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Renascendo – Cap. 1 Pt. 1

Querida tia Gisela

     Meus olhos pousaram sobre os dois pequenos seres que dormiam com seu ressonar infantil. Bem, até que nem tanto: com o nariz entupido, Marina roncava como um adulto. – risos.

     A penumbra dava àqueles corpos de criança um brilho mágico, por terem ambos saído de dentro de mim. Essa impressão me trouxe um sorriso aos lábios. Muitas lembranças me vieram ao pensamento, me causando alguma dor no coração de mãe. Lembranças de infância, uma parte sofrida de meu passado, cheia de medos e insegurança, onde nada foi fácil.

     Lágrimas vieram aos meus olhos. Fiquei olhando para meus filhos adormecidos, meus demoninhos angélicos. Duas crianças agora, duas no passado. Minha segunda chance com crianças. A primeira foi um fracasso. A minha inocência. Outra criança. Mas agora, não. É bem diferente. Estou adulta, e o passado é apenas uma sombra. Porém, existem resquícios… Resquícios vivos.

     Fechei a porta do quarto, atirando ao ar um silencioso beijo para os filhos e agradecendo a Deus por possuir aquelas duas crianças, fruto do meu amor, e símbolo de meu reencontro com a vida, com a inocência da vida.

                                                                                                  
     Minha reabilitação.

     Olhei para Roberto, que ressonava tranquilamente, em nossa cama. Ele é o meu homem, meu melhor amigo. A pessoa que me conduziu de volta ao amor e à verdade. Através dele retornei à inocência, uma inocência minha, perdida ainda quando criança, e que toda criança traz consigo. Uma criança deixa de ser inocente quando começa a distinguir entre o bem e o mal. Aos pais cabe ensinar-lhe o bem e a ser boa. Entretanto, quando isso não acontece, quando a orientação encaminha para o mal, estimula a prática de maldades, então tudo desmorona, e a criança é sempre um espírito sem forças, em formação, um ser frágil e sem apoio.

     Caminhei para a sala, ainda pensando em Roberto.

     Ele já cumpriu a sua parte, por assim dizer. Trouxe-me de volta ao mundo mágico da inocência infantil. Fez-me ver o quanto vale respeitar um corpo pequeno e frágil, o que significa um pequeno cérebro vazio de maldade. E, acima disso, ensinou-me a eliminar totalmente a culpa. Fiz, eu também, com que duas crianças muito cedo distinguissem o mal do bem. Ensinei-os a sentir o mal em sua própria carne. Mas não era eu.

     Conversei com Roberto sobre minha idéia. A decisão já está tomada, as forças para levá-la a cabo estão dentro de mim. Prever as reações das pessoas é um mito. Nunca dá certo. Mas não quero correr o risco de omitir-me mais uma vez, e desta vez comigo mesma. Certamente não conseguirei reparar os erros cometidos, mas preciso fazer alguma coisa por mim mesma.

     Por isso, peço sua ajuda.

     Estou começando a perder o sono, não consigo dormir quando estou com um problema para resolver. E há, ainda, o desejo de apresentar dois adultos a duas crianças. Duas crianças a dois adultos. Embora não precise disso, penso em readquirir o amor de duas pessoas a quem se ensinou a odiar. Agi como se as odiasse e admito ser odiada por eles. Talvez ainda o seja por muito tempo, se não as procurar para demonstrar-lhes minha verdadeira personalidade. Sei que podem vir a odiar-me ainda mais se tentar fazê-lo.

     Mas só há uma maneira de saber. Tenho que arriscar. Roberto disse que não se importa, desde que eu não sofra. Então, este é o momento.

     Peguei este caderno, a caneta, e hesitei.

     Pedir ajuda é um gesto que devia ter sido feito há muito mais tempo. Sempre pude contar com seu auxílio, pois meus pais não foram as únicas vítimas da incompreensão e ignorância de meus avós. Pedir ajuda é um gesto que causará surpresa, especialmente em se tratando do que vou pedir. Não tive tempo de preparar Marina para o que pode acontecer a seguir, mas não tem importância. Ela só conhece a Helena adulta. A Helena criança não existe em sua mente.

     Meus olhos se perdem no tempo novamente, divagando sobre um triste passado que lhes surge à frente. A menina pequena, frágil e assustada, naquele casebre, causando pânico a duas outras crianças ainda menores. O medo naqueles olhinhos me reconduz às lágrimas.

     “Que bobagem”, penso, decidida. “Não posso ficar com medo, e também não adianta chorar.”

     Entretanto, numa reação mais que humana, permito-me chorar por alguns minutos. Depois, enxugo as lágrimas, estanco-as, apertando as pálpebras com força. É agora ou nunca. Posso esquecer por um mês ou dois, talvez até por um ano, mas chegará o momento em que recomeçarei a pensar. Amo-os com todas as minhas forças. E pedirei ajuda para fazê-los saberem disso.

     Tia Gisela, desejo que a felicidade e a saúde continuem fazendo parte de suas vidas.

     Dirijo-me a você em particular, minha tia, porque você hoje me conhece bem. Sabe de tudo que aconteceu. Ajudou-nos, enfim. Todos nós, incluindo você e tio Aurélio, fomos vítimas da incompreensão de umas poucas pessoas. Embora já tenhamos discutido isso, não posso deixar de pensar que há anos devia ter pedido sua ajuda como farei agora. Acontece, querida, que chegou a hora.

     Eu fui uma vítima, e, na minha inocência, preferi ser carrasco a correr um risco que poderia salvar a mim e a eles, em especial. A inocência deles.

     Bem.

     Você sabe que hoje eu sou uma pessoa um pouco mais humana e digna, você acompanhou a mudança. Tio Aurélio, Augusto e Elise, vocês sabem como eu me transformei. Agora, quero salvar (ou tentar salvar) o amor que sinto por meus irmãos.

     Eu preciso vê-los. Você pode imaginar que esta decisão é definitiva. Estou totalmente preparada para o reencontro, e para suas inevitáveis conseqüências, sejam elas quais forem. Muitas vezes na vida tomamos decisões atrasadas, talvez por pensarmos muito antes de tomá-las, e a minha eu desejo assumir neste momento. Eu amo meus irmãos. Esta é uma certeza que tenho desde o nascimento de Felipe. Voltei a ter nas mãos dois pequenos seres para cuidar e sei o que isso significa. Geraldo e Virgínia já não são mais crianças e eu também não. Estamos livres da influência que papai e mamãe tiveram sobre nós e você não imagina o quanto me são indiferentes.

     Tenho meus filhos para criar. Eles não me temem, apesar de às vezes eu lhes dar umas palmadas, mas jamais sofrerão da maneira como meus irmãos sofreram, ou como eu sofri. Coisas dolorosas, duras demais para serem lembradas, e por isso mesmo difíceis de esquecer. Infelizmente, com muito pouca idade, fui uma das piores pessoas que eles conheceram em suas vidas.

     Bom… Como sabe, estamos em férias, e, como sempre, estamos indo para nosso apê na praia. E aí quero ver meus irmãos. Você se importa de tentar fazer o meio de campo? Não quero interferir nas vidas deles sem ser para lhes dar felicidade. Acho que posso mostrar-lhes como realmente é a irmã que eles têm… Eles têm que esquecer a criança que eu fui e conhecer a mulher que eu sou.

     Já estaremos aí na véspera de Ano Novo. Um beijão para vocês todos, da Marina, do Felipe, do Roberto e de mim. Reitero minha certeza de que todos aí estão bem e desejo que o Natal e o Ano Novo sejam cheios de felicidade e muita paz.

     Sua sobrinha

     Helena”


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