MARISA não queria falar.
Enquanto comia sentia-se emocionada e não conseguia tirar os olhos dele. Olhava-o, apenas, e para o ambiente em que estavam.
Henrique comia devagar.
Naquele momento, sentia-se mais emocionado que faminto e nem pensava em não demonstrá-lo.
- Não estou conseguindo comer… – falou.
Marisa sorriu.
- Estou atrapalhando você? – deu uma risada.
- Definitivamente. – ele a acompanhou.
- Contanto que isso não o aborreça…
Ele sacudiu a cabeça.
- Estou sentindo uma coisa que há horas não me acontecia. Gosto pela vida… Aquele gosto pessoal, aquele agradecimento a Deus por estar vivo…
Marisa apoiou o queixo sobre as mãos cruzadas, os cotovelos apoiados na mesa.
- Sem querer falar mal dela, pois não a conheço e ela é mãe dos seus filhos, acho doloroso que o amor um dia possa vir a se transformar em frustração, indiferença, ou até mesmo ódio…
- Isso acontece com muita frequência, infelizmente. A gente sempre pensa que só acontece com os outros… Muitas vezes a transformação é lenta, quase não se a percebe.
Marisa concordou, mas fez uma ressalva:
- Não tenho muita prática. Nunca tinha amado ninguém, antes. Agora, amo várias pessoas ao mesmo tempo, mas sei a diferença sobre sentir amor sexual por alguém…
O olhar dela era penetrante.
- A pior parte, talvez, é que muitas mudanças tiveram que acontecer para que eu seja quem sou agora. Mas se não fossem, elas…
- Você fala como se tivesse sido a Bruxa Malvada do Leste.
- E você tem que acreditar, Henrique, eu fui. (02.10.00)
- Bom… – ele ergueu as sobrancelhas. – E o que você é agora? Quem é você, agora?
Marisa continuou olhando para ele, mas agora com ar de dúvida.
- Eu não sei. Quero acreditar que sou uma pessoa melhor. Pelo menos é assim que me sinto. Mas não saberia mais me descrever. Não como antes sabia.
Henrique ficou quieto, por instantes. Não conseguia imaginá-la diferente do que estava descobrindo, mas também tinha na memória algumas reações iniciais de Nic, ao vê-la na biblioteca.
- Quais são seus planos, a partir de agora?
- Eu não sei. – tornou a dizer. – Não tenho nenhum… – recostou-se na cadeira com ar desconsolado. – Há coisas que quero fazer, que preciso fazer, mas não chamaria isso de planos.
- Qual a sua área, mesmo?
- Bom… com meu irmão eu trabalhava como secretária. Faço uma faculdade de arquitetura, mas isso, agora, me parece totalmente sem sentido.
- Hum… e o que lhe faria sentido, agora?
- Agora? Acho que gostaria de ser psicóloga. Gostaria de poder ajudar as pessoas. Saber mais sobre a alma e a natureza humanas.
- Você está, mesmo, muito preocupada com a namorada de Nic. – falou, Henrique, após nova pausa.
- Estou. Na verdade, acho que estou preocupada com a Humanidade inteira. Acho demais para minha boa vontade, mas…
- Mas… me parece que você está passando por uma fase em sua vida em que está muito alta a sua capacidade de influenciar as vidas das pessoas à sua volta. Isso é uma qualidade rara.
- Pode ser, Henrique, mas o preço pago para chegar a este estágio foi caro demais.
Ela saiu da mesa. Colocou seu prato na mesa e disse a ele:
- Amanhã eu lavo. Agora, quero falar com você, ali na sala.
Ele concordou. (21.10.00)
Na sala, Marisa sentou-se no sofá maior, e fez com que ele deitasse em suas pernas. Ela ficou passando uma mão nos cabelos dele, enquanto a outra ficou pousada sobre seu peito. Ele segurou-lhe a outra mão.
- Sei que as pessoas reagem sempre de maneiras diferentes. – falou ela. – Minha maneira de ver a situação está (ou pode estar) bem distante da sua…
- A situação de nós dois, aqui e agora?
- É.
- Hum…
- Por favor, me diga o que está pensando. A respeito de tudo.
Ele ficou olhando para ela.
- Bom, eu estou pensando em Elaine. Na verdade, penso em Elaine, em Nic, em você, em mim, em Nádia, em Ana Paula…
- Está certo, mas você tem que começar por alguma dessas pessoas. – ela riu. – Estou esperando.
Ele também riu.
- É engraçado, está tarde, amanhã tenho uma reunião importante, para variar, mas não estou com sono, não estou cansado, estou me sentindo muito leve…
- Você mai me odiar, mas só posso dizer que é claro, você tem que estar se sentindo leve, saiu de perto daquela mulher… – ela parou. – Ai, me desculpe. Eu não devia estar falando assim. Eu amo e admiro muito seus filhos, ela é mãe deles, desculpe.
- Desculpo, se você prometer não deixar de sorrir.
- Você é manipulador. – ela escancarou seu melhor sorriso.
Ele também.
- Pois é… – falou. – Elaine está apaixonada por aquele rapaz.
- O Raul. Estuda com ela e é negro.
- Ana Paula vai infernizar a vida dela, vai descontar nela…
- E você vai deixar?
- Eu? Não sei o que fazer.
- Você não quer que Elaine o namore? Porque ele é pobre? Porque é negro?
- Ei, eu… calma…
Marisa estava muito séria, olhando-o.
- Olha, Nic e Elaine estudaram em escolas públicas. Não tenho restrições quanto a classes. O melhor amigo do Nic é negro, sempre frequentou a minha casa.
- Mas namorar a filha é diferente…
- Até é. É mais sério. Mas confio em Elaine. Ela não namoraria se não tivesse certeza de que ele gosta dela. E poderia não gostar?
- Os jovens são mais idealistas. Nas idades em que estão o amor é mais forte que qualquer coisa, ainda não existe isso de ser interesseiro.
- Concordo.
- Então, se é assim, qual a sua preocupação?
- A preocupação é que a Ana pode não dar o tempo que eles precisam para descobrir o que sentem.
- Bem, traga-a para morar aqui. Elaine deve ser louca por você, e nem poderia ser diferente.
- Restaria a Nic morar com a mãe…
- Nic é adulto. Trabalha. Pode muito bem morar sozinho. Ou você o traz para cá, também, O lugar é bem grande.
- E a Ana ficaria sozinha?
- E daí? Ela também, é bem adulta. Aliás, se ficar sozinha, estará simplesmente colhendo o que plantou, mesmo eu sabendo que colocará a culpa em mim.
Henrique ficou olhando para ela, novamente, em silêncio.
- O que foi? – ela sorriu.
- E quanto a você?
- O que é que tem?
- Você disse que nunca se apaixonou antes…
- Verdade.
- Nunca viveu junto de alguém, assim…
Marisa sentiu um arrepio.
- Henrique…
- O que foi?
- Olha… eu adoraria morar aqui, com você… Não sei se foi isso que quis dizer, mas…
- E se for?
- Bom…
- Agora me diga você, o que está pensando…?
- Ah… você sabe… há coisas que eu preciso resolver… Minha vida, um trabalho, meus estudos, tudo está um caos, que é preciso endireitar…
- E o que mais?
- Bom, preciso falar com Nádia, antes de mais nada. Não posso ficar aqui, pelo menos não enquanto você estiver legalmente casado.
- E quanto a Nic e Elaine…?
- O que é que tem?
- Você começaria uma vida com alguém, assim, já tendo companhia de filhos junto…?
- Eu acho que você não me ouviu. Eu disse que admiro e amo seus filhos. Ter a companhia deles e a sua, dentro da mesma casa, me parece um conto de fadas. Se você me beliscar e eu acordar, brigo com você, portanto, não me belisque. (21.10.00)
- Eu quase não acredito no que está acontecendo. – falou ele. – Acho melhor você me beliscar. Se for um sonho, quero acordar logo…
- Não é um sonho, meu querido. Aqui estou eu, bem viva, transbordando de amor por você… Não importa o que o conheça há apenas quatro horas. Não existe mais vida para mim sem você. Só tenha paciência comigo, porque tenho pendências a resolver. (21.10.00)
- Eu terei. Claro que terei.
- E agora, meu caro, trate de deitar, porque você tem uma reunião importante, amanhã.
- E você…? Não tem roupa, nem nada…
- Ah, você não vai ligar para Elaine?
- É mesmo.
- Faça isso, então.
- E quanto a você?
- Eu me viro… Fique tranquilo, ’tá? (21.10.00)
- Não sei se consigo.
Ele estava sentado, olhando para ela. Marisa olhou para o relógio outra vez.
- Acha que não sou de confiança? – falou. – Ou me vê como uma garotinha indefesa?
- Não sei se é isso. Acho que não. Ter uma mulher tão maravilhosa por perto pode estar me deixando inquieto.
- Digamos que eu seja. E daí? Mesmo assim, preciso de você. Preciso, acredite. Preciso aprender a me controlar, a não ceder à minha ansiedade e impulsos.
- Ansiedade?
- Nádia. Eu preciso falar com ela. De qualquer maneira. Hoje à noite, se possível.
- Não creio que Nic lhe desse o telefone.
- Eu sei. Isso é o que mais me incomoda. As pessoas não confiarem em mim.
- Talvez nem seja por você, Marisa. Como ele disse, ela está arrasada.
- Eu vou acalmá-la.
O telefone tocou. Henrique atendeu.
Porto Alegre