MARISA estava tensa.
Apercebia-se, naquele momento, de que sua vida sofrera uma violenta reviravolta. Tudo para ela tinha pressa, mas aquele era agora o seu ritmo natural, ao passo que, para as outras pessoas, a lentidão, as dúvidas, indecisões, incertezas, seguiam seu próprio ritmo. Para ela, não havia mais tempo em sua vida, nem espaço em sua cabeça, para medo, insegurança, pensamentos negativos, etc.
Ao despedir-se de Nic, conseguiu arrancar dele a promessa de que em breve entraria em contato com Nádia. Agora, dentro do carro do pai dele, estava pensativa, quieta, em parte por respeito ao silêncio do próprio Henrique.
- Bem, para onde você quer que eu a leve? – disse ele, a acerta altura. – Estamos quase chegando ao meu destino e ainda não sei onde quer que a deixe.
Ela esboçou um leve sorriso, olhando para ele.
- Estou agindo como se o seu destino também fosse o meu. – falou.
O sinal à frente deles fechou e Henrique olhou para ela, bastante sério.
- Qual a sua idade? – perguntou a ela.
- Vinte e sete.
- Certo. – ele balançou a cabeça. – Eu estou com cinquenta e dois…
- Foi o que imaginei, pelas idades de seus filhos. Mas nem pense em dizer que tenho idade para ser sua filha. Eu não sou sua filha. E ainda estou pensando em jogar xadrez. Não me pergunte por quê…
Ele ficou em silêncio, enquanto recolocava o carro em movimento.
- Você não está com cabeça para jogar, não é? – perguntou ela. – Perdoe-me se estou parecendo forçar uma barra…
- Tudo bem, Marisa. Este momento estava chegando em minha vida, a qualquer instante. Foi ontem, foi hoje, anteontem, seria amanhã, eu não sei.
- Só sabe que aconteceria.
- Sim. A família se fragmentando. O amor evaporando. Não consigo imaginar uma vida longe dos meus filhos, não assim…
- Eu… entendo o que quer dizer. Mas eles são grandes. Acho que nunca vão deixá-lo sozinho.
- É, eu também… também acho que não.
- Eu também acho que você não… não deveria ficar sozinho.
Ele sorriu.
- Isso é cedo para eu pensar. Gosto da minha companhia.
- Não pensa em partilhá-la com mais ninguém? Se já pensava numa separação, não acredito que ainda não tivesse pensado nesta outra parte, tam,bém.
Ele balançou a cabeça lateralmente, num gesto de concordância
- Você sabe, pensar, a gente pensa um monte de coisas. Mas…
- Mas…?
- Não é assim tão simples.
- Acredito nisso, também. Mas porque não é simples, não é nosso papel complicá-lo ainda mais.
Ele olhou para ela, por segundos.
- Está tentando me dizer alguma coisa, Marisa? Desculpe, mas não estou captando…
Foi a vez dela sorrir e hesitar.
- Bem, ainda há pouco você disse que estávamos quase chegando ao seu destino…
- Sim…
- E eu disse, e repito, que estou agindo como se o seu destino fosse o meu.
Um arrepio atravessou o corpo dele.
- É… é o que está parecendo. – concordou, parando de frente para a entrada de estacionamento de um prédio de luxo.
Acionou o controle remoto do portão, enquanto Marisa observou bem os arredores, nada notando de especial.
Depois de entrarem, quando Henrique parou o carro numa de suas vagas na garagem, Miranda perguntou:
- Existe um telefone funcionando, no apartamento?
Ele tornou a balançar a cabeça.
- Acredito que sim, se minha secretária providenciou os pagamentos, ao longo dos anos.
- Quantos anos?
- Sei lá, uns cinco ou seis, por aí. Ela é uma pessoa muito eficiente.
- Você tem este apartamento há cinco ou seis anos e nunca veio aqui?
- Nunca precisei. Mas nos últimos tempos vinha dizendo a ela que regularizasse toda a situação funcional, dele.
Enquanto deixavam o carro, Marisa preparou-se para ajudar com o que pudesse.
- Vi que trouxe algumas provisões… – falou.
- É… eu trouxe. Você não quer, mesmo, ir embora, não é?
Ela riu.
- Que bom que você percebeu, assim eu não preciso explicar.
Henrique estava começando a abaixar a guarda. Ela era encantadora, corpo, ao que parecia mente, o rosto, era linda, a pele, os cabelos, tudo. E parecia não querer sair do seu lado. Seria mesmo verdade? Que momento em sua vida!
Depois de descarregarem o carro, apesar de serem quase 9 da noite, Henrique abriu as janelas. Marisa ocupou-se na cozinha com duas prés-pizzas, e ficou por lá, esperando por ele. Lembrou-se de seus primos, que deviam estar preocupados com ela, e telefonou avisando que não voltaria para casa naquela noite.
Quando Henrique entrou na cozinha ela disse:
- Espero que esteja com fome, pois preparei duas… – e riu.
- Olha, sabe que até estou? – ele parou bem perto dela. – Precisa de ajuda?
Marisa sentiu-se enrubescer.
- Você deve estar com uma impressão “ótima” de mim, não é? – sorriu, ironizando.
Ele sacudiu os ombros.
- A menos que tudo isso seja fingido, você está se revelando uma pessoa encantadora.
Foi a vez dela olhá-lo muito séria.
- Já fui uma das piores pessoas que você podia ter conhecido na vida.
- Bom, se já foi, então não é mais, e aí não importa, o que você acha?
Ela sorriu.
- O que eu acho… pode parecer patético. – falou.
Henrique saiu de onde estava e tirou uma pizza do forno do fogão.
- Será? – disse, enquanto se servia de uma metade.
Marisa serviu-se da outra metade.
- Não tenho certeza. – respondeu ela. – Minha vida passou por uma profunda modificação. Sinto como se estivesse começando agora, do zero, e a primeira coisa que me aconteceu foi… conhecer você. Você pode achar bobagem, mas, para mim, está sendo importante. Olho para você e sei que não posso nunca mais deixá-lo.
Henrique ficou olhando para ela, quase sem acreditar. Sentia-se perplexo, meio paralisado. E excitado.
- Marisa…
- Eu sei. Eu sei. Você é casado. Ou ainda está casado. Mas também sei que só os filhos ainda o ligam àquela mulher. Só que tudo, agora… tudo que passei, o milagre de ainda estar viva, isso não me deixa mais ter medo de nada. Nem de que você não goste de mim, mas vejo em seus olhos que não é o que está acontecendo.
- É, não é, mesmo. – ele riu. – Estou gostando imensamente de cada momento do meu dia desde que você apareceu. E isso me assusta. Você pode estar criando expectativas a meu respeito…
- Pare… Pare, não diga mais nada. – Marisa aproximou-se dele, ajoelhando-se a seu lado. – Você é um empresário bem sucedido. Um homem rico, vitorioso, pai de duas pessoas maravilhosas. É este homem que eu quero conhecer ainda mais. E mais nada. Mostre-me quem é, sem máscaras, sem disfarces. Estou preparada para recebê-lo e aceitá-lo como é, pelo que você é. Só lhe peço que também me receba como sou.
Ele ficou olhando para ela, ainda incrédulo.
No instante seguinte, aconteceu o primeiro beijo. Bem de leve, demorado, um momento em que o tempo literalmente parou.
Depois, Marisa disse:
- Ei… Vamos comer, está bem? Depois continuamos…
- Sem problemas… – ele sorriu, ainda com os olhos fixos nela. (27.11.99)
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(Há exatos 10 anos, quem diria? – trecho transcrito em 27.11.2009)
Porto Alegre