aproveitou para terminar o namoro com o cara? Se ela disse que estava descurtindo… 

      – Não sei, não. Ela parecia muito apavorada… 

      – Bom… isso é problema dela. E você não deve julgá-la. Afinal, pelo que contou, ela sempre foi muito legal com você. 

      – É, sempre foi. 

      – E as pessoas cometem erros. 

      – Bah, nem me fale. 

      – Pois é. Ela vai procurar você de novo. Se ela tiver terminado com o cara, lá, você vai ter essa guria na mão… 

      – Você está pensando só na parte do come-come. 

      – Ah, ‘tá, e você não pensa nisso, vai me dizer? 

      – Quando está com a Bete você só pensa nisso? 

      – Claro que não, mas isso aparece, em algum momento. No começo, até que era o tempo todo, mas agora já mudou, ela é muito legal… 

      – Pois é, e eu já vejo agora que as duas meninas, de uma maneira ou de outra, foram muito legais comigo. 

      – É. Uma foi tão legal que você jogou uma sentença em cima dela, pensando em ficar com a outra, mas a outra botou você numa gelada, e agora você quer ir correndo para a que foi julgada. 

      – Ah, também não é assim… 

      – É, sim, é bem assim. Olhe, eu vou lhe dizer o que é ruim, nessa história: as duas estudam na mesma escola que você. Não fosse isso, você podia tentar limpar a barra com a da sua turma… 

      – De que jeito? 

      – Problema seu. Você estraga tudo sozinho, agora precisa de ajuda para consertar? 

      – ‘Tá, e o que mais? 

      – Bom, você limpava a barra com esta gata, até podia namorá-la, se ela continuasse lhe dando papo. Já a outra, você papava e pronto. Mas se fizer isso, ela pode estragar eu lance com a outra. 

      – ‘Tá, Eduardo, e aí? O que você faria? Deixando a lei da floresta de lado, claro. 

      Eduardo riu com a comparação do irmão.


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