- Você não vai acreditar. Aliás, vai, porque é a prova viva do que aconteceu. – Régis sentou-se ao lado dela, numa cadeira. - Ela começou a falar sobre o tal disco voador. Claro que eu também não acreditei. Achei que ela estava louca falando sobre aquilo e já estava me preparando para deixá-la falando sozinha quando ela parou de falar e começou a… demonstração. Marisa, as cadeiras levitavam. Ela ficou invisível, desapareceu num canto da sala e depois apareceu em outro.
- Ah, para, que você acreditou nisso. – disfarçou ela.
- Mas eu vi, ninguém me contou. Eu estava perplexo, meu coração estava a ponto de saltar pela boca. Então, para me tranquilizar, quem sabe, ela me mostrou uma das mãos. Disse que a tinha cortado na noite anterior, ou duas noites antes, não lembro mais. Estava lisinha. Sabe, não tinha cicatriz nenhuma. Ela me disse que era o sangue. Se propôs a fazer uma transfusão.
Ele ficou quieto, olhando para ela. Ela ficou olhando para ele.
- Sei o que deve estar pensando, mas eu não estou maluco, aconteceu, de verdade. Tanto aconteceu que você está aí, me olhando com esta cara, quando no normal das coisas era para estar no necrotério.
Mas Marisa não estava pensando que ele poderia estar maluco.
- Quer dizer, então… que o sangue dela…
- Salvou a sua vida. Sim. Não fizemos nenhum teste, o que talvez pudesse ter sido uma imprudência, mas diante das demonstrações que ela me deu… não acredito que pudesse haver alguma coisa errada com o sangue dela. Confirmamos o tipo sanguíneo e mandamos ver.
- Meu Deus… ela salvou a minha vida… E não voltou aqui para me ver… Que desumanidade!
Régis deu uma risada seca.
- Das duas uma: ou ela não se preocupou em vir ver o resultado, porque sabia que daria tudo certo, ou teve medo de aparecer de novo…
- Ou voltou para o planeta dela… – Marisa estava perplexa. Muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. Entretanto, isso não a impedia de raciocinar.
- E agora, Régis, o que você vai fazer?
- Fazer com o quê?
- Você sabe. Com ela.
- Não entendi.
Depois de alguns segundos, ela respondeu:
- Você tem consciência do que ela arriscou para fazer o que fez? Ela confiou em você. Tem que ser deixada em paz.
- Marisa… Não sei nem o que dizer. O que aconteceu aqui foi muito mais do que um milagre. Foi uma revolução. Sei que eu devia ter impedido que ela deixasse o hospital, depois de presenciar um milagre que revolucionaria o mundo. Um milagre que não acontece nem uma vez em um milhão de anos. Estou consciente de tudo que ela arriscou. Mas ao mesmo tempo foi uma decisão desesperada que ela tomou, para salvar a sua vida, e você alega não saber quem ela é. Seus amigos sabem? Sabem do que ela é capaz? Como vamos provar isso? Como vamos encontrá-la? Não há base legal sequer para deter os rapazes, para através deles chegar a ela. Foi uma decisão pessoal e restrita, como se você precisasse de um transplante e ela colocasse um órgão à sua disposição. Foi uma coisa só para você. E eu sou apenas um médico. Não pedi o endereço dela, não a forcei a dizer seu nome. Meu interesse no momento foi apenas o de salvar você, do jeito que desse, e um milagre caiu de paraquedas nas minhas mãos. Não sei nada sobre ela e vai ficar assim.
“Eu quero ver”, pensou Marisa, desconfiada.
- E você não pense que me engana. Eu sei que você sabe quem é ela. – ele levantou da cadeira. – Vou dar a sua alta.
- Neste caso, vou chamar alguém para me trazer roupas e me levar daqui de uma vez. Tenho muito em que pensar. Obrigado, Régis, por tudo.
O médico sorriu, acariciando a mão dela, depois saiu do quarto.
Marisa voltou seu pensamento para Nádia, naquele momento.
* *
O carro rodava mansamente pelasa ruas e Marisa estava muito quieta, distraída, no banco de trás. Na frente, Rodrigo e Manuela faziam planos para o bebê que estava a caminho. O pensamento de Marisa corria confuso de um lado a outro de sua cabeça. Planos e lembranças tomavam conta de sua atenção. Procurar Nádia, a morte de Lenira, a perspectiva sobre o seu futuro, de agora em diante.
- Marisa. Marisa!
Era Manuela que chamava.
- Ai… desculpe, Mana… – respondeu Marisa, voltando ao presente. – Estou bem absorta.
- A culpa não é sua. – respondeu Manuela. – Estamos tão eufóricos por causa do bebê que esquecemos de falar com você.
Marisa sacudiu a cabeça.
- Uma vida que chega é assunto mais do que palpitante. – falou, compreensivamente. – Não se preocupem comigo. Aliás, eu lhes peço desculpas por não estar falando muito, é que eu…
- Não explique, prima. – falou Rodrigo. – Nós sabemos que o seu momento é difícil. Até queríamos ter podido ajudar mais…
- Não, não, ainda bem que não se envolveram nisso. A coisa foi muito perigosa, muito… injusta. Vocês estiveram sempre do meu lado, isso é que foi importante. Mesmo hoje, não fosse por vocês eu nem poderia sair do hospital.
- E pretende procurar o Luis Fernando?
- Mas…! Nem pensar! A coisda aconteceu em parte por causa dele. Tudo isso podia ter sido evitado se não fosse a intransigência dele. Ou burrice, não sei. Falta de sensatez…
- É posspivel que ele tenha ficado transtornado, você acha…? Acha que ele teve algoma ver com a tentativa de assassinato contra você?
- Ah, Mana, eu não sei. Acho que ele perdeu o controle sobre o que Carlos e Felipe acabariam fazendo, mas, por outro lado, estavam ambos defendendo interesses que também eram do meu irmão. Acho que agora, definitivamente, estamos muito distantes um do outro.
- Ah, Marisa… – protestou Manuela.
“Ela está preocupada comigo”, pensou Marisa, enternecida. Mas sabia que não podia reaproximar-se do irmão.
- Manuela, eu estou com vinte e sete anos. Olho para trás, agora, e vejo que não tenho nada meu, não construí nada, só nessa de trabalhar com o Luis e ajudar a criar a Adriana. E a que me levou isso?
- Está certo, mas e agora? A faculdade, o trabalho…?
- Não sei, não quero pensar muito nisso.
- Você precisa se dar um tempo, antes de decidir o que fazer. – aconselhou Rodrigo.
Era mais ou menos o que Marisa pensava fazer. Ao chegar à casa de seu primo, ela foi à garagem olhar para sua moto. Acariciou-a e pensou, ”querida, você será a segunda coisa do passado que vou deixar para trás.”
*
Manuela tinha deixado comida pronta para os três, antes de sair. Pouco depois de chegarem, estavam jantando e Marisa falou:
- Há mais um favor que preciso lhes pedir, meus queridos. Não quero ver o Luis Fernando, mas preciso de mais roupas minhas…
- Pode deixar. – tranquilizou-a Rodrigo. – Vou telefonar para ele, agora à noite, recomendando que deixe suas coisas prontas e à mão. Amanhã vamos visitar os pais da Manu. Na volta passamos lá e pegamos suas roupas, pode ser.
- Se isso não os fizer desviar do caminho… eu agradeço. E uma outra coisa que queria lhes pedir é que tenham paciência comigo. Não serei uma companhia muito boa. Vou dar um jeito de não ficar aqui por muito tempo.
- Ih, Marisa, pode parar. – interrompeu-a Rodrigo. – Se não quiséssemos ajudá-la você certamente não estaria aqui, agora. Fique tranquila, a casa é sua.
Marisa sorriu, agradecida.
Porto Alegre