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Decisões – Pt. 8

      ANA PAULA fechou a porta do quarto e disse ao marido:

     - Elaine saiu para ver o… namorado…

     - Saiu.

     – Eu já tinha dito a ela que não o fizesse.

     – Ela não me disse isso.

     – Você me desautorizou. Na frente de uma estranha, ainda por cima.

     Henrique não respondeu, limitando-se a sentar em uma poltrona.

     – A moça conhece Elaine. – disse, depois.

     – De onde?

     – Não perguntei. Ana Paula… Elaine tem dezoito para dezenove anos. Não recebe mais ordens suas ou minhas. Ela sabe o que faz.

      Ana atravessou o quarto, esfregando as mãos com ar preocupado.

      – Ela mora na nossa casa, nos deve explicações. E eu não quero este namoro. Minhas amigas me cobram a presença dela nas reuniões sociais, e eu tenho que dizer que ela já tem um namorado e inventar desculpas para não apresentá-lo nem dizer a que família pertence.

     – Grande coisa. Realmente, é de tirar o sono.

     Ana Paula olhou para ele por segundos.

     – Vai ficar de ironias comigo, agora?

     Ele ergueu as sobrancelhas, com ar pensativo.

     – Para ser franco, acho que vou, sim. É que isso que você está dizendo me soa como uma grande besteira. Na verdade, nós dois estamos pessoas bastante diferentes. Essas diferenças se acentuaram com o passar dos anos. Nossos filhos dentro de pouco tempo estarão casados ou vivendo com alguém e ficaremos sozinhos, aqui. Me parece fácil prever que o convívio se tornará insuportável. – ele ergueu-se e foi até o guarda-roupas. Abriu o maleiro. - Por isso, vou sair agora.

     Ana Paula ficou momentaneamente muda.

     – Isso significa…?

     – Significa isso mesmo, estou indo embora, para sempre.

     – Não acredito.

     – Mas é verdade.

      Lágrimas vieram aos olhos de Ana Paula, que as estancou com força.

      – Minhas amigas… o que vou dizer a elas? Nossas famílias…

      – Olha, isso não é problema meu. No momento, a convivência pacífica e amistosa com meus filhos é só o que está me interessando. Você me indica o seu advogado, que eu mando o meu para falar com ele.

     – Não será tão fácil eu lhe dar o divórcio…

     - Se acha que uma briga judicial vai lhe trazer mais felicidade, vá em frente.

      Ana Paula desistiu de argumentar. Ele estava decidido a partir. E aquela decisão era definitiva, irrevogável. (23.08.91)

     Saiu do quarto sem dizer mais nada.

*                       *

 - Acho que vou embora, Nic.

- Eu… levo você.

- Não. Não se incomode. Eu pego um ônibus…

- Ah, Marisa, qual é? A esta hora…

- Milhões de pessoas fazem isso aos domingos e o mundo não acaba.

- Eu sei.

- Então? É questão de uma hora, talvez menos.

- Acha que dá?

- Não se preocupe comigo. Vou para a casa de um primo. É lá que estou, por enquanto.

- Não voltou a ver o seu irmão?

- Não. Tenho amigos muito melhores, longe da família.

Nic ergueu-se do sofá.

- Tudo bem.

- Mas quero me… despedir do seu pai…

- Claro. – Nic sorriu. - Vou ver o que posso fazer sobre isso.

*                        *

Nic encontrou a mãe na sala, sentada, pensativa.

- Mãe… onde está o pai?

- No nosso quarto…

- Aconteceu alguma coisa?

- Vá lá e veja. – respondeu ela, laconicamente.

Nic subiu as escadas correndo. Encontrou o pai a fechar a segunda mala.

- Pai… Pai, o que está fazendo?

Henrique olhou para o filho, pensando antes de falar. Por fim, disse:

- Há alguns dias sua irmã me deu uma sugestão. Na hora, não cheguei sequer a cogitar. Mas hoje concluo que ela tinha razão.

- Vai embora?

- Vou.

- Para onde?

- Acho que para o apartamento na Luciana de Abreu. Estarei bem, lá.

- Mas… pai… ele está fechado…

- É, eu sei. Mas é o único mobiliado. Levarei algumas provisões daqui. Falarei com Amélia, também. Por enquanto, vou levar isso. E alguns documentos, e… bem, caso você ou sua irmã quiserem me acompanhar… O apartamento é bem grande.

- Eu sei, pai. Não posso dizer nada agora, mas…

- Então não diga.

- Certo. Marisa quer ir embora, agora. Quer se despedir de você.

- Mesmo? – Henrique se surpreendeu. – Bem, se ela esperar um pouco mais, posso lhe dar carona.

- Ela está pronta para ir de ônibus.

- Diga-lhe que espere. Acho que não se importará.

- Acho que não. Vou dizer a ela.

- Certo. Me ajuda com uma mala?

- Claro, pai.

Os dois desceram as escadas e Nic voltou à biblioteca.

                        *

Marisa recebeu a notícia com uma ponta de tristeza. Aquilo tudo não lhe dizia respeito diretamente, mas era mais um problema para Nic. Se afetava a ele, afetava Nádia, também.

- O que você vai fazer a respeito, Nic?

- Não sei. Não pensei nisso, ainda. Tenho que falar com Elaine. Deixá-la aqui, sozinha, não me parece uma boa ideia.

- Foi o que eu pensei…

- Bom… Acho que ele vai voltar aqui, antes de ir embora. Vou levar as malas para o carro.

- E eu vou lá para a rua. Só espero que ele… traga o jogo de xadrez.

-  Lembre-lhe isso.

Marisa saiu da biblioteca atrás de Nic. (24.08.91)

                          *

Elaine tinha descido do ônibus e caminhava devagar até a casa de Raul. Se pudesse, não voltaria nunca mais para sua casa. Nem tanto por causa do namorado, mas pelo clima que se instalara no ambiente.

Não sabia se algum dia sua vida voltaria ao normal. Talvez se a vida de Nic voltasse a ser o que era, e mesmo assim nunca mais seriam as mesmas pessoas.

Quando a porta se abriu, ela foi saudada por Juliana, irmã mais velha de Raul. Houve um certo alvoroço, com todos se esforçando para que ela se sentisse bem e à vontade.

Muito emotiva, Elaine desmanchou-se em lágrimas. (27.11.99)


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