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Cap. 2 Pt. 2

     Miranda olhou para o filho, Luciano, que dormia na cama de casal. Aquele sono significava uma trégua nas hostilidades. Era incrível imaginar que aquela criança fosse um misto dela e de Márcio. Um fruto do amor. Em outras circunstâncias aquele fato deveria ser motivo de orgulho, porém, agora, o amor não existia mais. Tudo chegara a um ponto insuportável, e ela não tinha a quem apelar. Arrependia-se amargamente de ter concordado em ir morar num lugar distante, sem telefone, sem carro, sem amigos e sem um emprego. Sua última e única alternativa tinha sido contar com a colaboração dos vizinhos, a quem pedira encarecidamente que enviassem uma carta a seu pai, o que foi feito numa situação incrível, onde ela ditara pela janela uma mensagem, passando o endereço de seu pai para uma filha do casal, uma menina de 15 anos, que ficara no muro copiando tudo, enquanto ela praticamente sussurrava as coisas, num dia em que Márcio estava em casa. Se eles recebessem a carta, Márcio seria pego de surpresa. Se não, o que fazer? Durante a semana ele a trancava em casa e levava a criança para uma creche que ela nem sabia onde ficava. As janelas tinham grades e ele a ameaçava de nunca mais tornar a ver o filho. Alternativas passavam pela cabeça de Miranda, entre elas matar o marido, mas isso além de desamparar totalmente ao filho, priva-la-ía ainda mais de seu maior bem, que um dia esperava recuperar: a liberdade. Ir para uma penitenciária não era a sua idéia de livrar-se de um problema. Então, ela estava de mãos atadas, à espera de um milagre.    
     Com os braços doendo muito, Miranda tinha vontade de chorar, mas Márcio não gostaria disso. Ouviu a descarga do banheiro. A guerrilha estava para recomeçar. A porta abriu-se e ela o ouviu aproximar-se do quarto.      

     Márcio parou à porta, olhando-a calado. Seus olhos castanhos penetrantes deixavam transparecer um ódio desmedido contra ela. Sem saber por que aquilo acontecia, Miranda sustentava-lhe o olhar, ciente de que aquilo o desafiava. Sabia que tal atitude lhe custaria caro, mas não podia dar-lhe a certeza de que a amedrontava. O que ela mais queria era proteger Luciano. E também saber por que Márcio a tratava daquela forma.    
     – O que é que você está olhando? – disse o rapaz, em voz alta.
     – Não se exalte. – retorquiu ela, calmamente. – Quer acordar o menino?
     – Você passa o tempo todo dentro de casa, e eu estou com fome. Não vai fazer nada para o almoço?
     – Faça você mesmo. Estou com os braços doloridos de sua brutalidade.
     – Escute aqui. – Márcio pegou-a por um braço, obrigando-a a erguer-se da cama. – É sua função fazer isso para mim.
     Apesar de sentir uma forte dor, Miranda permaneceu calada, não querendo prejudicar o filho. Seus olhos continuaram desafiando o marido, e a jovem até se admirava com a própria garra.
     Márcio puxara-a para fora do quarto. Logo em seguida, alguém tocou a campainha.
     “Será o meu milagre?”, pensou Miranda, desacostumada de receber visitas.

     Ela parou, o coração acelerado pela esperança. Márcio foi até a porta e olhou pelo “olho mágico”. Ao ver o cunhado, percebeu que poderia ter problemas. Voltou para junto de Miranda e disse:

     – É o seu irmão.

     Miranda sorriu, olhando-o com malícia.

     – Agora você se ferrou. O que vai fazer?

     – Vou falar com ele. Se você der um pio, quem se ferra é você.

     – E se ele quiser entrar?

     – Não vai querer.

     Novo toque. Márcio foi até à porta, abrindo-a muito pouco.

     – Olá. – disse Ernesto.

     – Olá. – falou Márcio, sem sorrir. – Que deseja?

     – Que jeito estranho de receber seu cunhado, meu caro, depois de tanto tempo. Mas já que é assim, eu desejo ver minha irmã. Tenho uma notícia para dar a ela.

     – Pôxa, ela não está. Foi visitar uma amiga.

     Um pouco mais afastada, Miranda não ouviu o que seu irmão respondeu.

     – Bem, eu não tenho nada para o almoço. – disse Márcio.

     Miranda estava bastante apavorada com o pensamento de que sua chance pudesse escapar. Poderia ficar calada e continuar com a esperança de uma mudança no modo de agir de Márcio e de que tudo voltasse ao normal. Mas tal esperança, baseada acima de tudo na criação de Luciano, não podia ser maior que sua necessidade de, como ser humano, levar uma vida digna, com chances de crescimento espiritual. Márcio jamais mudaria e certamente não saberia dar valor à sua dedicação, se decidisse permanecer ali, ao lado dele. Uma decisão como aquela parecia-lhe ser insuficiente para reverter a situação. Ao contrário, Márcio podia vir a pensar que ela gostava de ser maltratada e agredida.

     Aqueles pensamentos passaram por seu cérebro numa fração de segundo, e ela percebeu que aquela era sua última chance em muito tempo de fugir daquele inferno.

     – Ernesto, eu estou aqui! – gritou.

     Já à espera de qualquer coisa, Ernesto colocou um pé na porta, forçando Márcio a abri-la. Miranda correu até o irmão e abraçou-o, em lágrimas.

     – Mano… Por favor, me leve embora!

     Ernesto olhou para ela, para suas marcas, e controlou-se para não chorar, também. Miranda estava com a boca inchada e tinha marcas vermelhas nos braços e no rosto. Vestida com jeans e colant, parecia uma caricatura da menina viva e alegre que ele vira crescer.

     – Pegue o bebê e vamos embora. – falou à irmã.

     – Negativo. – interveio Márcio, colocando a mão no braço de Miranda. – Quem manda aqui sou eu.

     – Tire a mão dela. – falou Ernesto, com firmeza. – Por que não experimenta bater em mim?

     – Você não pode levá-la.

     – Posso, e vou. Tente me impedir, para ver o que acontece.

     Miranda livrou o braço e encaminhou-se para o quarto.

     – Miranda! – Márcio fez menção de sair atrás dela.

     Ernesto já estava psicologicamente preparado para entrar em luta corporal com o cunhado. Sabia que, graças à ginástica, estava com bom preparo físico. Sabia, também, que, devido às sessões de musculação, estava com um potencial de impacto bastante forte, se precisasse aplicar um soco em alguém. Como aquilo parecia inevitável, Ernesto pegou o cunhado por um braço e soqueou-o no rosto, tendo Márcio cambaleado, com o nariz ensangüentado. Ao perceber-se ferido, Márcio avançou para Ernesto, que não se deixou surpreender. Mais uma vez, desferiu um soco em Márcio, que jogou-se-lhe por cima. Ao cair, Ernesto bateu com a cabeça na quina do braço de uma poltrona estofada, o que amorteceu em parte o choque. Soqueou o estômago de Márcio, pensando, na hora que, embora não estivesse acostumado àquele tipo de atividade, o outro certamente estava menos ainda, o que lhe concedia pequena vantagem. Márcio conseguiu acertá-lo no estômago, também, deixando-o momentaneamente sem ar. Com algum esforço, conseguiu jogar Márcio à distância.

     Miranda voltou naquele momento, trazendo apenas o filho e uma sacola com algumas coisas suas e dele.

     – Vamos embora, Ernesto. Não precisa mais sujar suas mãos neste monte de esterco.

     – Vamos, vamos. Passe ali por trás. Eu não deixo ele se aproximar.

     – Miranda. – chamou Márcio, ofegante.
   
     A jovem virou-se, sem vontade. Nada havia que justificasse ainda olhar para ele.
     – Eu mato você.
     Ela não respondeu, limitando-se a encará-lo, por instantes. Depois saiu. Lá fora, ela olhou para o casal de vizinhos, com os olhos ainda acostumando-se à claridade do sol.
     – Eu voltarei para ver vocês.
     – Vá com Deus, minha filha.

     Miranda sorriu e foi com o irmão para o carro.
 
 
 

 

 


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