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Nádia e Marisa – Pt. 12

O telefone tocou enquanto Nádia estava na cozinha. Era bem tarde, já, e além dela só seu primo ainda não estava dormindo.

- Nádia, telefone para você, é uma mulher.

Nádia achou estranho. Quem poderia estar ligando para a casa de sua prima atrás dela, àquela hora?

- Pronto…

- Nádia?

- Sim… quem está falando?

- Desculpe ligar a esta hora, sei que você não está em casa e está tarde…

- Quem está falando?

- Aqui… é Marisa…

Nádia sentiu suas pernas fraquejarem. Sentou-se, quase deixando o aparelho cair de sua mão.

- Por favor, Nádia, não desligue. Por favor…

Nádia não disse nada. Ficou apenas segurando o telefone.

- Nádia…

- Eu… Oi… Marisa…

- Eu praticamente obriguei o Nic a me dar o seu número. Mas é que eu… precisava saber como você está.

- Ele não lhe disse? Não contou nada do que houve?

- Contou. Só me diga uma coisa…

- Não, me diga você. De onde está falando? Como você está? Eu sinto muito pelo que aconteceu com sua prima… – Nádia começou a chorar.

Do outro lado da linha, Marisa acompanhou-a nas lágrimas.

- Eu estou bem, Nádia. Olha… aconteceram muitas coisas… Conheci uma pessoa maravilhosa, estou apaixonada, e agora estou falando com você…

- Você saiu do hospital?

- Sim.. Estou aqui, com o pai de Nic… mas isso é uma outra história…

- O quê? O pai de Nic? Mas o que houve…?  (22.10.00)

- Olhe… Nic estará aqui, daqui a pouco. Você nos autoriza a pedir-lhe para buscá-la aí? Eu quero muito ver você pessoalmente.

- Ai, Marisa, não sei… Não estou me sentindo muito bem… Não sou assim tão forte…

- Nádia… eu imploro, suplico, por favor, venha até aqui me ver…

- Você deve estar me odiando…

- Não! Não! Não diga isso, não pense nisso… Me deixe apenas vê-la… por favor…

Nádia ficou novamente em silêncio.

- Ok. – disse, depois. – Posso levar minha prima junto?

- Quem você quiser.

- Ok, então. Diga ao Nic que venha. Estaremos prontas.

*                              *

Daniela não acreditou quando sua prima a acordou.

- Nádia… eu tenho que trabalhar, levanto cedo.

- Dani…. preciso de você… 

- Mas você viu que horas são?

- Eu vi. Você não está entendo, ela me ligou.

- Ela quem?

- Marisa. Nic vem nos buscar. Melhor você estar pronta, para que seus pais não acordem.

- Meu Deus… – resmungou Daniela. – Isso é um pesadelo, eu estou sonhando, agora é só virar para o outro lado…

Ela chegou a ressonar.

Nádia impacientou-se. Na verdade, só queria a companhia de Daniela para não ficar a sós com Nic. Não queria ser pressionada. Mas por que estava com tanto medo dele, se o amava?

Por fim, deixou sua prima seguir dormindo.

*                        *

Elaine estava acompanhando o irmão no trajeto à casa de Daniela para pegar Nádia. Nic achou que se ela estivesse ali, além da própria Daniela, não haveria a menor possibilidade de ele e Nádia conversarem a respeito deles mesmos. O que era estranho, pensava, porque eles mal e mal haviam começado a namorar e nada indicava que tinham deixado de se gostar.

Assim como ela estava estranhando aquela súbita e imediata afinidade entre seu pai e Marisa. Na verdade, estava estranhando um pouco a própria reação. Em outros tempos, contestaria aquilo com veemência, mas agora estava pensando que não seria ela quem iria colocar impecilhos à felicidade de ninguém.

*                           *

Nádia estava à espera na sala, no escuro, olhando pela janela para a rua. Quando Nic chegou, ela saiu sem se preocupar com chaves para entrar de volta. Seu primo trancaria a porta e ela achava que não voltaria tão cedo, naquela madrugada.

- Oi, Elaine. Que bom ver você de novo.

- Oi, Nádia. Onde está Daniela?

- Não quis acordar, aquela traidora. Oi, Nic.

- Ah… Que bom que percebeu que eu estou aqui…

- Ei, isso é ciúme? – ela riu.

- Não… claro que não…

Nadia estava se sentindo diferente. Apreensiva, mas leve. Olhou para Nic e compreendeu que seu amor por ele jamais teria fim.

- Marisa me falou que aconteceram coisas e que estava com o seu pai, o que está havendo?

Nic ergueu as sobrancelhas.

- Meus pais se separaram. O pai saiu de casa.

- E Marisa foi com ele?

- Você acredita em amor à primeira vista, Nádia? – perguntou-lhe Elaine.

Nádia olhou para ela por instantes, meio incrédula.

- Foi isso que aconteceu?

- É o que parece. Eles estão agindo como se fosse e dizem que sim…

- E o que vocês acham disso?

- Bom… – murmurou Nic.

- Eu acho que há muito tempo não via meu pai tão bem… – disse Elaine.

- Que idade ele tem, mesmo?

- Cinquenta e dois.

- E ela?

- Vinte e sete.

- Puxa…

Ela olhou para Nic.

- Você está quieto só porque está dirigindo, ou…?

- Eu… estou percebendo que você está bem… ou parece estar.

- E estou…

- Pois é, e eu estou feliz por isso, então fico curtindo você, assim.

Ela sorriu. Virou-se para Elaine e disse:

- Eu não sei como classificar este momento de minha vida. Tenho a sensação de estar penetrando em um novo mundo, onde existe muito amor e compreensão entre as pessoas. Seu amor com Raul, seu pai com Marisa… Minha prima com o novo namorado…

- Roberto e Laura…

- E eu com seu irmão.

- Nádia…

- Não, Nic. A resposta é sim.

Nic olhou para ela, quase sem acreditar.

- Ei, preste atenção ao volante… – ela sorriu.

Elaine colocou uma mão no ombro de Nádia.

- Eu me sinto privilegiada por estar presenciando todas estas transformações. Posso dizer que está sendo o mais longo e um dos mais felizes dias da minha vida. Mesmo com o que aconteceu com meus pais, o que na verdade era apenas uma questão de tempo…

- Você está dizendo, Nádia, que quer casar comigo?

- Sim, Nic. Eu quero. Mas não perecisa ser amanhã. Você tem que resolver seus negócios, nós não precisamos ter pressa…

- Bom, isso não me importa. O que impolrta é que você está bem, e que vamos ficar juntos.

- Para sempre, acredite., Prelo menos, farei o que puder para que seja assim.

Estavam chegando ao seu destino.

                          *

Henrique tinha ido tomar um banho e Marisa ficou andando de um lado para o outro, no apartamento. Estava nervosa. Não conhecer Nádia, não saber nada sobre ela, era um desafio como antes nunca havia enfrentado. Não sabia se queria ficar a sós com ela, não sabia se queria companhia de outras pessoas.

Quando a campainha soou, ela ficou paralisada, no meio da sala. Henrique foi abrir a porta.

Elaine e Nic entraram primeiro, carregando o material dela. Por último, Nádia, também com algumas sacolas.

- Pai, esta é Nádia… – anunciou Nic.

- Oi, é um prazer conhecê-la… – ele estendeu a mão para ela.

- Oi… – ela apertou-lhe a mão, mas seus olhos logo encontraram os de Marisa.

As duas ficaram se olhando à distância, por instantes. O nervosismo geral tornara o ambiente tenso, mas, ao mesmo tempo, parecia haver muita calma no ar.

Marisa parecia querer dizer alguma coisa, mas não conseguia. Balançou os braços e começou a chorar.

Nádia também sentiu as lágrimas chegando, e caminhou, devagar, na direção da outra jovem.

Abraçaram-se demoradamente, sem dizer nada.

Por fim, Marisa quebrou o silêncio.

- Que bom que você veio… Você… me devolveu à vida. Obrigada… Sou tão… grata…

- Eu causei a morte da sua prima…

- Não, Nádia, não diga isso… – Marisa segurou-lhe as mãos e a fez sentar-se. – Olha… Aquele meu primo é muito louco… Nada o teria impedido de matar Lenira. Ela a odiava.

- Mas eu…

- Eu sei. Sei de tudo. Sei o quanto você foi maravilhosa. O quanto quis ajudar. O que fez por mim. Sem me conhecer, e tudo que arriscou para me salvar. É uma lei da vida: não se pode ganhar todas.

- Marisa, olha… eu sei o que está tentando me dizer. O que está tentando fazer. Mas o que aconteceu com sua prima podia ser evitado. Não importa o que aconteça, eu nunca, nunca, vou esquecer. Nunca vou me perdoar. Mas a vida continua. Há um homem que me ama muito, que eu sei, e a quem eu amo com todas as forças que me restaram. Com a ajuda dele, com a sua ajuda, e de outras pessoas, vou sobreviver.

- Nós vamos sobreviver, Nádia. Quero ser sua amiga. Devo-lhe minha vida. Devo-lhe mais. – Marisa ergueu-se e caminhou na direção de Henrique, Elaine e Nic. – Quando salvou a minha vida, você não sabia, ninguém sabia, mas estava também abrindo as portas, as minhas portas, para o amor.

Ela abraçou-se a Henrique.

- Este homem… pai destes dois seres privilegiados… até o dia de hoje eu trinha vivido sem ele… e agora não posso mais. Por muitas e muitas razões, não lembro mais da vida que levava antes.

Nádia saiu de onde estava e aproximou-se do grupo.

- Elaine… Nic… Marisa… Henrique… Eu só posso agradecer por seu carinho, seu amor, seu incentivo…

- Acho que estou sobrando, aqui. – elaine começou a rir.

- Só hoje, querida… – Marisa abraçou-a. – Estamos numa emergência. Mas Raul, que eu ainda não conheço, mas espero conhecer em breve, está aqui, junto conosco. Sei que posso ser vista como uma usurpadora, mas na nossa casa ele entra à hora que você quiser.

- E eu… – Nádia olhou para Henrique. – Prometo que nunca mais permitirei, ou serei a causa do afastamento de seu filho de você… Nic gosta muito de você. Andei roubando a cena por um tempo, mas… vou puxar as orelhas dele.

- Bem… Obrigado…

Marisa lembrou a Henrique que ele tinha aquela reunião importante e ele foi deitar-se, não sem antes participar do brinde com copos cheios de água, que era o que tinham parta o momento.

 

*                                 *

FIM

(23.10.00)


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