O encontro de Nic com Marisa começou carregado de tensão.
Quando ouviu o chamado do pai ele pensou que teria que dar explicações sobre seu comportamento, a situação na chácara, etc. Estava preparando-se psicologicamente para isso, ao entrar na biblioteca. E então a viu.
Surpreso, ficou parado, olhando para ela.
- Olá, Nic. – disse Marisa, percebendo a perplexidade dele. – Consegue me reconhecer?
Nic sorriu.
- Desculpe, Marisa… – murmurou ele. – Desculpe, eu… não esperava revê-la tão cedo. (07.03.89)
- Ninguém esperava por isso.- Marisa sorriu, aproximando-se dele. – Mas Nádia fez acontecer.
Nic recebeu um abraço apertado e começou a sentir-se mais calmo.
Henrique observou a cena na qualidade de espectador privilegiado. Notara o flagrante constrangimento de Nic e sentia-se curioso para ouvir a conversa que aqueles dois teriam a seguir. Mas também estava ciente de que teria que deixá-los a sós.
- Ela estava esperando você. – falou ao filho. – Já lhe tinha oferecido o quarto de hóspedes…
- É, eu estava pensando em esperar até o fim. – Marisa continuou sorrindo. – Preciso ver Nádia. Ela salvou a minha vida.
Nic olhou para o pai, meio sem jeito. Henrique ergueu-se de onde estava.
- Você não precisa sair. – Marisa o olhou meio alarmada. Não queria que ele saísse de perto dela. Não suportava a ideia de que tivesse que sair dali e ficar perto daquela mulher horrível.
- Nic, venha aqui. – ela puxou o rapaz para um canto da peça.
- O que há?
Ela falou em voz baixa, mas em tom severo.
- Você não está sendo justo com o seu pai. Ele adora você, está preocupadíssimo e não sabe o que fazer. Escute bem, se você não abrir o jogo com ele, então eu vou contar tudo que sei. E não estou pedindo a sua permissão, estou comunicando que é o que farei.
- Mas Marisa…
- Não. Tranque aquela porta, não deixe sua mãe entrar e conte tudo a seu pai. Ele não merece o que você está fazendo com ele.
Nic refletiu rapidamente. Já viera com aquela ideia, só não sabia quando e como fazê-lo. Agora, com a presença de Marisa, a coisa não parecia tão difícil.
- Tudo bem… – disse ele.
Voltaram para perto de Henrique e Nic começou a falar. Como tinha imaginado, as palavras saíram facilmente de sua boca.
Para Henrique, era um relato que ía além do espantoso. Inúmeras convicções suas começaram a vir abaixo, a partir dali. Não teve dúvida alguma sobre a veracidade do que estava escutando, devido à lucidez e clareza com que seu filho falava, intercalado com comentários de Marisa e algumas demonstrações de Nic.
O ponto alto, porém, que deixou as três pessoas muito tensas, foi, como não poderia deixar de ser, o relato sobre a participação de Nádia ao final do caso da joalheria.
Marisa estava perplexa. Mal conseguia crer no que estava ouvindo. Nic despejava um carretel de genialidades de sua namorada e, de repente, um acidente e a loucura de Felipe. Inacreditável. Ela ficou quieta, séria, tentando digerir o que tinha escutado. Seus olhos não estavam distantes, fixos em algum lugar do espaço.
Para Henrique havia mais do que espanto. Estava orgulhoso com seus filhos, com o namorado de Elaine, com Roberto e com Nádia. Já estava com muita vontade de conhecê-la.
E Nic sentiu-se bem mais leve com relação a seu pai. Henrique sempre fora seu amigo. Sempre fora justo. Enérgico quando precisou ser. Mas sempre com relativa justiça. Marisa tinha razão, devia ter confiado mais nele. Agora, parecia tudo acertado.
Sem saber ao certo o que dizer, Marisa sentia que não tinha, mesmo, que dizer nada. A realidade estava sendo muito dura, quase irreal. Se já não conseguia, antes, acreditar que Lenira estivesse morta, muito menos agora. Agora era pior. Porque poderia ter sido evitado. Ou não? Quem garantiria que, de toda maneira, Felipe não acabaria por matar à irmã? Tudo que ele tinha feito anteriormente já apontava para algum nível de demência. Estava bem claro, agora.
Ela ergueu os olhos para Nic. Viu no rosto dele uma expressão triste, cansada, e de expectativa. Compreendeu logo. Como ela reagiria? Culparia Nádia? Que faria? Eram, seguramente, as dúvidas dele. Mas ela agora era outra pessoa. Se fosse em outros tempos, talvez até pensasse em processar criminalmente a garota. Mas não podia. Ela tentara de todas as maneiras salvar Lenira. Era uma verdade cristalina. A realidade era que Felipe odiava à irmã, e a mataria, mesmo. Um, dois, um milhão de abajures, ou o que quer que fosse, podiam se mover naquela hora. Felipe não atiraria se não quisesse. Era uma coisa bem diferente.
Por isso, invertendo posições, indagou a Nic:
- Como você está?
Ele recebeu a pergunta cm alguma surpresa, mas respondeu imediatamente.
- Assustado.
- Comigo?
- Sim.
Marisa esboçou um sorriso triste. (08.03.89)
- Roberto e Laura ficaram assim, também – disse. – Acho que tudo que eu disse ou fiz foi muito forte. No entanto, com vocês todos aprendi muitas coisas e devo minha vida a Nádia. Acho que só com atos poderei mudar a imagem que vocês têm de mim. Reconheço seu direito de assustar-se.
Houve uma batida na porta. Nic foi abri-la.
- Oi, mãe. – falou ele, dando passagem a Ana Paula.
- Vim buscar o seu pai. – disse ela, no tom autoritário de sempre. – Se a jovenzinha veio para falar com você, ele não precisa ficar aqui, não é? (08.03.89)
- Eu gostaria que ele ficasse. – respondeu Nic, meio irritado. – A jovenzinha e eu precisamos de conselhos de uma pessoa esperiente.
- Ah, é? – ironizou a mãe. – Mas eu preciso falar com ele agora.
- Tudo bem, Nic, eu vou. – Henrique encaminhou-se para a porta. – Depois você e eu conversaremos.
E saiu com a mulher.
Nic tornou a fechar a porta da biblioteca e virou-se para Marisa com a intenção de pedir desculpas.
- Não precisa dizer nada, Nic. – ela sorriu. – Sobre sua mãe já vi tudo que precisava.
- Bom… nem sempre foi assim. – ele sacudiu os ombros. – Não sei o que está acontecendo com ela.
Marisa aproximou-se dele e o abraçou. Ficaram assim, em silêncio, por alguns instantes. Depois, ela acariciou o rosto dele e beijou-lhe a boca levemente. Olhou-o bem nos olhos e disse:
- Aconteceram muitas coisas, não é? Ninguém estava preparado para isso tudo…
- É. – ele tentou sorrir,sem sucesso. – Sei que não adianta nada dizer isso, mas me sinto fisicamente, mentalmente, moralmente cansado. Disse a Nádia que queria me casar com ela, e ela recusou. Não consegue se recuperar do que viu acontecer com Len ira. Ela acha que matou a sua prima. Culpa-se por não ter sido mais cuidadosa…
- Não fale nisso agora, Nic. Relaxe. – Marisa afastou-se por meio metro, mais ou menos. – Olhe… eu queria tanto me encontrar com ela… Fiquei chocada com tudo isso, mas acho que conquistei uma amiga. Melhor dizendo, ela me conquistou. Posso dizer que acho que a amo. Estou viva por causa dela, por tudo que arriscou para me salvar. Quero e não quero pedir que me leve até ela. Posso e não posso esperar. Quero e não quero forçar uma barra, por vocês dois. Venha… sente aqui, um pouco…
Ela pegou as mãos dele e puxou-o para o sofá.
- Você acredita em amor à primeira vista?
A pergunta pegou Nic de surpresa Ficou olhando para ela, por segundos. Nunca vira, pessoalmente, uma mudança de comportamento tão radical quanto a sofrida por Marisa. Seu ar arrogante tinha desaparecido, seu jeito explosivo arrefecera. Ela estava, absolutamente, uma outra pessoa.
- Acredita ou não acredita? – insistiu ela, olhando-o meio divertida.
- Não sei, Marisa. Nunca aconteceu comigo.
- Pois é. – ela continuou sorrindo. – Eu também não sei como a coisa funciona. Mas entrei aqui, vi seu pai, e…
Ela hesitou. Nic viu a apreensão nos olhos dela.
- Como você encara isso?
Ele tornou a sacudir os ombros.
- É inesperado. – comentou. – Mas não é, realmente, um problema meu.
- Não se opõe? Não acha que estou sendo impulsiva?
- Não sei, Marisa. Não me oponho, se é o que quer saber. Isso nada tem a ver comigo.
- Sua mãe está estragando a vida dele.
Nic concordou.
- Depende muito se ele vai se interessar por você…
- É… – ela tornou a sorrir. – Mas acho que posso conquistá-lo e estou disposta a correr o risco. A começar pelo xadrez…
Nic aproximou-se da mesa onde estava o tabuleiro. Olhou para as peças, mas não estava conseguindo se concentrar em nada.
- Começaram a jogar?
- Enquanto eu esperava você. O tabuleiro estava montado e me deu vontade…
- Faz tempo que não jogo.
- Você não tem tido tempo para o seu pai. Nem para você mesmo.
- É verdade. Tudo começa por Tatiana. Minha ex-namorada. Depois conheci Nádia, houve o DV…
- E antes disso, como era?
- Bom… é verdade, sentávamos juntos mais vezes, conversávamos mais…
- Agora os segredos acabaram, não é? Por que não deixa de se preocupar um pouco com as coisas? Veja eu, por exemplo. Nunca me dei conta do que estava desperdiçando em minha vida. Eu sei que ela é curta. Mas, ao mesmo tempo, hoje sei que posso esperar um pouco para obter algumas coisas. Sei que não devo ser mais tão séria. E não pretendo mais ficar à margem de sentimentos tais como sentir amor por alguém. Por isso, permita-me um comentário sobre você e Nádia. Você a pediu em casamento, ela recusou, então acho que ambos precisam pensar. Ela é muito bonita, Nic. Comigo, por duas vezes, ela foi um amor, sendo que, na segunda, foi maravilhosa. Eu lhe peço, então, meu amigo, que dê tempo a ela. Dê o tempo que ela quiser. O tempo que ela precisar. Tenho certeza de que ela gosta muito de você. Não arrisque perdê-la por impaciência sua.
- Isso, de certa forma, não será difícil. – Nic sentou-se no sofá. – Há alguns problemas que preciso resolver, nos próximos dias. Umas coisas com as quais não sei como lidar e tenho que fazê-lo sozinho. Ela terá bastante tempo.
- Ótimo. Depois você me dá o endereço dela? Preciso agradecer pelo que fez por mim.
- Ela vai ter um choque.
- Eu me encarrego de amenizá-lo. Não se preocupe, Nic. Nós nos tornaremos grandes amigas.
- Tomada, Marisa.
- Confie em mim.
Ela olhou para o relógio.
- Quer que a leve embora?
- Não… Estou pensando no seu pai. Me desculpe a franqueza, mas eu odiei a sua mãe. Não foi culpa minha.
- Estou certo de que não.
Porto Alegre