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Renascendo – Cap. 3 Pt. 1

     MARJORIE trabalhava com o pai numa banca de advocacia.    

      Mas aquela não era uma banca comum. Funcionavam como uma agência de Detetives Particulares, também, e Marjorie era especializada em encontrar pessoas desaparecidas. Ela não era sequer formada em Direito. Era formada em Educação Física. Tinha vários cursos de formação em Escolas de Detetives. Desde pequena, sempre tivera grande e irresistível atração por mistérios. Localizar pessoas desaparecidas era uma arte, ela pensava, e sempre que podia fazer aquele tipo de serviço, ficava vibrando. Em seu currículo contava a espetacular localização de uma pessoa em 2 horas, partindo apenas do nome de uma rua, numa cidade vizinha, e mais nada, sendo que, ao chegar ao local, dera de cara com um terreno baldio.

     Quando a mulher se sentou à sua frente, Marjorie já sabia que o problema dela não era encontrar alguém desaparecido. Era um possível caso de adultério. Uma coisa bem banal. Para último dia do ano, ela estava com sorte, até, porque dali a pouco chegaria o final do expediente e ela tinha como seu grande trunfo trabalhar em horários em que todo mundo queria descansar.

     – Bom dia… ãhn… – ela olhou na ficha, vendo o nome da mulher. – Dona Marina.

     – Pode me chamar de Marina, apenas. – a mulher estava muito séria.

     Era baixinha. Marjorie diria que ela era muito gorda, para sua altura, parecendo muito mais velha do que provavelmente seria.

     – Bem, então, Marina, seu marido anda com comportamento estranho…

     – Sim, Ele tem passado muito tempo fora de casa, está sempre com ar preocupado, e eu chequei o odômetro do carro, e parece que ele tem rodado muito. Suponho que ele tem andado com outra mulher. Não me dá mais a mesma atenção de antes…

     ”Com toda essa massa”, pensou Marjorie, “eu também não daria…”

     Mas afastou imediatamente aquele pensamento, era uma maldade, e certamente os motivos dele não eram da sua conta. 

 

 
     – Certo, então forneça-me dados, nome dele, endereço de vocês, dados sobre o carro, placa, modelo, etc. Ah, importante, e qual é a programação prevista para a família durante o feriado.    
      – Quem vai fazer a investigação?
     – Muito provavelmente, eu mesma.

     A mulher ficou olhando para Marjorie, como que a avaliá-la.

     – O que houve? -indagou Marjorie. – Acha que não tenho capacidade para bisbilhotar a vida de alguém?

     – Vou lhe dizer uma coisa, meu marido não é bonito, mas é meu. Eu o amo.

     Marjorie cruzou os braços sobre a mesa e inclinou-se na direção dela.

     – Está querendo insinuar que eu possa vir a ter alguma coisa com seu marido?

     – Você é uma mulher bastante atraente…

     Marjorie não tencionava perder uma cliente. Ganhava por comissão, uma percentagem sobre o valor de tabela dos procedimentos investigativos, mas não estava disposta a levar desaforos para casa.

     – Marina… a princípio, a investigação é feita à distância. Eu nem chegarei perto de seu marido, e ele provavelmente nunca saberá que estará sendo investigado. Mas eu lhe digo uma coisa, com toda franqueza, se ele a estiver traindo, estou certa de que sabe de quem terá sido a culpa. Eu começo amanhã. Mas lhe dou uma dica, se seu marido inventar uma desculpa para sair sem a família, deixe que vá. Vai facilitar em muito o meu trabalho. Agora, se acha que não poderá confiar em nosso serviço, ou em mim, há dezenas de outros profissionais lá fora, é só você passar pela porta, e pode escolher quem quiser.

     A mulher pareceu ficar por alguns instantes sem saber o que dizer, mas perguntou, depois:

     – Quando pretende começar a trabalhar?

     – Como eu acabei de dizer, começo amanhã. Amanhã cedo já estarei vigiando a sua casa. Como eu também já disse, se ele inventar alguma desculpa para sair sozinho, não se oponha.

     – Tudo bem.

     – Ótimo. Aos detalhes, então.

          *                               *                               *                               * 

     O expediente do banco encerrava-se às 12 horas do dia 31, quinta-feira. Na sexta era o feriado, e, na segunda, começavam as férias. 

 

 
     Virgínia agradecia a Deus por aquelas férias. Depois de um ano e meio de batalha, tinha agora um mês inteiro de férias na praia, e era só no que conseguia pensar.     Nos últimos três anos a praia restringira-se aos finais de semana, tanto para ela quanto para seu irmão. Tiveram que trabalhar muito, depois que resolveram sair da casa dos tios. Graças a eles, tinham levado uma vida normal, e tinham aprendido que era seu dever encarar a vida de frente.
     Depois de sacudir durante quarenta minutos dentro de um ônibus desconfortável, num trajeto que podia ser feito em vinte e cinco, Virgínia finalmente chegou em casa. Abriu a caixa do correio, encontrando nela duas cartas. Uma de sua tia Gisela. Outra de Arabela, sua companheira inseparável das aulas de ginástica. Sua tia dizia que estavam saudosos e à sua espera. Com um sorriso, Virgínia leu a dedicatória de sua amiga e os desejos de felicidade na passagem de ano.

     Depois de vestir um calção e uma camiseta, Virgínia foi para a cozinha. Geraldo chegaria em pouco tempo, e queria almoçar com ele. Sentia-se muito animada e não via a hora de enveredar pelos caminhos do litoral. Durante aquelas férias, Virginia pretendia refletir bastante sobre a idéia que estava amadurecendo em seu cérebro. Uma idéia que surgira espontaneamente em seus pensamentos, e que não lhe causava mal estar no coração. Virgínia pensava em dar um jeito de tornar a ver sua irmã mais velha, Helena, autora dos mais terríveis maus tratos por ela e seu irmão sofridos.

     Virgínia raciocinava em termos de ter sido Helena nada mais do que uma vítima de seus pais. Vítima, talvez, de seu próprio temor. Seis anos mais velha que Geraldo, tinha plenas condições de revelar tudo a Gisela ou a Aurélio, muito antes da época em que eles intervieram no que estava acontecendo.

     Doze anos depois, aquilo tudo era um passado muito distante, que quase nada significava, pelo menos para ela. Virgínia olhava para trás com a sensação de que nada tinha acontecido com ela. Vieram, depois, os anos maravilhosos, sob a tutela de Aurélio e Gisela. A paixão por Augusto…

     Virginia considerava-se bastante desenvolvida, espiritual e emocionalmente. Certamente influenciada pela formação dada pelos tios, pessoas que considerava maravilhosas, Virgínia achava que compreendia a posição delicada em que sua irmã estivera, no passado. Muitas vezes vira o medo, o terror espelhado nos olhos de Helena. Ela que, na ausência dos pais, tratava aos dois menores como menos que gente, sentia um pavor imenso ao ter os pais por perto. Tornava-se tão frágil quanto os dois pequenos. Quando lhes dava um pouco de liberdade, era castigada com surras terríveis. Virgínia não tinha a menor dificuldade para entender que Helena, inocente e sem freqüentar escola, considerava os irmãos menores culpados por toda dor, medo e sofrimento que aconteciam em sua vida.

 


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