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Capítulo 9 pt. 2

      - Você pretende comentar essas coisas com a Andréa? 

      – Talvez. 

      – Está maluco, não tem amor à vida. 

      Rogério impacientou-se. 

      – Você não está me ajudando muito. 

      – Cara, eu estou me divertindo. – Eduardo deu outra risada. – ‘Tá, mas é o seguinte: pense, agora, antes de responder. Como é, mesmo, o nome da esnobe presunçosa? 

      – Luciana. – foi a vez de Rogério rir. 

      – Luciana. – repetiu Eduardo, para fixar o nome em sua cabeça. – Não há dúvida de que, na segunda-feira, amanhã, se você quer tentar conservar a amizade da gata, tem que chegar nela e pedir desculpas humildemente. Lhe dou outra letra: faça dela sua confidente. Conte a ela o que aconteceu, fale de suas impressões, peça-lhe conselhos, ou, melhor, escute-a, quando estiver lhe dando conselhos. Se ela quiser, ainda, falar com você, claro. Mas preste atenção: jamais diga a ela qualquer baboseira do tipo “pensei o tempo todo em você”, porque ela pode pensar que foi só porque não deu certo o lance com a outra garota. Vai soar falso. Não importa que tenha pensado nela o tempo todo, é uma coisa que ela não precisa saber. 

      Rogério ficou ponderando tudo que o irmão lhe dizia. 

      – E quanto à outra gata… ou você esquece dela, ou fica só amiguinho, sem maiores. Se acontecer alguma outra coisa entre vocês, deixe bem claro que é só sexo. 

      – Bah, acho brabo, ela não é alguém que se descarte assim. 

      – Bom. Sei lá, então, como vai administrar isso, mas é assim… 

      – ‘Tá… legal, valeu. 

      – Depois você me conta como foi. 

      – Pode crer. Só tem uma coisa me incomodando, ainda. 

      – O que é? 

      – Ela não pode pensar que eu só decidi pedir desculpas depois que aconteceu aquele outro episódio? 

      Eduardo ficou pensativo. 

      – É, até pode. 

      – Pois é, isso de fazer dela uma confidente pode fazer com que ela se afaste de mim. 

      – Hum… – Eduardo pensou mais um pouco. – As chances de ela saber disso através de outra pessoa…? 

      – Só se a própria Laura lhe contar. 

      – Mas você disse que as duas não se dão. 

      – E é verdade. 

      – Bom, então só peça desculpas e não diga nada sobre a outra parte. 

      – É, acho que fica melhor assim. 

      – Tudo bem, então. Em caso de a dúvida persistir, fale com Andréa. 

      – Bah, não, obrigado. 

      E os dois caíram na risada.

                          *                           *                          *                         * 

      Para Laura, os problemas ainda não estavam terminados. Era meio-dia de domingo, quando Marco Aurélio chegou. 

      Cinara ainda dormia, e Laura sabia que a conversa poderia não ser nada fácil. Por isso, concordou em sair para almoçar com Marco, em algum lugar fora de casa.

      O clima era tenso. 

      Laura estava muito quieta, de braços cruzados. Não queria falar enquanto ele estivesse dirigindo. 

      Quando finalmente pararam em algum lugar, ela disse: 

      – Olha, eu não vou descer do carro. Pelo menos, não para comer. E daqui vou voltar para casa sozinha. 

      Marco a olhou por segundos, antes de dizer: 

      – Incrível como você está diferente, Laura. Deve estar, mesmo, muito apaixonada por ele. 

      Laura moveu o canto da boca num arremedo de sorriso. 

      – Não sei se estou apaixonada por ele. Por você, sei que não estou mais. 

      – E o que foi que mudou? 

      – Não sei. Você. 

      – Eu?? 

      – Sim, você. Ultimamente, só o que sabe fazer é me apresentar para um monte de gente, dizendo: “Ela é filha da Cinara Vergara.” É a filha da Cinara Vergara… – ela fez uma expressão de desdém, satirizando o jeito dele. 

      – Está com ciúme da sua mãe? 

      – Claro que não. Mas você está se mostrando para todas essas pessoas. Está me usando para que os outros o achem importante. 

      – Eu só tenho orgulho de estar namorando você, Laura. 

      – Então tinha que mostrar isso a mim.  É só a mim que isso deve interessar. Tinha que deixar os outros pra lá… Será que você não pode esperar um pouco até as pessoas me conhecerem mais, ou até descobrirem com o tempo…? Fico com a impressão de que me aturam por causa da minha mãe! 

      – Você tem a sua própria capacidade de atração! 

      – Eu sei. A estou exercendo neste momento. 

      – Com aquele guri? 

      – É, Marco. Com aquele guri. Que até ontem à noite sequer sabia de quem eu sou filha. E o estou disputando com outra garota e estou achando o máximo batalhar para conquistá-lo. Desculpe-me se estou usando de excessiva franqueza, mas você sabe como eu sou. Eu disse que estava tudo terminado, e para eu dizer isso, você sabe, não há como voltar atrás. Eu demoro para decidir, mas quando decido… 

      Ela abriu a porta do carro. 

      – Já vou indo. 

      – Espere, eu levo você para casa. 

      – Não… não é preciso, eu me viro. 

      Ela saiu do carro e fechou a porta. 

      – Se cuida, tá? 

      E saiu andando.  


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