– Não tem sobre os de Marcelo. Tem sobre os dela. Sobre os dele não cabe a ela questionar, cabe a ele.
Augusto pensou um pouco.
– Não sei, não, prima. Se ele não se questionar, até por não atinar com isso, cabe a ela abrir os olhos dele.
Virgínia concordou, em silêncio. Depois, olhou profundamente para o primo.
– Você conquista corações com muita rapidez, não é? – falou.
Augusto sorriu.
– Conquistei o seu?
– Há anos. Se não fôssemos primos…
– E o que isso impede?
– É. Realmente, não impede nada. Me pergunto se seremos assim para sempre, tão amigos…
- Buenas, e por que não? Será Ernesto assim tão ciumento? Ou qualquer dos namorados que venha a ter?
– Ele está sendo o primeiro. – ela tornou a rir. – Não tenho como saber. Agora, você…
– Eu? Que é que tem eu? Não tenho namorada alguma…
Virgínia voltou a ficar quieta por instantes.
– Como foi o passeio com ela, Augusto? Sobre o que conversaram? Achei legal você dar uma força a ela, depois do que ela passou…
– Bom, não foi nada de mais. Apenas dei-lhe uma carona ao supermercado…
– Ah, ‘tá, primo, está querendo me dizer que não gostou dela…?
Augusto ergueu as sobrancelhas.
– Ela é muito bonita. – falou. – Qualquer homem pode sentir um pouco de insegurança, diante de uma mulher assim. Talvez Ernesto sinta isso com relação a você.
Virgínia desconsiderou o último comentário, estava mais curiosa em saber a opinião dele sobre Miranda.
– Você se sentiu inseguro, ao lado dela?
– Eu não, não estou envolvido com ela…
– E comigo, você se sente inseguro?
- Também não. Eu cresci junto de você, é natural, para mim, estar do seu lado. Além disso, o amor que nos une não está relacionado com a posse.
– Ah, pois é. Este sentido de posse… isso arrasa com o amor. Quando uma pessoa ama uma outra, mas ama mesmo, mesmo que haja relações com milhares de outras pessoas, aquela pessoa a quem se ama é a única que faz a cabeça. Miranda deu um filho ao idiota. Ela o amava. Agüentou os maus tratos por longo tempo, porque seu amor lhe dava esperanças de que um dia as coisas melhorariam…
– Até que um dia não agüentou mais…
– Até o dia em que o amor acabou…
Augusto pensou, por alguns segundos.
– A iniciativa de ir ao súper partiu dela. Eu penso que ela não quis dar trabalho a Ernesto… ela já sabia que ele estava a fim de você, talvez não quisesse atrapalhá-lo.
- E talvez tenha querido ficar perto de você.
– Você acha mesmo, Virgínia, que uma pessoa como ela, na situação em que ela está, poderia vir a se interessar por mim?
– Como assim, alguém como ela?
– Ah, sei lá… Ela está sofrida, desiludida… Acima de tudo, ela é bonita, tão querida…
– Mas o que a impediria de interessar-se por você, em sua opinião?
Augusto pensava na reação de Miranda, quando ele tentou convidá-la para sair e conversar mais sobre Helena.
– Não sei, Gina… Qualquer coisa…
– Racista ela não é, já se percebeu bem, isso.
– Eu sei…
– Além disso, ela não parece minimamente preocupada com status. Ela está, como você disse, desiludida. Ela só que ser feliz. Quer cuidar do Luciano numa boa, coisas assim.
– Bom… acho que haveria um problema, então…
– Ainda? Que problema?
– É, Virgínia, pense bem… Uma pessoa na situação dela…
A porta se abriu naquele momento e Elise entrou.
– Ora, salve! – brincou Virgínia, com um sorriso irônico. - Você madrugou, saiu antes que todo mundo acordasse e só aparece agora… – ela olhou o relógio. – Dez e dezessete! O que você andou aprontando o dia inteiro?
– Eu não aprontei nada, não me comprometa… – Elise riu.
– Mas o que você fez? Quero saber tudo! – Virgínia não controlou o riso.
Elise manteve o sorriso. Meneou a cabeça, olhou para o irmão e brincou:
– Digo ou não digo?
Sentindo um ligeiro calafrio, Augusto respondeu à altura:
– Você não tem que dar explicação alguma a ninguém… – e sorriu amarelo.
- Augusto! – brincou Virgínia, fingindo indignação. – Do lado de quem você está? Eu fiquei preocupada o dia todo. Não concordo com você, não. Ao contrário, eu mereço que ela me dê uma satisfação!
Augusto riu, armou a maior cara de cínico e disse, às duas:
– Bom, neste caso eu também quero saber tudo…
Elise deu uma risada mansa, gostosa.
– Bom, gente… eu estou me sentindo muito feliz, ao menos por hoje à noite…
- Hum… – Virgínia olhou maliciosamente para Augusto. – Valeu a conta do motel…
- Ah, Virgínia, qual é? – Elise soltou o riso mais ainda. – Não foi nada disso…
- Está bem, mas espere um pouco. – Virgínia ergueu uma das mãos e olhou para Augusto. – Voltemos a você. – ela virou-se para Elise e disse: – Ele estava falando sobre a irmã de Ernesto.
Elise nem sequer piscou.
- Irmã de Ernesto? – disse, fingindo surpresa. – Quê irmã de Ernesto?
- A única que eu acho que ele tem… – ironizou Augusto.
- Também, passa o dia fora, quer o quê? – brincou Virgínia. – Ernesto tem uma irmã que é uma gracinha. Ela tem um filho, está separada do marido e… parece que foi fisgada…
Agora, sim, os olhos de Elise voltaram-se para Augusto com um misto de surpresa e inquietação.
– Ah, é…? – disse a ele, olhando-o incisivamente.
– Virgínia está exagerando. – Augusto remexeu-se no sofá, meio sério, meio de brincadeira. – Ela apenas foi comigo ao supermercado, hoje de tarde.
– Ah, é…? – repetiu Elise. – E estavam falando o quê, sobre ela, agora?
- Eu ía dizer que uma pessoa na situação dela pode confundir as coisas, pensar que sente algo que na verdade não está sentindo…
– E você, sentiu alguma coisa? – indagou Elise.
Porto Alegre