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Cap. 3 Pt. 2

     Virgínia chegava mesmo a acreditar que sentia amor por Helena, e não temia decepcionar-se num eventual reencontro. Queria falar com Helena sobre as coisas que estava pensando e sentindo. Esperava preparar-se para isso durante as férias, dando a si mesma o tempo necessário para refletir a respeito. Entretanto, não estava bem certa sobre que reação Geraldo teria quando soubesse de seus planos. Ele era uma pessoa bem diferente dela, e, mesmo tendo recebido a mesma educação, nunca deixara de sentir um profundo ódio pelos pais e pela irmã.    

       O ruído mais forte de um motor de carro anunciou a chegada de Geraldo. Ele e Virgínia teriam muito pouco que fazer com vistas ao Ano Novo, pois o que mais os estava motivando era a perspectiva de férias e a ida para a praia. Aquilo, pensou Virgínia, era o que na verdade lhes dera ânimo nos últimos meses, porque, afinal, trabalhavam muito para manter a casa, que, com a graça de Deus, dera-lhes a Liberdade.     Geraldo era moreno, com olhos verdes. Virgínia o achava muito atraente, com o corpo bem feito, embora não fosse nada musculoso. Trabalhava como corretor de imóveis de uma grande imobiliária, com perspectivas muito boas de ascenção naquele ramo. Ele entrou na cozinha, saudando-a.
     – Oi, mana. Como foi?

     – Muito bem, e você?

     – Eu? – ele sorriu largamente. – Veja como estou radiante!!! Vendi dois, hoje de manhã. Sabe o que é isso? A volta das férias garantida!!!

     – Parabéns! – Virgínia sorriu, contagiada. – Isso nos ajuda muito, não é mesmo? Há dias em que você não tem tanta sorte.

     – Ah, não, você não vai abalar a minha auto-confiança, hoje.

     Virginia riu.

     – Querido, você sabe que não é isso. Como estava o trânsito?

     – Estava bom, achei que vim rápido, até.

     – Então melhorou, porque na hora em que eu vim… Você acredita que o ônibus levou quarenta minutos? Quarenta minutos! Acho que tinha muita gente na rua, muitos carros, sei lá, todo mundo se preparando, já viu, né? Recebemos carta de tia Gisela. E Arabela lhe mandou um beijo.

     – Arabela? Aquela gostosa? – ele sentou-se à mesa, rindo muito, pois sabia que sua irmã não gostava que se referisse daquela maneira à sua amiga.

     – Aham, aham. -  Virgínia dirigiu-lhe um olhar desconfiado. – Está lá na mesa da sala. Não viu, quando passou por lá?

     – Não, nem notei.

     – Acho que ela gosta de você.

     – Você acha? E o namorado…?

     – Você é bem mais bonito que ele.

     Geraldo riu novamente.

     – Ela sabe que você pensa isso sobre o namorado dela? Vamos ver no que isso vai dar. – comentou.

     Virgínia ficou calada, por instantes. Queria falar com ele sobre Helena, mas não sabia como nem quando fazê-lo. Por causa disso, parou, pensativa, perdendo o fio da meada do que estava preparando como refeição.

     – O que houve? – Geraldo notou-lhe o ar preocupado.

     – Nada. – ela balançou a cabeça. – Nada, mesmo.

    – Nada  não a deixaria assim tão quieta de repente. Você estava pensando em algo. Algo que a deixou preocupada. Algum problema no banco?

     – O banco não me dá problemas, Geraldo. Tenho problemas apenas em minha vida particular.

     Geraldo ficou olhando para a irmã, alguns segundos. O tom de voz dela tinha se alterado, estava mais firme, como se ela estivesse zangada e indignada.

     – Está pensando no que eu acho que está pensando?

     Virgínia devolveu-lhe o olhar profundo por alguns segundos, desviando os olhos sem nada dizer, depois.

     – Sinto vontade de ver Helena, Geraldo.

     – Eu não acredito.

     – Ela é nossa irmã. Sofreu tanto quanto nós.

     – Não acredito no que estou ouvindo.

     – Por quê?

     – Porque não posso crer que tenha esquecido tudo que ela nos fez passar.

     – Não esqueci. Mas também há outras coisas que não esqueci.

     – Não comece a falar sobre o sofrimento dela.

     – Estamos sem vê-la há mais de doze anos. Você também deveria estar interessado em saber como ela está hoje.

     - Espero que esteja morta. – ele ergueu-se, com os sapatos na mão.

     – Não admito que fale assim! – Virgínia chegou às lágrimas. – Ela é minha irmã!

     Geraldo estava surpreso com Virgínia. Mesmo que não sentisse o mesmo que ela, admitia que sentisse desejo de ver a irmã. E seus sentimentos deviam ser respeitados.

     – Desculpe, Virgínia… – olhou-a com ternura. – Está bem, mana, não falarei assim. Não acho que valha a pena nós brigarmos por causa dela. Eu não quero, não me interessa este assunto. Tente não falar comigo sobre Helena, eu não quero voltar a vê-la, nunca mais.

     – Mas Geraldo…isso é tão…inútil…

     – Esqueça, Virgínia. Eu não quero falar sobre isso.

     A jovem balançou a cabeça.

     – Certo. Sinto muito. Não tocarei mais neste assunto.

     Geraldo deixou a cozinha, dirigindo-se a seu quarto. Pensando a respeito da idéia de Virgínia enquanto tomava um banho, concluiu que se o que sentia por Helena era ódio, então era capaz de odiá-la para sempre. Só um milagre muito grandioso podia fazer com que a encarasse de um modo diferente. Nunca mais queria tornar a vê-la.
 

 

 


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