Sábado à tarde.
Ela estava pensativa, quieta sobre a cama, sentada. A notícia da morte de Lenira parecia-lhe um fato muito real, tão real que ela quase não acreditava que fosse verdade. Mas não tinha por que duvidar, era a palavra de Roberto. Pela primeira vez, tinha rejeitado a comida do hospital.
Não sabia que horas eram, naquele momento. Duas, talvez três da tarde. Na verdade, já não interessava, mesmo, saber as horas. Marisa sabia que estava cada segundo mais próximo o momento da chegada do médico, e ela intuía, sem nenhuma base concreta, que ele lhe daria alta naquela tarde.
E então ela poderia sair e começar a viver.
Era uma das poucas coisas boas que retirara do saldo da aventura que vivera nos últimos dias. Agora, ao final de tudo, Marisa descobria, reconhecia, desolava-se com um outro fato também muito real: até aquele dia sua vida tinha sido uma simples existência (13.03.88). Uma existência vazia, desinteressante, porque vivida por uma pessoa vazia e desinteressante, pelo menos até ali.
Os pensamentos eram confusos, na cabeça de Marisa. Apesar de ter vivivo menos do que ela, Lenira chegara a fazer algumas coisas por e para si mesma. Cultivara algumas boas amizades, vivera um meio romance… Mas ela não!
Muito ao contrário: por causa de seus preconceitos, sua falta de interesse por sua própria vida e pelas vidas de outras pessoas, quase jogara fora a única amizade real que tinha, a de Laura. A partir de Laura tomara contato com outras pessoas, e por burrice quase desperdiçara aquelas amizades. No entanto, a vida de Lenira estava finda, a sua não. E por que continuara viva? Para quê? Para continuar a ser a mesma pessoa obtusa de antes? Isso, sim, parecia-lhe uma perspectiva francamente irreal. (14.03.88)
Marisa sentia-se profundamente feliz, com uma ponta de euforia em seu interior. Conquistara novos amigos, pessoas superiores, renovara sua amizade com Laura, que agora estava mais forte do que nunca, e ela não conseguia imaginar um retrocesso em seu atual estado de espírito, embora reconhecesse que sua vida recomeçava, agora, praticamente do nada.
* *
Marisa estivera envolvida com todos aqueles pensamentos praticamente o dia inteiro, somente desviando-se deles quando o médico entrou no quarto, com sua ficha nas mãos.
- Olá, Marisa. – falou ele, com um sorriso. Era um homem jovem, de uns trinta anos, tinha um rosto comum, mas interessante, pensava Marisa, que simpatizara com ele desde o momento em que retomara a consciência.
- Oi, Régis. Veio dar a minha alta? - ela devolveu-lhe o sorriso.
- De fato. Como você se sente?
- A verdade? Feliz e triste, ao mesmo tempo.
Ele hesitou um pouco antes de perguntar:
- Seus amigos lhe deram a notícia?
- Sim… É engraçado, não é? Quero dizer, ela lutou tanto por mim… Me ajudou, realmente. E eu…
- Você se sente culpada pelo que houve?
Marisa ficou olhando para ele, por instantes, lembrando-se de um episódio de infância, em que numa noite Lenira entrou na cozinha (ela não lembrava da casa de quem), pegou um pacote de sabão em pó e despejou um pouco sobre a mesa. Depois, com a luz da cozinha apagada e ar sorrateiro, a pequena voltou para a sala e disse a ela, Marisa, que havia açúcar derramado na cozinha. Ela correu para lá, meteu a mão no montinho sobre a mesa e encheu a boca…
- Não sei, Régis. – respondeu, após as reflexões.
- Não sei se ajuda… Mas você pode pensar que a morte dela ocorreu num momento em que você mesma se recuperava de um atentado a bala.
Marisa tornou a refletir. Já tivera chance de se olhar no espelho mais de uma vez. Entretanto…
- Régis, onde as balas me atingiram? Quantas me acertaram? Não era para eu estar toda entubada? Não era para eu estar morta? Não percebo marcas e não sinto nada. Como foi que eu não morri?
Foi a vez de Régis refletir, antes de responder. Marisa era inteligente e já estava tirando conclusões. Ele não teria como esconder. Até porque a vigilância que orientara fosse feita no sentido de avisá-lo caso a garota do disco entrasse no hospital revelera o que ele já suspeitava: ela não viera visitar Marisa, talvez jamais lhe contasse o que tinha feito, por conseguinte seus amigos também não contariam, ela jamais saberia a verdadeira razão de sua sobrevivência e agora era no seu tornozelo que a calça começava a ficar curta.
- Bem, Marisa… Em circunstâncias normais… sim, era para você estar morta.
- Circunstâncias normais? – repetiu ela, calmamente. – E o que foi que aconteceu de anormal?
Ele sacudiu a cabeça com ar de dúvida.
- Não sei se eu mesmo acredito no que aconteceu.
Ela ficou olhando para ele, em silêncio, à espera. Percebeu logo que ele estava tendo que fazer uma grave escolha de palavras.
- Olhe, quando você chegou, estava amparada pelo dois rapazes, Roberto e Nic.
- Aham. Estávamos no apartamento de Roberto, no momento do tiroteio. Eles são amigos de infância. Eu os invejo, em parte, porque nunca tive amizades assim. Nic procurou Roberto para me ajudar. Eu exerci meu racismo, quase recusei… – ela fechou os olhos por alguns segundos. – Bom… continue…
- Então. Depois que eu a operei, retirando as balas de seu corpo, desci para falar com eles, para dizer-lhes que sua morte era questão de horas. Clinicamente, não havia mais nada a fazer. Você fatalmente morreria, Marisa, se não fosse… – ele tornou a hesitar.
- Se não fosse…?
Ele balançou a cabeça, como se não acreditasse no que estava para dizer. Tornou a olhar para ela e disse:
- Bom, tudo mudou quando ela apareceu. Você conhece uma garota de cabelo preto, olhos verdes, nem gorda, nem magra…? Muito bonita, aliás…
Marisa ficou olhando para ele por instantes, e depois sentiu-se enrubescer por inteiro, e um arrepio a sacudiu, quando ela relembrou a única vez em que vira Nádia pessoalmente.
- Conheço algumas… – murmurou. – Ela não lhe disse o nome?
- Não. Perguntei, mas ela disse bem assim, “não tenho nome, oficialmente eu nunca estive aqui, e se você insistir eu vou embora”, bem assim, curta e grossa.
- E o que aconteceu, Régis?
- Ela estava com os dois, quando desci para lhes falar. Disse a eles o que tinha que dizer e estava para entrar de volta no elevador, para retornar ao centro cirúrgico, quando ela me chamou. Disse que tinha uma coisa importante para me mostrar.
Ele parou de novo. Ante o silêncio de Marisa, continuou:
- Eu a levei para minha sala e ela começou a falar sobre um… disco voador. Você sabe… alguma coisa, sobre isso?
Claro que Marisa sabia. Mas nem em sã consciência pensava em dizer qualquer coisa sobre o assunto. O que percebeu de saída foi que ele a estava testando: se dissesse que já tinha escutado sobre o assunto, teria que admitir a possibilidade de conhecer a moça.
- Discos voadores não existem. – ela balançou a cabeça. – Se é que era isso que você estava querendo saber.
- Bom, eu imagino que Roberto e Nic talvez saibam de alguma coisa, já que ela estava com eles quando desci. Depois, que eu saiba, ela foi embora sem esperar por nenhum deles. Continuaram aqui esperando por notícias suas. Quando comuniquei que você estava começando a melhorar, ambos pareceram desorientados. Ficaram realmente surpresos.
- ‘Tá, e o que foi que ela fez?
Porto Alegre