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Cap. 24 Pt. 2

      – Não tem sobre os de Marcelo. Tem sobre os dela. Sobre os dele não cabe a ela questionar, cabe a ele.

      Augusto pensou um pouco.

      – Não sei, não, prima. Se ele não se questionar, até por não atinar com isso, cabe a ela abrir os olhos dele.

      Virgínia concordou, em silêncio. Depois, olhou profundamente para o primo.

      – Você conquista corações com muita rapidez, não é? – falou.

      Augusto sorriu.

      – Conquistei o seu?

      – Há anos. Se não fôssemos primos…

      – E o que isso impede?

      – É. Realmente, não impede nada. Me pergunto se seremos assim para sempre, tão amigos…

      - Buenas, e por que não? Será Ernesto assim tão ciumento? Ou qualquer dos namorados que venha a ter?

      – Ele está sendo o primeiro. – ela tornou a rir. – Não tenho como saber. Agora, você…

      – Eu? Que é que tem eu? Não tenho namorada alguma…

      Virgínia voltou a ficar quieta por instantes.

      – Como foi o passeio com ela, Augusto? Sobre o que conversaram? Achei legal você dar uma força a ela, depois do que ela passou…

      – Bom, não foi nada de mais. Apenas dei-lhe uma carona ao supermercado…

      – Ah, ‘tá, primo, está querendo me dizer que não gostou dela…?

      Augusto ergueu as sobrancelhas.

      – Ela é muito bonita. – falou. – Qualquer homem pode sentir um pouco de insegurança, diante de uma mulher assim. Talvez Ernesto sinta isso com relação a você.

      Virgínia desconsiderou o último comentário, estava mais curiosa em saber a opinião dele sobre Miranda.

      – Você se sentiu inseguro, ao lado dela?

      – Eu não, não estou envolvido com ela…

      – E comigo, você se sente inseguro?

      - Também não. Eu cresci junto de você, é natural, para mim, estar do seu lado. Além disso, o amor que nos une não está relacionado com a posse.

      – Ah, pois é. Este sentido de posse… isso arrasa com o amor. Quando uma pessoa ama uma outra, mas ama mesmo, mesmo que haja relações com milhares de outras pessoas, aquela pessoa a quem se ama é a única que faz a cabeça. Miranda deu um filho ao idiota. Ela o amava. Agüentou os maus tratos por longo tempo, porque seu amor lhe dava esperanças de que um dia as coisas melhorariam…

      – Até que um dia não agüentou mais…

      – Até o dia em que o amor acabou…

      Augusto pensou, por alguns segundos.

      – A iniciativa de ir ao súper partiu dela. Eu penso que ela não quis dar trabalho a Ernesto… ela já sabia que ele estava a fim de você, talvez não quisesse atrapalhá-lo.

      - E talvez tenha querido ficar perto de você.

      – Você acha mesmo, Virgínia, que uma pessoa como ela, na situação em que ela está, poderia vir a se interessar por mim?

      – Como assim, alguém como ela?

      – Ah, sei lá… Ela está sofrida, desiludida… Acima de tudo, ela é bonita, tão querida…

      – Mas o que a impediria de interessar-se por você, em sua opinião?

      Augusto pensava na reação de Miranda, quando ele tentou convidá-la para sair e conversar mais sobre Helena.

      – Não sei, Gina… Qualquer coisa…

      – Racista ela não é, já se percebeu bem, isso.

      – Eu sei…

      – Além disso, ela não parece minimamente preocupada com status. Ela está, como você disse, desiludida. Ela só que ser feliz. Quer cuidar do Luciano numa boa, coisas assim.

      – Bom… acho que haveria um problema, então…

      – Ainda? Que problema?

      – É, Virgínia, pense bem… Uma pessoa na situação dela…

      A porta se abriu naquele momento e Elise entrou.

      – Ora, salve! – brincou Virgínia, com um sorriso irônico. - Você madrugou, saiu antes que todo mundo acordasse e só aparece agora… – ela olhou o relógio. – Dez e dezessete! O que você andou aprontando o dia inteiro?

      – Eu não aprontei nada, não me comprometa… – Elise riu.

      – Mas o que você fez? Quero saber tudo! – Virgínia não controlou o riso.

      Elise manteve o sorriso. Meneou a cabeça, olhou para o irmão e brincou:

      – Digo ou não digo?

      Sentindo um ligeiro calafrio, Augusto respondeu à altura:

      – Você não tem que dar explicação alguma a ninguém… – e sorriu amarelo.

      - Augusto! – brincou Virgínia, fingindo indignação. – Do lado de quem você está? Eu fiquei preocupada o dia todo. Não concordo com você, não. Ao contrário, eu mereço que ela me dê uma satisfação!

      Augusto riu, armou a maior cara de cínico e disse, às duas:

      – Bom, neste caso eu também quero saber tudo

      Elise deu uma risada mansa, gostosa.

      – Bom, gente… eu estou me sentindo muito feliz, ao menos por hoje à noite…

      - Hum… – Virgínia olhou maliciosamente para Augusto. – Valeu a conta do motel…

      - Ah, Virgínia, qual é? – Elise soltou o riso mais ainda. – Não foi nada disso…

      - Está bem, mas espere um pouco. – Virgínia ergueu uma das mãos e olhou para Augusto. – Voltemos a você. – ela virou-se para Elise e disse: – Ele estava falando sobre a irmã de Ernesto.

      Elise nem sequer piscou.

      - Irmã de Ernesto? – disse, fingindo surpresa. – Quê irmã de Ernesto?

      - A única que eu acho que ele tem… – ironizou Augusto.

      - Também, passa o dia fora, quer o quê? – brincou Virgínia. – Ernesto tem uma irmã que é uma gracinha. Ela tem um filho, está separada do marido e… parece que foi fisgada…

      Agora, sim, os olhos de Elise voltaram-se para Augusto com um misto de surpresa e inquietação.

      – Ah, é…? – disse a ele, olhando-o incisivamente.

      – Virgínia está exagerando. – Augusto remexeu-se no sofá, meio sério, meio de brincadeira. – Ela apenas foi comigo ao supermercado, hoje de tarde.

      – Ah, é…? – repetiu Elise. – E estavam falando o quê, sobre ela, agora?

      - Eu ía dizer que uma pessoa na situação dela pode confundir as coisas, pensar que sente algo que na verdade não está sentindo…

      – E você, sentiu alguma coisa? – indagou Elise.


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