Nádia entrou em casa pensando que devia contar tudo aos pais.
Sabia que não poderia conviver com eles por muito tempo sem que soubessem por que ela não se sentia bem. Mas achava melhor não fazer isso agora. Estava muito emocionada, talvez não soubesse escolher as palavras certas, era melhor aliviar a cabeça.
Depois que entrou em seu quarto, pegou uma mochila e começou a colocar algumas roupas dentro. Ía passar a noite na casa de Daniela. Precisava conversar com alguém, e para isso, naquele momento não havia no mundo ninguém melhor do que sua prima. Sentia que precisava, também, ter notícias sobre Marisa. Talvez se perguntasse com jeito a seu pai, disfarçadamente, conseguisse alguma informação.
Passando de volta pela sala, comunicou aos pais que ía para a casa de Daniela e saiu.
Uma vez na rua, tornou a respirar o ar fresco do fim de tarde e caminhou devagar para o ponto de ônibus. Não sabia por quanto tempo teria que esperar, mas já que estava com a cabeça cheia de pensamentos, não se preocupava muito com a demora. (20.04.88)
* *
- Oi, tia. – disse ela, quando a mãe de Daniela abriu a porta. Beijou-a. – Vim ver a Dani.
- Ela está no banho. Jordão e Juliana…?
- Estão ótimos. Cadê o tio e o Julinho?
- Na cozinha, jantando.
- Hum… vou lá falar com eles.
- Eu aviso a Dani que você está aqui. Veio para passar a noite, não é?
- Vim, sim.
- Certo.
Nádia foi até a cozinha, brincou um pouco com o tio e o primo e depois foi com Daniela para o quarto dela.
- E então, Nádia? - infagou Daniela, depois de fechar a porta. – Aconteceu alguma coisa ou você veio aqui só porque fui lá, de tarde?
- As duas coisas. – Nádia se deitou na cama de Daniela. – Nós voltamos de madrugada e eu precisava dormir, especialmente porque voltamos a encontrar os ufonautas.
- De novo? – Daniela enrubesceu. (22.04.88)
- Sim, de novo. Havia alguma coisa nos chamando de volta àquele lugar. Uma coisa muito forte, que não dependia de nós, nem da nossa vontade. Sei o que está pensando. Mas eles não precisavam falar com você. O que queriam era nos oferecer uma escolha. Raul e Elaine desistiram de seus poderes. Eu e Nic decidimos ficar com os nossos.
Daniela estava parada, olhando para a prima com ar incrédulo. Era impressionante como podiam aceitar e falar sobre aquelas coisas como fatos consumados. Consumados e corriqueiros. Encontros com ufonautas, poderes paranormais, tudo coisa muito comum.
- Por quê, Nádia?
Nádia ergueu os braços numa expressão de indecisão, inicialmente, mas o que disse não tinha nada de indeciso.
- Acontece que eu usei muito mal os meus poderes e causei uma morte por causa disso.
Daniela achou melhor se sentar.
- Uma morte? Que morte?
- A moça que morreu tentando ajudar a prima no caso do assalto à joalheria. Lenira Pontal.
- Putz… Você causou a morte dela? Como foi que se envolveu nisso, mulher?
- Pode parar de cheirar notícia, seu faro de repórter não vai ter vez comigo.
- Não estou cheirando nada, você é minha prima e eu quero saber direitinho como foi essa história.
Nádia contou-lhe o que sabia e o que podia, sem fazer comentários ou tecer considerações pessoais. (25.04.88)
Daniela ouviu a tudo com muita atenção e ficou muito chocada com a parte final da narrativa. Demorou um pouco a falar, depois que Nádia se calou.
- Nádia… você acha que teve culpa pelo que aconteceu? – olhou para a prima com ainda mais atenção. – Acha que causou a morte dela?
- Eu precipitei tudo, Daniela.
- Precipitada você está sendo ao afirmar que causou a morte dela. O fato de você ter batido no abajur foi, vamos dizer assim, o estopim, o pretexto final que o homem usou para matar à irmã. Que em nenhum momento você duvide que a intenção dele era aquela. Ele poderia escolher fugir, levá-la como refém, afinal, àquela altura o que ele queria era mantê-los imobilizados…
- Mas não foi o que aconteceu.
- Não, Nádia, não foi. Ele escolheu matá-la. E não vamos esquecer: ele não podia ver você, então podia ter atirado em qualquer um dos visíveis. E escolheu a irmã. Depois, como você disse, se deixou dominar sem resistência. Pense comigo. Ele não poderia fugir, o plano para jogar a culpa em Marisa tinha fracassado, e tudo por interferência de Lenira. Ela não tinha escapatória, esta é que é a verdade.
- Ela tinha, Daniela. Tinha muita escapatória, sim, se eu tivesse feito a coisa certa. Eu falhei, minha prima. E isso custou-lhe a vida. (26.04.88)
- Certo. Então, se foi assim, onde você estava com a cabeça que não olhou por onde andava? Que raio de heroína boca aberta é você, que conseguiu ser avoada numa hora tão decisiva?
- Eu estava… observando os movimentos de Felipe… – Nádia fez força para não chorar. – Ele é um cara sorrateiro, era uma situação delicada…
- E você acha que isso não era o certo a fazer? Não vou insistir muito sobre isso, minha prima. Você não teve culpa alguma do que aconteceu. Reconheça, simplesmente, que aconteceu.
Nádia baixou os olhos, permanecendo calada por instantes.
- Eu soube que você esteve lá em casa muito bem acompanhada. - disse, depois.
- É verdade, estive lá. – respondeu Daniela, muito séria. – Você vai adorar o Marcelo. Mas enquanto sua cabeça estiver cheia de problemas não vamos falar sobre o meu namoro.
- Eu preciso descansar. Preciso ir para algum lugar bem longe, ficar sozinha…
- E no que isso vai lhe ajudar?
Nádia demorou um pouco para falar.
- Nic quer que eu me case com ele. Me propôs isso, hoje à tarde.
Daniela recebeu a notícia com surpresa.
- E o que você disse? Não aceitou, não é?
Foi a vez de Nádia olhar para a prima com surpresa.
- Você não aprova que eu me case com ele?
- Você mal o conhece…
- Ah, Daniela, qual é? Eu amo o Nic. As coisas que nos aconteceram nos mudaram profundamente. Mas eu recusei. Não precisa me olhar assim. É que o que aconteceu com Lenira me deu um nó na cabeça. Você está olhando para mim. Eu pareço com a pessoa que conhecia há duas semanas atrás?
Daniela não sabia. Disse-o à prima.
- Pois é. – continuou Nádia. – Acho que não estou em condições de dar felicidade e mesmo atenção a ninguém.
- Você disse isso ao Nic?
- Disse.
- E ele?
- Ora, você o conhece. Ele compreendeu. Mas agora, agora, aqui, eu lhe digo, não estou bem certa de ter feito a coisa certa. (27.04.88)
- “A coisa certa”, “a coisa certa”, será que você não consegue pensar numa outra coisa? – Daniela indignou-se com a prima. – Vai ser muito difícil você ajeitar a sua cabeça se a cada passo que der ficar se questionando sobre se fez o certo ou não. Você nunca precisou disso.
- Mas agora é diferente.
- Não, Nádia, não tem nada de diferente. Você precisa aceitar a seguinte realidade, não importa o que faça, tudo terá suas boas ou más consequências, e depois você terá que administrá-las sabendo que jamais será perfeita.
Nádia demorou a falar e disse, com ironia:
- Parece muito fácil…
Daniela não respondeu.
Nádia abriu a mochila, pegou seu inseparável exemplar da Bíblia e o abriu em qualquer parte.
- Daniela, ouça isso: “porquanto a nossa alma está humilhada até ao pó, e nosso peito está pegado à terra”. Eu sinto exatamente isso, aqui, agora, apesar de não ter escolhido ao abrir o livro.
- Você anda com a Bíblia? Para quê?
- Para me sentir humana. Desde o primeiro encontro com o OVNI que eu carrego isto comigo. É ótimo, acredite.
- Hum… Repita esta passagem, por favor.
- “Porquanto a nossa alma está humilhada até ao pó, e o nosso peito está pegado à terra.” Achei-a linda.
- A que se refere?
- Sei lá eu. Leio as passagens meio por cima e algumas delas chamam a minha atenção. Lidas, assim, parecem frases esparsas, sem sentido, mas para mim dizem alguma coisa. Como por exemplo: “nossa alma está humilhada até ao pó”. Eu não sei direito o que quer dizer, mas sinto, com relação ao que aconteceu com Lenira, que fui humilhada até o último átomo do meu ser e do meu espírito. Compreende? Até ao pó que me tornarei depois de morrer.
- Ai, Nádia, por que você se sente humilhada? Você salvou a vida de uma pessoa com seu próprio sangue, expôs-se à palavra de um médico…
- “Meu peito está pegado à terra…” – repetiu Nádia. – Preciso obter o perdão de Marisa.
Daniela silenciou mais uma vez.
- Estou assustada com o que Nic possa estar pensando agora. – falou Nádia.
- Tem medo de que ele não ache que valha a pena esperar?
- Pode ser, por que não? Ele já deixou de lado o grande amor que sentia por Tatiana.
- Mas isso foi diferente, são situações diferentes. Tatiana o traiu, vocês mal começaram a namorar, duvido que ele deixe de gostar de você só porque não aceitou um pedido de casamento. (25.05.88)
- Eu… estou com medo. Acho que Nic significa uma profunda mudança em minha vida, meu temperamento. Me sinto muito madura, muito segura, quase sem dúvida alguma sobre que tipo de pessoa eu sou. Ao mesmo tempo, sinto minha vida estagnada, como se nada mais tivesse a fazer a não ser envelhecer, esperar a morte.
- Você tem vinte e dois anos, Nádia. Há muito o que fazer na vida.
- Acredito, só que não enxergo isso.
- E não perca a calma. Tudo tem seu tempo.
- Sim, a Bíblia fala a respeito. No Eclesiastes.
- Pois é, então você sabe o que fazer. (26.05.88)
Porto Alegre