Marisa não era nem um pouco ingênua. E sua cabeça já estava dando voltas. Aquele homem cinquentão, com dois filhos maravilhosos…
- Bom, Henrique… Quem sabe a gente deixa isso de lado, pelo menos por enquanto? Náo existe razão para falarmos sobre isso. Eu… vi o tabuleiro de xadrez… acha que consegue jogar um pouquinho? Suponho que Nic deva estar na casa da namorada, e vai demorar a aparecer de volta…
- Tatiana? – ele trouxe o tabuleiro para uma outra mesa, que ficava próxima à janela.
- Nádia. É o nome da atual namorada dele.
- Ah, é, lembrei, é mesmo. Ele e Tatiana terminaram um pouco antes de ele ver o…
Ele parou. Não sabia se podia falar, se Marisa sabia ou não, e caso não soubesse, se acreditaria ou não na história do DV.
Marisa olhava para ele, à espera. Não tinha certeza, mas apostava que ele quase falara DV. Não sabia se podia falar com ele sobre aquilo. A coisa era meio confusa, embora ela estivesse quase que absolutamente de que ele era de confiança.
- Marisa… Olhe, não que eu queira interrogá-la, não é isso. Mas você há de compreender. De uma certa maneira, pelo menos até a coisa esfriar, você se tornou uma figura pública. Eu a reconheci imediatamente. E estou curioso. Tudo bem, de repente você conhecia o Nic há tempos. Mas a última informação pública sobre você que circulou na mídia dava conta de que estava em estado gravíssimo, no hospital. Isso foi quinta à noite. Hoje é domingo, três dias depois, e você está aqui, sem nenhum arranhão. Era mentira, então?
Marisa não sabia o que fazer. Podia cometer uma indelicadeza e pedir para não falarem no assunto. Ele podia ficar a par das coisas através de Nic.
- Não, Henrique, não foi mentira. – falou, cautelosamente. – Houve, sim, uma tentativa de homicídio, eu fui mesmo baleada, foi coisa muito, muito grave. Entretanto, ocorreu… ocorreu… você acredita em milagres?
Ele ficou olhando para ela, por instantes.
- Porque foi isso que aconteceu. – ela continuou antes que ele dissesse qualquer coisa. – Um milagre.
Ele continuou olhando para ela. Via em seus olhos que parecia estar sendo sincera. Ela realmente acreditava que havia acontecido um milagre. As palavras, o tom, o jeito de dizer aquelas coisas. Ao que tudo indicava, coisa grande havia por trás de tanta hesitação. Alguma coisa que envolvia a Nic, principalmente, por causa de Nádia, mas ele tinha a sensação de que sua filha também estava envolvida. Henrique pegou uma peça de cada cor, colocando as mãos para trás e depois deixou que Marisa escolhesse.
- Mão esquerda. – disse ela. Ficou feliz em descobrir-se com as pretas.
Henrique colocou sua peça na casa do primeiro lance.
1. P4R
Marisa estava pensando no que estaria ele pensando, mas controlava-se para não perguntar. (25.03.88)
1. ….; P4DB
Seus olhos encararam os de Henrique, que a olhava incisivamente. Ficaram assim por alguns segundos, até que ele falou:
- Que espécie de milagre?
2. B4B
Marisa estava ficando nervosa. Começava a achar que tinha cometido um erro indo até ali. Mas a verdade, pensou, era que o homem não estava se dando bem com a mulher e só podia contar, no momento, com os filhos. Sua preocupação com Nic era evidente, e ela chegava a sentir que compreendia por quê. Nic vira um DV e depois certamente nunca mais fora o mesmo.
2. ….; C3BD
- Um milagre protagonizado pela nova namorada de Nic. Henrique, eu tenho que ser bem sincera com você. Estou morrendo de vontade de lhe contar tudo o que sei, inclusive o motivo que me trouxe aqui, hoje. É uma coisa que me dá muita felicidade, quero dividir isso com as pessoas, mas não tenho certeza de que posso falar sobre o assunto.
- Por quê, envolve muita gente? (3. D3B)
- Envolve. Acho que Nic ainda não lhe contou talvez porque não teve tempo. Além disso, são amigos novos que fiz e não quero fazer nada que prejudique essas novas amizades. Eu… preciso muito dos meus amigos. (3. ….; P3R)
A expressão de Henrique, agora, passara para a surpresa. Então ele perguntou:
- Por que foi que você se meteu nesse rolo todo, Marisa? (4. C3TR)
“Ele mudou de assunto”, refletiu ela. “Ai, espero não ter dito nada de mais…”
4. ….; C3BR
Marisa então contou-lhe as desavenças que vinha tendo com o irmão até o momento do golpe à joalheria, terminando por como se sentia agora.
5. P2D; P4D
6. B3CD; B3D
7. P3T; O-O
8. O-O; B2D
- O mais importante de tudo é que mudei, e para melhor.
- Você fala de um jeito… (9. C2D)
- Mas é verdade, Henrique. Eu era racista até pouquíssimo tempo atrás. Mas de todas as pessoas que me ajudaram, Roberto, um advogado, amigo de Nic, conhece?, foi o mais importante. (9. ….; C5D). Jamais havia me imaginado assim, tão próxima de uma pessoa negra. Mas o que meu irmão me dez… (10. D1D) E o que Roberto fez por mim… Acho que o que ele fez por mim só perde para o que Nádia fez. (10. ….; B4R)
- Por que você era racista, Marisa? (11. P3BD)
- Eu não sei, sinceramente. Foi uma coisa que aprendi com meus pais, antes que eles morressem, e depois com meus avós. Não sei por que fizeram isso. Meu pai era bem, mas bem racista. Acho que… assimilei a lição tão bem que fiquei, e depois meus avós acrescentaram os preconceitos deles… Foi uma coisa horrível, que passou. (11. ….; C3B) Isso era mais uma das coisas que faziam de mim uma pessoa desprezível. Agora, tenho um defeito a menos.
- E o que foi que Nádia fez?
Marisa estava à espera daquela pergunta. Dar a resposta era mais fácil que jogar xadrez.
- Um milagre. – falou.
Henrique teve que rir. (26.03.88)
12. C3B
- E eu… estou nervosa. (12. ….; PxPR)
- Por quê? Estou perguntando demais?
- Não, esta é a menor das minhas preocupações. É o Nic, acho que está demorando a aparecer.
- Bom… se ele está namorando…
- Pois é. Eu estou na casa de um outro primo meu. Receio que ele se preocupe, apesar do bilhete que deixei.
13. PDxP
- Use o telefone. Diga a ele que vai esperar aqui até amanhã de manhã, se for preciso.
- Está me oferecendo o quarto de hóspedes? – Marisa estava com os olhos fixos no tabuleiro, pensando no que fazer. (13. ….; CxP). Só depois ergueu os olhos para olhar nos dele.
- Por que não? Tem ideia melhor?
14. B2B; P4BR
15. C5CR; C3D
16. B3C; D2R
17. C4T; …. (19.04.88)
- Tudo bem. – concordou ela, dirigindo-se ao aparelho que estava na estante.
Enquanto ela telefonava, Henrique ouviu o ruído do motor do carro de Nic, que chegava. Como o acesso era fácil, chamou o filho, sem no entanto lhe dizer por que queria que viesse à biblioteca.
Marisa desligou o telefone, dizendo:
- Obrigado por chamá-lo até aqui. – ela sentiu seu coração acelerar as batidas. – Não sei se vou conseguir falar com ele. Fiquei muito emocionada, agora.
Henrique não gostava de coisas complicadas. Não gostava de pessoas que se faziam envoltas em mistérios e não gostava de coisas misteriosas. Naturalmente, a tendência era de não gostar de Marisa. Mas estava acontecendo diferente. Parecia-lhe evidente que ela não gostava de estar escondendo coisas. Entretanto, seus motivos para isso eram tão fortes que não se permitia nem mesmo um pequeno deslize. Era o confronto, o conflito entre uma situação grave e uma característica de sua personalidade, que ele decidiu simplesmente respeitar. (20.04.88)
Porto Alegre