SEGUNDA de manhã.
Laura estava na porta do colégio, esperando Rogério. Tinha chegado mais cedo, com o objetivo único de falar com ele antes que pudesse chegar perto de Luciana.
Quando o viu aproximar-se, atravessando a praça que ficava à frente do prédio, saiu andando na direção dele.
Achou-o muito sério, mas pareceu-lhe evidente que ele tinha gostado de vê-la ali.
Rogério desceu do ônibus ainda sem saber o que esperar de si mesmo, ao longo da manhã.
Não podia passar uma borracha por cima do que tinha acontecido, e não estava disposto a expor-se muito, para nenhuma das duas meninas.
Se Luciana não quisesse mais falar com ele, pelo menos estaria desobrigado de continuar lhe dando dicas de Inglês.
Se Laura o procurasse, conversaria com ela normalmente, mas deixando bem claro que, tendo ela um namorado, as coisas seriam diferentes.
Quando a viu, num vestido todo amarelo com estampas de flores, e os cabelos soltos, não teve como esconder um sorriso.
– Oi. – ela parou na frente dele.
– Oi. – ele parou de andar.
– Eu estava esperando você. Quero lhe falar…
Rogério permaneceu mais sério, por segundos. Depois, abriu a pasta e retirou os cadernos dela.
– Aqui está o seu material.
– Obrigada. Ainda bem que você pensou depressa…
– Olha, eu posso ser um pouco idiota, mas…
– Pare! – falou ela, muito séria, com alguma energia. – Não diga mais nada. Sei que deve estar zangado comigo. Impossível eu me sentir pior do que tenho sentido desde aquele dia. Era importante para a minha mãe que as coisas dessem certo, naquela noite. Fiquei apavorada, quando o Marco chegou. Não sabia onde me meter. Pensei nela e fiquei morrendo de vergonha, e com medo de você não querer mais falar comigo.
Rogério percebeu que ela estava nervosa.
– Ei, calma. Respire.
Laura deu-se conta de que havia despejado palavras apressadamente.
– Acertou as coisas com seu namorado?
– Ex-namorado. Não existe mais nada. Quero lhe falar sobre isso, depois… podemos nos encontrar no intervalo?
A sirene da escola alertou-os para o horário do primeiro período.
– Eu procuro você. – disse ele.
– Tudo bem, eu vou esperar.
– Ok.
Separaram-se.
Luciana estava sentada em seu lugar de costume, com os olhos voltados para o lugar que era normalmente ocupado por Rogério. Estava decidida a não permitir que seu sentimento avançasse mais. Estava começando daquele jeito, olhando para o lugar dele, o lugar vazio, evitando perguntar-se por onde andaria ele, que ainda não estava ali.
Quando chegou, Rogério foi para seu lugar quase sem olhar para os lados. Depois de se sentar, olhou para Luciana.
Achou-a linda.
Os cabelos bem pretos caindo sobre os ombros, a camiseta vermelha, a pele branca, a calça jeans azul clara, tudo com muita simplicidade.
Ela olhou para ele e sorriu timidamente.
A professora de Ciências entrou na sala e os dois primeiros períodos pareceram durar cinco minutos, tal era a capacidade de mobilização daquela mulher, para fazer os alunos participarem da aula, embora fosse basicamente uma aula teórica.
Rogério gostava demais das aulas de Ciências e agradecia de coração o fato de serem as primeiras da semana.
Depois daquela aula, vinham os dois de Inglês, com o intervalo entre eles.
Entre a saída de uma professora e a entrada de outra, Rogério virou-se novamente para Luciana e disse, sorrindo:
– Oi.
– Oi. – ela também sorriu.
– Você está bem?
– Acho que estou. – disse ela, estranhando a pergunta dele. – Não estou sentindo dor alguma… – e começou a rir.
Foi a vez de Rogério estranhar. Poucas vezes a vira com aquela disposição, ainda mais numa segunda-feira.
A professora de Inglês entrou na sala e ele disse:
– Tenho umas coisas pra falar com você. Mas combinei falar com Laura, no intervalo.
– Certo. Como ficou a história da penitência?
– É justamente isso que tenho que falar com ela.
– Nos falamos na saída, então.
Ele fez um sinal de positivo e virou-se para a frente.
As aulas de Inglês, para Luciana, tinham um efeito parecido com um porre de cerveja. Incrivelmente, já tinha tomado um, uma vez. Pimeira e única. Quase enlouquecia ao pensar que havia mais 45 minutos daquilo, depois do intervalo. Uma outra eternidade. Definitivamenmte, aquele idioma deixava-a de ressaca.
Quando finalmente soou o sinal para o intervalo, ela recostou-se na cadeira, fechou o caderno e suspirou, enchendo bem as bochechas.
Olhou para Rogério. Estava estranhando a atitude dele, e pensou em manter-se firme na decisão de não se deixar envolver mais do que já estava. E ali, ao olhá-lo, vestido com aquela camisa jeans, combinando com a calça e o tênis, com cara de inteligente, soube que não conseguiria. Mesmo que fosse para sofrer.
Quando ele se levantou para sair da sala, e seus olhos procuraram os dela, ela disse:
– Definitivamente, não sei o que fazer. O Inglês me dá pânico.
Ele riu.
– Calma, eu ajudo você. – Rogério pensou em Laura, que estaria no bar, à sua espera. Mas não queria sair dali.
– É engano meu, ou você está mais… cordial, comigo?
– Olha… – ele ergueu as mãos a meia altura, viradas espalmadas para baixo. – Depois eu falo com você com mais calma, ‘tá? Prometo…
– Certo… – ela balançou a cabeça.
Laura estava no bar, meio apreensiva. Ele estava demorando. Seus colegas não estavam acostumados com duas coisas, nela: vestidos e cabelos soltos.
Tinham passado boa parte da manhã enchendo-a de elogios, aos quais agradecia, mas prestava muito pouca atenção.
Laura sempre se julgara uma garota esperta. Não do tipo que tirava vantagem de pessoas ou situações, mas desinibida, despachada. Lidar com namorados nunca lhe fora motivo de preocupação, até porque nem tivera muitos, até o dia em que começara o namoro com Marco Aurélio.
Com ele, de quem gostara muito, no começo, aprendera que pessoas e sentimentos não eram assim tão facilmente descartáveis.
Mas, agora, era exatamente assim que estava se sentindo.
Durante os três primeiros períodos, pensara em Rogério, na sala de aula, com Luciana. Não podia nem dizer que não gostava dela, porque não a conhecia. Não sentira ciúme. Sentira tristeza. Sensação de vazio, de perda.
Ao longo da tarde de domingo já estivera com aquela sensação. Involuntariamente, tinha cometido um erro. Era uma lição que jamais esqueceria, tinha pensado.
Porto Alegre