- Estou. – Helena sorriu. – Era o que eu queria que você entendesse sem eu ter que dizer. Quero este reencontro, mas ao mesmo tempo a idéia de que está tão próximo me apavora.
– Você devia ficar tranqüila. Segundo me parece, há um bocado de gente zelando pela sua integridade moral.
– É, vai nessa. Eu estou na minha pele, meu anjo.
– Vou me contradizer, agora, mas… sua irmã diz que ama você. Só isso já é o suficiente para acalmá-la.
Helena apenas balançou a cabeça.
– Quem me dera me acalmar…
– Bom, minha amiga… não vou segurá-la mais. Eu faço o que você me pediu, sim, e retiro as condições.
Helena abraçou sua nova amiga.
– Você é um amor, Mônica. – ergueu-se. – Pretende ver Augusto, hoje? Ou amanhã?
– Não sei. Talvez…
– Bem, espero que me conte. Você sabe, o edifício é aquele ali. Ap. 302. Apareça, por favor.
- Obrigada, Helena.
Mônica beijou-a.
– Você deveria esperar a volta de sua irmã, Marjorie.
– Eu não. Se ela saiu para andar pela praia, só Deus sabe a que horas ela vai voltar. Vai me encher com todas aquelas recomendações, e não estou a fim. Isso, para nem falar nos meus pais, que devem estar me esperando com uma cinta para me darem uma surra… – ela começou a rir.
– Ah, é mesmo. Você tem razão. Deve saber do que está falando. E já percebi que não vai mudar de idéia.
– Não vou, não. – Marjorie deu um beijo em Ernesto e entrou no carro. – Não se preocupe comigo. Diga a Virgínia que não voltarei sem novidades.
– Está bem, eu direi.
– Ok. Tchauzinho. Beijos.
- Tchau, beijos.
Ernesto a observou afastar-se e decidiu ficar na frente da casa olhando o movimento.
Não havia quase ninguém por ali, àquela hora. Passava um pouco das dez e o Sol já estava bem forte.
Na base de uma meia-hora, Ernesto ficou extasiado com a chegada daquela gata estonteante. De tanga, o corpo perfeito. Ele teve trabalho para reprimir um instinto natural básico. Não estava habituado com aquela Mônica.
– Olá. – disse ela, com seu sorriso naturalmente simpático.
– Oi, Mônica. Meus parabéns, você está linda, com esta roupa.
Ela deu uma risada, sentando-se ao lado dele.
– Com esta falta de roupa, você quer dizer, né? A praia estava deserta, de manhã cedo. Me senti como se fosse a dona.
– Com esta beleza toda, é um direito seu, sentir-se assim.
- Você acha, mesmo? Eu deveria ter colocado a camiseta de novo, mas… na verdade, se tenho essa beleza toda que você diz que tenho, não devo escondê-la. Um dia ficarei velha e ninguém mais vai querer me ver assim, tão à vontade…
Foi a vez de Ernesto rir. Mônica olhou para o lado da garagem e disse:
– Hum… Marjorie já foi…
– Já, faz quase uma hora. Disse que estava preocupada com os pais. Que eles provavelmente a estavam esperando de cinta na mão… Além disso, há uma coisa que ela tem que fazer para Virgínia.
Mônica olhou para ele sem esboçar qualquer reação. Mas, inadvertidamente, pensou em voz alta.
– É, a tal investigação…
– Exato. Mas espere, como é que você sabe disso?
Mônica mordeu o lábio inferior. Não poderia dizer a ele que conhecera Helena. Armou seu melhor sorriso amarelo e disse:
- Adivinhei.
– Como?
Ela refletiu por mais alguns segundos. Depois disse:
- Sabe de uma coisa, Ernesto? Ãhn… me parece a coisa mais difícil do mundo, guardar um segredo. Ninguém consegue. E olhe que somos adultos…
- Marjorie lhe contou, não foi?
- É. Isso. – ela ergueu-se rapidamente, disposta a não deixar que aquela conversa prosseguisse. – Acho que vou tomar um banho. Vi um monte de livros na sua estante. Vou mergulhar na leitura, até amanhã. Vi também o tabuleiro de xadrez. Você joga?
- Às vezes.
- Está convidado, então. Convidado, não. Desafiado.
- Hum… desafio, assim, eu não recuso.
- E Miranda?
- Não sei. – ele também levantou-se. – Estou aqui, assim, bem descansado, mas a verdade é que deveria estar tratando do nosso almoço.
- Hum… você, hein? Uma surpresa a cada instante…
- Ah, também não é assim. – Ernesto sorriu. – Eu moro sozinho. Tenho que me virar, todos os dias.
- Bom… Posso ir para o chuveiro tranqüila, então?
- Pode, sem problemas.
- Então está ótimo.
Porto Alegre