Ela parou, o coração acelerado pela esperança. Márcio foi até a porta e olhou pelo “olho mágico”. Ao ver o cunhado, percebeu que poderia ter problemas. Voltou para junto de Miranda e disse:
– É o seu irmão.
Miranda sorriu, olhando-o com malícia.
– Agora você se ferrou. O que vai fazer?
– Vou falar com ele. Se você der um pio, quem se ferra é você.
– E se ele quiser entrar?
– Não vai querer.
Novo toque. Márcio foi até à porta, abrindo-a muito pouco.
– Olá. – disse Ernesto.
– Olá. – falou Márcio, sem sorrir. – Que deseja?
– Que jeito estranho de receber seu cunhado, meu caro, depois de tanto tempo. Mas já que é assim, eu desejo ver minha irmã. Tenho uma notícia para dar a ela.
– Pôxa, ela não está. Foi visitar uma amiga.
Um pouco mais afastada, Miranda não ouviu o que seu irmão respondeu.
– Bem, eu não tenho nada para o almoço. – disse Márcio.
Miranda estava bastante apavorada com o pensamento de que sua chance pudesse escapar. Poderia ficar calada e continuar com a esperança de uma mudança no modo de agir de Márcio e de que tudo voltasse ao normal. Mas tal esperança, baseada acima de tudo na criação de Luciano, não podia ser maior que sua necessidade de, como ser humano, levar uma vida digna, com chances de crescimento espiritual. Márcio jamais mudaria e certamente não saberia dar valor à sua dedicação, se decidisse permanecer ali, ao lado dele. Uma decisão como aquela parecia-lhe ser insuficiente para reverter a situação. Ao contrário, Márcio podia vir a pensar que ela gostava de ser maltratada e agredida.
Aqueles pensamentos passaram por seu cérebro numa fração de segundo, e ela percebeu que aquela era sua última chance em muito tempo de fugir daquele inferno.
– Ernesto, eu estou aqui! – gritou.
Já à espera de qualquer coisa, Ernesto colocou um pé na porta, forçando Márcio a abri-la. Miranda correu até o irmão e abraçou-o, em lágrimas.
– Mano… Por favor, me leve embora!
Ernesto olhou para ela, para suas marcas, e controlou-se para não chorar, também. Miranda estava com a boca inchada e tinha marcas vermelhas nos braços e no rosto. Vestida com jeans e colant, parecia uma caricatura da menina viva e alegre que ele vira crescer.
– Pegue o bebê e vamos embora. – falou à irmã.
– Negativo. – interveio Márcio, colocando a mão no braço de Miranda. – Quem manda aqui sou eu.
– Tire a mão dela. – falou Ernesto, com firmeza. – Por que não experimenta bater em mim?
– Você não pode levá-la.
– Posso, e vou. Tente me impedir, para ver o que acontece.
Miranda livrou o braço e encaminhou-se para o quarto.
– Miranda! – Márcio fez menção de sair atrás dela.
Ernesto já estava psicologicamente preparado para entrar em luta corporal com o cunhado. Sabia que, graças à ginástica, estava com bom preparo físico. Sabia, também, que, devido às sessões de musculação, estava com um potencial de impacto bastante forte, se precisasse aplicar um soco em alguém. Como aquilo parecia inevitável, Ernesto pegou o cunhado por um braço e soqueou-o no rosto, tendo Márcio cambaleado, com o nariz ensangüentado. Ao perceber-se ferido, Márcio avançou para Ernesto, que não se deixou surpreender. Mais uma vez, desferiu um soco em Márcio, que jogou-se-lhe por cima. Ao cair, Ernesto bateu com a cabeça na quina do braço de uma poltrona estofada, o que amorteceu em parte o choque. Soqueou o estômago de Márcio, pensando, na hora que, embora não estivesse acostumado àquele tipo de atividade, o outro certamente estava menos ainda, o que lhe concedia pequena vantagem. Márcio conseguiu acertá-lo no estômago, também, deixando-o momentaneamente sem ar. Com algum esforço, conseguiu jogar Márcio à distância.
Miranda voltou naquele momento, trazendo apenas o filho e uma sacola com algumas coisas suas e dele.
– Vamos embora, Ernesto. Não precisa mais sujar suas mãos neste monte de esterco.
– Vamos, vamos. Passe ali por trás. Eu não deixo ele se aproximar.
Porto Alegre