- Alô?
- Pai?
- Oi, filha.
- Acabei de chegar. A mãe já me contou tudo.
- hum… bem… desculpe…
- Ah, pai, pare com isso. Eu estou um pouco nervosa, não estranhe meu jeito de falar…
- Tudo bem…
Enquanto ele falava, Marisa entrelaçõu a outra mão dele com seus dedos e a beijou. Depois ergueu-se e afastou-se.
- Pai?
- Sim, estou aqui. O Nic está por aí?
- Está, sim, só um pouquinho.
* *
- Pai.
- Nic. Preciso de um favor seu.
- Diga.
- Marisa quer o telefone de Nádia.
- Ela está aí com você?
- Sim, filho, ela está.
- Ela pediu pra você me pedir isso?
- Não. Estou pedindo porque ela não vai parar de me incomodar se não falar com Nádia ainda esta noite.
- Eu imagino. Bom… anote aí. Mas pai… se ela não quiser falar…
- Me comprometo com você de que falarei com Marisa sobre isso.
- Está bem.
* *
- Elaine quer falar com você de novo.
- Tudo bem. Obrigado, filho.
- Não por isso, pai. Um abraço.
* *
- Pai.
- Diga, filhote.
- Minhas malas já estão prontas. O irmão disse que me leva, só falta você autorizar.
Pausa.
- Tem certeza de que é isso que você quer?
- Tenho. Ainda sou meio adolescente, mas já consigo compreender que a única maneira de eu não odiar de vez a minha própria mãe é me afastando dela. Assim ainda posso continuar a amá-la, ou tentar, pelo menos.
- Muito maduro pensamento, Elaine. Se Nic está disposto a trazê-la, venha, mesmo. Estarei esperando.
- Então está bem. Obrigada, pai. Amo você.
- Eu também amo você, filha. Estarei esperando.
- Certo. Até daqui a pouco, então.
* *
Elaine definitivamente não era do tipo de pessoa que deixava os assuntos pela metade. Depois de ajudar Nic a colocar suas coisas no carro, foi ao quarto de sua mãe.
Ana Paula estava psicologicamente abalada, parecendo um farrapo humano.
- Mãe…
- O que é? Vai fugir, também?
- Mãe… – ela aproximou-se, falando ternamente. – Não importa se isso é ou não uma fuga. Para mim, no momento, o importante, o mais relevante, é que você não me deixou outra escolha. Nem para mim, nem para o meu pai, e provavelmente nem para o meu irmão. Nem para Amélia, tenha certeza, porque eu vou levá-la daqui, para que seja tratada com mais dignidade.
- Vou ficar abandonada…
- Fisicamente? Sim. Você colhe o que planta. Eu, com dezoito anos, tenho esta compreensão. Você também deveria ter. Mas há ainda uma outra coisa que você deve saber…
- Veja o tom em que você está falando comigo…
- Estou falando calmamente com você, minha mãe. O que eu quero que você saiba é que… um amor de filha, de uma filha por uma mãe, não se extingue da mesma maneira como o de um marido por uma esposa. Embora você tenha feito (e a meu juízo aindas esteja fazendo) de tudo para que eu deixasse de amá-la, eu estou fazendo uma tentativa honesta e sincera para que isso não aconteça.
- Indo embora?
- Sim. Espero que você consiga compreender. Se mesmo com isso você continuar sendo a pessoa esnobe e arrogante em que se tornou ultimamente, nada mais poderei fazer. Espero que você seja feliz. E por enquanto, tchau.
Elaine deixou o quarto sem se importar com as lágrimas da mãe.
Porto Alegre