– Almoço, irmãozinho. – falou ela.
Ele se sentou, meio aturdido.
– Eu dormi aqui? – falou, de olhos fechados.
Miranda riu.
– Se você não sabe onde dormiu, querido, a festa foi boa…
– Eu não saí daqui… Fiquei um pedaço da noite acordado. Lembro que eram quatro da manhã, foi a última vez que olhei o relógio.
– Bom, adormeceu aí, então… – Miranda sorriu. – E eu, com o que você trouxe, ontem, fiz uma pizza. Se não gostar do cardápio, caia fora… Pizza e champanha, que tal?
– Para começar, está ótimo. – Ernesto ergueu-se. – E o Luciano?
– Dormindo.
Ele seguiu a irmã até a cozinha. Serviram-se cada um por si.
– Em que ficou pensando, até às quatro da manhã?
– Em muitas coisas. – Ernesto evitou entrar direto no assunto sobre a morte do pai deles. Assumiu um ar pensativo. – Em você e seu filho. Em minha Loura…
– Sua loura? – Miranda o olhou com admiração. – Me conte essa história. Sua namorada?
– Não.
– Como é o nome dela?
– Não sei.
Miranda trocou o olhar de admiração pelo de incredulidade.
– É alguém que freqüenta a mesma academia de ginástica que eu. – Ernesto ficou com olhar ainda mais distante. – Acho que estou apaixonado por ela.
Miranda não teve dúvida de que ele estava com a imagem da tal garota passando à frente dos olhos, naquele momento.
– Falaram-se, alguma vez?
– Não. – ele balançou a cabeça, enfaticamente. – Não dá tempo. O horário dela é diferente do meu. Ela é uma graça. Sempre com os cabelos presos e os lábios pintados. Ela é linda.
Miranda sorriu.
– Você está do mesmo jeito de quando se interessou pela Isa.
– Ah, bom… mas a Isa é um negócio. Ela está casada?
– Não que eu saiba. Mas não estou muito por dentro de coisa alguma…
Ernesto pressentiu que ela estava prestes a lamentar-se novamente. Por isso, cortou-a, dizendo:
– Que tal sairmos e tomarmos uma cerveja?
Miranda baixou os olhos, esboçando um novo sorrriso.
– Há tanto tempo que eu não faço isso… – falou, baixinho. – Mas não posso acordar o Luciano agora.
– Esperamos ele acordar.
Ela refletiu, por instantes.
– Eu não posso. Estou muito triste para tomar cerveja. Muito triste para viver.
– Miranda… Ah, está certo, é melhor deixar.
– O quê? Diga o que está pensando.
– Bobagem. É que a coisa não é comigo, quem está de fora vê as coisas de uma outra maneira. Eu já penso que você deveria esquecer e mudar o astral. Mas não sei se eu mesmo o conseguiria, apenas um dia depois.
Foi a vez dela olhar para ele com ar pensativo.
– De uma certa maneira você está certo. – falou. – Eu me sinto aliviada por ter sido tirada daquele inferno. Não havia mais amor entre nós, porque o modo como ele me tratava destruiu tudo. Acho que ele mesmo já não me amava mais…
– Miranda, não se ofenda com o que vou perguntar… Mas… você não fez…?
– Não. É claro que não. Eu não sei o que deu nele.
– Acha que se apavorou por ter que manter o amor de uma mulher tão bela?
– Se foi isso, então não sei o que pensar. Não fiquei bonita depois que casei com ele. Já me conheceu assim. Ele me conquistou, eu sendo assim. Eu sou um ser humano, droga! Não sou uma casca de ovo. Márcio teve tempo para saber que podia confiar em mim, assim como eu podia confiar nele. Eu também poderia ter sido muito ciumenta. Também o achava bonito. Não sei o que o fez agir assim. Já não era a mesma pessoa, sabe? Lá dentro dele. O que ele é agora acabou com o que ele já foi.
Ernesto refletiu, por instantes.
– Você decide. – disse, depois. – Se é como disse, que já não havia mais amor entre vocês, não há por quê não esquecer e não procurar outros objetivos em sua vida. Ainda há muito amor guardado para você.
– Repetindo um velho clichê, não posso dizer que desta água não beberei. – Miranda sorriu abertamente, tornando-se muito séria, depois. – Mas não vou procurar por ela.
– Você já disse isso.
– Pois é. Se há água para mim, os encanamentos de Deus a trarão naturalmente.
– Eu… compreendo. – ele ergueu as sobrancelhas. – Bem, então vou sair e dar umas paqueradas por aí. Você promete que não vai ficar aqui, sentindo-se abandonada e a pior mulher do mundo?
– Acho que posso prometer isso. – Miranda balançou a cabeça. – Vai tentar esquecer a sua Loura? – ela deu uma risadinha.
– É… não sei quando a verei de novo. Depois, ela pode ter namorado, é uma coisa muito complicada.
– Acho que devia fazer alguma coisa para tentar encontrá-la. Ou seja, estar na academia no horário em que sabe que ela vai estar lá. Você não tem que ficar aqui me pajeando. Você vai até lá e fala com ela.
– Falar com ela?
– Claro. Ela não vai resistir os encantos de alguém tão atraente.
– Você está sendo sarcástica. Não estou com esta bola toda.
– Prefere paquerar, então. Tudo bem. Espero-o para o jantar?
– Esta pergunta tem pega-ratão, não é? Você não está aqui para cozinhar para mim.
– Eu sei, mas é o que quero fazer. Cozinhar com amor para alguém. Estou feliz por ter saído de onde estava. Feliz por Luciano não ter seu sossego abalado por gritos e discussões inúteis. Como foi você quem me proporcionou tudo isso, tento apenas recompensá-lo.
Ernesto balançou a cabeça.
Porto Alegre