Virgínia chegava mesmo a acreditar que sentia amor por Helena, e não temia decepcionar-se num eventual reencontro. Queria falar com Helena sobre as coisas que estava pensando e sentindo. Esperava preparar-se para isso durante as férias, dando a si mesma o tempo necessário para refletir a respeito. Entretanto, não estava bem certa sobre que reação Geraldo teria quando soubesse de seus planos. Ele era uma pessoa bem diferente dela, e, mesmo tendo recebido a mesma educação, nunca deixara de sentir um profundo ódio pelos pais e pela irmã.
– Muito bem, e você?
– Eu? – ele sorriu largamente. – Veja como estou radiante!!! Vendi dois, hoje de manhã. Sabe o que é isso? A volta das férias garantida!!!
– Parabéns! – Virgínia sorriu, contagiada. – Isso nos ajuda muito, não é mesmo? Há dias em que você não tem tanta sorte.
– Ah, não, você não vai abalar a minha auto-confiança, hoje.
Virginia riu.
– Querido, você sabe que não é isso. Como estava o trânsito?
– Estava bom, achei que vim rápido, até.
– Então melhorou, porque na hora em que eu vim… Você acredita que o ônibus levou quarenta minutos? Quarenta minutos! Acho que tinha muita gente na rua, muitos carros, sei lá, todo mundo se preparando, já viu, né? Recebemos carta de tia Gisela. E Arabela lhe mandou um beijo.
– Arabela? Aquela gostosa? – ele sentou-se à mesa, rindo muito, pois sabia que sua irmã não gostava que se referisse daquela maneira à sua amiga.
– Aham, aham. - Virgínia dirigiu-lhe um olhar desconfiado. – Está lá na mesa da sala. Não viu, quando passou por lá?
– Não, nem notei.
– Acho que ela gosta de você.
– Você acha? E o namorado…?
– Você é bem mais bonito que ele.
Geraldo riu novamente.
– Ela sabe que você pensa isso sobre o namorado dela? Vamos ver no que isso vai dar. – comentou.
Virgínia ficou calada, por instantes. Queria falar com ele sobre Helena, mas não sabia como nem quando fazê-lo. Por causa disso, parou, pensativa, perdendo o fio da meada do que estava preparando como refeição.
– O que houve? – Geraldo notou-lhe o ar preocupado.
– Nada. – ela balançou a cabeça. – Nada, mesmo.
– Nada não a deixaria assim tão quieta de repente. Você estava pensando em algo. Algo que a deixou preocupada. Algum problema no banco?
– O banco não me dá problemas, Geraldo. Tenho problemas apenas em minha vida particular.
Geraldo ficou olhando para a irmã, alguns segundos. O tom de voz dela tinha se alterado, estava mais firme, como se ela estivesse zangada e indignada.
– Está pensando no que eu acho que está pensando?
Virgínia devolveu-lhe o olhar profundo por alguns segundos, desviando os olhos sem nada dizer, depois.
– Sinto vontade de ver Helena, Geraldo.
– Eu não acredito.
– Ela é nossa irmã. Sofreu tanto quanto nós.
– Não acredito no que estou ouvindo.
– Por quê?
– Porque não posso crer que tenha esquecido tudo que ela nos fez passar.
– Não esqueci. Mas também há outras coisas que não esqueci.
– Não comece a falar sobre o sofrimento dela.
– Estamos sem vê-la há mais de doze anos. Você também deveria estar interessado em saber como ela está hoje.
- Espero que esteja morta. – ele ergueu-se, com os sapatos na mão.
– Não admito que fale assim! – Virgínia chegou às lágrimas. – Ela é minha irmã!
Geraldo estava surpreso com Virgínia. Mesmo que não sentisse o mesmo que ela, admitia que sentisse desejo de ver a irmã. E seus sentimentos deviam ser respeitados.
– Desculpe, Virgínia… – olhou-a com ternura. – Está bem, mana, não falarei assim. Não acho que valha a pena nós brigarmos por causa dela. Eu não quero, não me interessa este assunto. Tente não falar comigo sobre Helena, eu não quero voltar a vê-la, nunca mais.
– Mas Geraldo…isso é tão…inútil…
– Esqueça, Virgínia. Eu não quero falar sobre isso.
A jovem balançou a cabeça.
– Certo. Sinto muito. Não tocarei mais neste assunto.
Porto Alegre