- Você pretende comentar essas coisas com a Andréa?
– Talvez.
– Está maluco, não tem amor à vida.
Rogério impacientou-se.
– Você não está me ajudando muito.
– Cara, eu estou me divertindo. – Eduardo deu outra risada. – ‘Tá, mas é o seguinte: pense, agora, antes de responder. Como é, mesmo, o nome da esnobe presunçosa?
– Luciana. – foi a vez de Rogério rir.
– Luciana. – repetiu Eduardo, para fixar o nome em sua cabeça. – Não há dúvida de que, na segunda-feira, amanhã, se você quer tentar conservar a amizade da gata, tem que chegar nela e pedir desculpas humildemente. Lhe dou outra letra: faça dela sua confidente. Conte a ela o que aconteceu, fale de suas impressões, peça-lhe conselhos, ou, melhor, escute-a, quando estiver lhe dando conselhos. Se ela quiser, ainda, falar com você, claro. Mas preste atenção: jamais diga a ela qualquer baboseira do tipo “pensei o tempo todo em você”, porque ela pode pensar que foi só porque não deu certo o lance com a outra garota. Vai soar falso. Não importa que tenha pensado nela o tempo todo, é uma coisa que ela não precisa saber.
Rogério ficou ponderando tudo que o irmão lhe dizia.
– E quanto à outra gata… ou você esquece dela, ou fica só amiguinho, sem maiores. Se acontecer alguma outra coisa entre vocês, deixe bem claro que é só sexo.
– Bah, acho brabo, ela não é alguém que se descarte assim.
– Bom. Sei lá, então, como vai administrar isso, mas é assim…
– ‘Tá… legal, valeu.
– Depois você me conta como foi.
– Pode crer. Só tem uma coisa me incomodando, ainda.
– O que é?
– Ela não pode pensar que eu só decidi pedir desculpas depois que aconteceu aquele outro episódio?
Eduardo ficou pensativo.
– É, até pode.
– Pois é, isso de fazer dela uma confidente pode fazer com que ela se afaste de mim.
– Hum… – Eduardo pensou mais um pouco. – As chances de ela saber disso através de outra pessoa…?
– Só se a própria Laura lhe contar.
– Mas você disse que as duas não se dão.
– E é verdade.
– Bom, então só peça desculpas e não diga nada sobre a outra parte.
– É, acho que fica melhor assim.
– Tudo bem, então. Em caso de a dúvida persistir, fale com Andréa.
– Bah, não, obrigado.
E os dois caíram na risada.
* * * *
Para Laura, os problemas ainda não estavam terminados. Era meio-dia de domingo, quando Marco Aurélio chegou.
Cinara ainda dormia, e Laura sabia que a conversa poderia não ser nada fácil. Por isso, concordou em sair para almoçar com Marco, em algum lugar fora de casa.
O clima era tenso.
Laura estava muito quieta, de braços cruzados. Não queria falar enquanto ele estivesse dirigindo.
Quando finalmente pararam em algum lugar, ela disse:
– Olha, eu não vou descer do carro. Pelo menos, não para comer. E daqui vou voltar para casa sozinha.
Marco a olhou por segundos, antes de dizer:
– Incrível como você está diferente, Laura. Deve estar, mesmo, muito apaixonada por ele.
Laura moveu o canto da boca num arremedo de sorriso.
– Não sei se estou apaixonada por ele. Por você, sei que não estou mais.
– E o que foi que mudou?
– Não sei. Você.
– Eu??
– Sim, você. Ultimamente, só o que sabe fazer é me apresentar para um monte de gente, dizendo: “Ela é filha da Cinara Vergara.” É a filha da Cinara Vergara… – ela fez uma expressão de desdém, satirizando o jeito dele.
– Está com ciúme da sua mãe?
– Claro que não. Mas você está se mostrando para todas essas pessoas. Está me usando para que os outros o achem importante.
– Eu só tenho orgulho de estar namorando você, Laura.
– Então tinha que mostrar isso a mim. É só a mim que isso deve interessar. Tinha que deixar os outros pra lá… Será que você não pode esperar um pouco até as pessoas me conhecerem mais, ou até descobrirem com o tempo…? Fico com a impressão de que me aturam por causa da minha mãe!
– Você tem a sua própria capacidade de atração!
– Eu sei. A estou exercendo neste momento.
– Com aquele guri?
– É, Marco. Com aquele guri. Que até ontem à noite sequer sabia de quem eu sou filha. E o estou disputando com outra garota e estou achando o máximo batalhar para conquistá-lo. Desculpe-me se estou usando de excessiva franqueza, mas você sabe como eu sou. Eu disse que estava tudo terminado, e para eu dizer isso, você sabe, não há como voltar atrás. Eu demoro para decidir, mas quando decido…
Ela abriu a porta do carro.
– Já vou indo.
– Espere, eu levo você para casa.
– Não… não é preciso, eu me viro.
Ela saiu do carro e fechou a porta.
– Se cuida, tá?
E saiu andando.
Porto Alegre