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Cap. 1 Pt.2

     Gisela terminou de ler a carta da sobrinha e entregou-a à filha.

     Seus olhos castanhos pousaram sobre os sanduíches que as duas fizeram para a ceia de Ano Novo. As palavras de Helena fizeram-na recordar o último encontro que tivera com sua irmã, muitos anos atrás. O dia em que tirara Geraldo e Virgínia das mãos de Natália e Eduardo, passando a criá-los ao lado de Elise e Augusto.

     Natália tinha sido vítima das ideias atrasadas dos pais, os mesmos pais que ela, Gisela, enfrentara por causa de seu amor por um homem negro, Aurélio, um envolvimento muito mais condenável pela sociedade da época, trinta anos antes, do que agora.

     Natália e Eduardo quase arruinaram a vida de Helena, que fora uma criança de aparência adorável, mas que tinha olhos enigmáticos, por medo, soube-se depois. Mas ela fugira, aos doze anos, com o namorado, Roberto. E então, contara tudo. Gisela e Aurélio imediatamente tiraram as crianças da casa dos pais e ameaçaram, entregar o caso à Polícia, caso tivessem problemas.

     Gisela olhou para a filha, que lia distraidamente a carta da prima.

     Elise herdara seus cabelos pretos lisos e seu sorriso. Herdara um misto de sua cor de pele (pois ela própria era meio morena) e a pele do pai, que não era muito escura. Considerava-a muito bonita, assim como a Augusto. Aquelas duas belezas, duas crianças, suas e de Aurélio, jamais seriam tão bonitas se fossem totalmente negras ou totalmente brancas. A cor de cuia ou cor de jambo era fundamental em sua beleza. Jamais conheceram seus avós maternos e seus tios nunca lhes deram o menor apreço. Porém, tendo sido criados juntos, davam-se bem com os primos Geraldo e Virgínia e, desde alguns anos atrás, com Helena e sua família. Helena era pediatra, uma mãe maravilhosa, muito diferente do que os irmãos lembravam dela. Para eles, a imagem era a de uma torturadora.

     Para Gisela, Helena era como sua filha. Todos eles eram seus filhos, afinal, e pensar neles não lhe trazia lembranças de Natália, mas dos erros dela.

     – Eu queria escrever como ela. – disse Elise, olhando para a mãe. – Será que eles notam se ela for fazer a redação do Vestibular no meu lugar? – começou a rir.

     – Você acha mesmo que ela toparia fazer isso? – rebateu Gisela.

     – E por que não? É só ela pensar no bem para a Humanidade que fará, me ajudando a entrar para a faculdade.

     – Pergunte a ela e me conte a resposta, depois.

     Elise suspirou.

     – Assim você não está me ajudando, mamãe. – ela tornou a dar uma risada. – Acho que isso que ela quer fazer vai estragar o veraneio dela…

     Gisela fez um meneio de cabeça.

      – Quase estragaram a vida dela, também, e eu considero ótimo o esforço que ela faz para consertá-la. Embora saibamos que nenhum dos dois irmãos tem vontade de vê-la novamente.

     – Temos certeza disso? Virgínia voltou a ver os pais, agora.

     Gisela pensou um pouco.

     – Virgínia me surpreende. Nem parece que sofreu nas mãos deles.

     – Bobagem, mãezinha. Você esquece o que ela passou na sua mão. Você foi a mãe dela.

     – Bom, isso é uma outra história. Eu acho que eles precisam saber como ela é, antes que ela os reencontre.

     – Eles nunca nos permitiram sequer continuar qualquer assunto referente a Helena. – ponderou Elise. – Mas se Virgínia está visitando os pais de novo… a bronca maior vai ser com o Geraldo.

     – Concordo. Mas nós vamos tentar. – Gisela sorriu. – Tenho adoração pelos filhos de Helena, bem como por ela e Roberto, e acho que essa união de família pode influenciar definitivamente na decisão deles.

     Elise estava com ar pensativo.

     – Podíamos primeiro incentivar um encontro entre Virgínia e Helena, dependendo das reações de Virgínia. Se ela concordasse, depois do reencontro com Helena, poderia tentar com Geraldo. Vou falar com Helena, no fim de semana.

     – Muito bem. Agora, por favor, busque os homens, para tomarmos uma laranjada.

     - Eles já leram a carta?

     – Vou mostrar-lhes agora.

     – Eu já volto. – Elise deixou a cozinha. 


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