ERNESTO tinha cabelos louros e olhos verdes.
Tinha cerca de 1,80m, um rosto bastante atraente e estava em forma.
Estava com o carro parado numa sinaleira, pensando nos dois problemas que tinha nas mãos. A crise à qual estava para dar um basta e a notícia que tinha para dar. Pensava que até mesmo trabalhar lhe agradaria mais do que estar ali, dirigindo-se à casa da irmã.
A buzina do carro de trás alertou-o para o sinal verde, e ele arrancou.
Estava indo buscar a irmã, tendo na lembrança a carta que ela lhes escrevera, e, pelo que ela dizia, Ernesto tinha muita curiosidade para saber como aquela carta tinha sido enviada. A letra não era de Miranda, o que tornava ainda mais grave a situação. E tinha que falar a ela sobre a morte do pai, que sofrera um ataque cardíaco dois dias antes, exatamente por causa da chegada da carta da filha, e morrera sem ter contato com ela.
Ernesto vinha há tempos trabalhando nas empresas do pai, uma cadeia de lojas de departamentos e (numa mistura muito engraçada) uma empresa de transporte coletivo intermunicipal. Estava sendo, segundo sua opinião, uma experiência gratificante, especialmente porque seu pai dera-lhe responsabilidades, não apenas o tornara um assistente das coisas. Ernesto tomava decisões. Agora teria que assumir os negócios em sua totalidade e sozinho. E talvez (o que o preocupava mais) nunca mais voltasse a ver a garota da academia.
Ernesto sempre levara uma vida fácil. Tanto ele quanto Miranda.
Os melhores colégios, os melhores clubes, o convívio com pessoas de seu mesmo nível sócio-econômico. Durante muitos anos aquele modelo lhe servira. Mas ele nunca fora um jovem alienado. Felizmente, sempre fora amigo de seu pai, que tinha sido um homem justo e trabalhador. Conversaram muito durante toda a sua vida, e Ernesto lhe pedira uma oportunidade nas empresas. Ernesto tinha certeza de que a vida que passara a levar dali em diante determinara toda uma mudança em seu comportamento e seu modo de pensar. Trocara as velhas companhias, os velhos bares e clubes por um apartamento só seu. Dos hábitos antigos, conservara praticamente apenas o de fazer ginástica. Porém, trocara de academia, um local mais em nível de classe média, e ali a tinha visto pela primeira vez. Era loura, também, tinha um corpo bem feito, estava sempre de cabelos presos como um rabo de cavalo, vira-a apenas vestindo malha de ginástica, sempre acompanhada de uma amiga. Jamais falara com ela, até porque quando ele chegava para seu horario ela estava de saída.
O rosto era muito atraente, e Ernesto estava fascinado por ela. Pensava sempre numa maneira de um dia puxar algum assunto e firmar uma amizade, mas dem deixá-la saber sobre sua origem, pois ele queria saber se ela podia ser o seu tipo de garota. Ser de família rica podia ser uma faca de dois gumes, podia tanto atrair como afastar as pessoas.
Ernesto estava sempre com ela na cabeça, uma sensação de ter encontrado alguém, mas ao mesmo tempo com uma sensação de perda, por não saber nada dela, nem o nome, nem como encontrá-la, e não a vira na última semana, que antecedera ao Natal. Agora, depois da morte de seu pai, tocar a todos os negócios, mesmo com as ajudas que teria, parecia-lhe uma tarefa que consumiria todo o seu tempo. Nunca mais a veria?
Era preocupante.
A placa da esquina mostrou a Ernesto que chegara ao seu destino. O número da casa era 162. Ele parou o carro e olhou para ela. Modesta, de alvenaria. Estava fechada, era quase meio-dia, e ele sentiu-se sem saber o que fazer. A rua estava deserta, e ele pensou se deveria voltar ou se valeria a pena esperar. Saiu do carro. Avistou, então, um casal de meia idade, numa janela da casa ao lado. Aproximou-se devagar e disse:
– Bom dia.
– Bom dia. – respondeu o homem, que tinha muitos cabelos brancos e um ar bonachão.
– O senhor sabe dizer se as pessoas aí ao lado vão voltar… tarde, ou…?
– Você veio por causa da carta, filho? – indagou a mulher.
Um arrepio percorreu o corpo de Ernesto.
– Então foram vocês.
– Ela ditou a carta pela janela. – disse o homem. – E eles estão em casa… ele prende ela sempre.
- Prende? – outro arrepio percorreu o corpo de Ernesto.
– E tiveram uma briga feia, hoje pela manhã, mas é sempre assim. Uma situação revoltante, meu filho. O homem bate nela sempre que pode.
– Meu Deus. – Ernesto levou as mãos à cintura, sentindo o sangue ferver em suas veias. – Eu não acredito. – sacudiu a cabeça, inconformado. Por sua memória passaram imagens dos tempos em que Miranda e Márcio namoravam.
Nada indicava que ele fosse de alguma maneira possessivo, ciumento ou até mesmo violento. Ernesto estava perplexo, na carta Miranda dizia poucas coisas, mas o suficiente para deixar seu pai preocupado e fazê-lo ter um ataque cardíaco. Tal comportamento por parte do cunhado certamente tinha explicação, talvez não lógica, mas tinha. Qualquer coisa poderia ser usada como pretexto para agredir Miranda, ou enclausurá-la. O que fazer?
Olhando de volta para o casal, que o observava com evidente curiosidade e expectativa, perguntou:
– E na criança? Ele… bate no menino…?
– Na criança, não. – falou a mulher. – Mas a moça apanha em dobro.
Ernesto tomou uma decisão, cerrando os punhos, e olhando para a casa ao lado.
– Bom, gente, acabou. Agora isso vai ter um fim.
– Você é irmão dela? – quis saber a mulher, não resistindo à curiosidade.
– Sou, sim. Fiquem tranquilos, e obrigado pela ajuda.
Em seguida, Ernesto dirigiu-se para a porta do 162.
* * * *
Miranda tinha cabelos meio louros, meio castanhos, cacheados, e olhos de uma cor azulada, que às vezes pendia para o cinza.
Seu rosto sempre fora atraente, bonito mesmo, e ela sempre chamara a atenção das pessoas, desde menininha. Porém, agora, ao olhar-se no espelho da cômoda, Miranda via marcas vermelhas, hematomas, que, se tivessem um tempo, desapareceriam, deixando dores no coração e na alma, apenas. Era engraçada a forma como o amor podia transformar-se em indiferença e ódio. E era muito triste, também. Não sabia, ao certo, o que sentia por Márcio, agora. Mas sabia que ele a odiava. Jamais poderia acreditar que fizesse o que estava fazendo com ela por amor.
Porto Alegre