- Sua preocupação com Miranda o fez mudar de idéia…
Ele se sentou.
– Pior é que eu nem sei por quê. Não sou guarda-costas de ninguém…
– Bom… você ainda não precisa ir à festa. Ou pode ir de uma vez, antes que volte a desistir. Eu estou com as chaves da casa de Ernesto. Posso ir sozinha para lá.
– Sozinha? Está brincando.
– Não estou, não. Ainda está claro, deve ter muita gente na rua. E eu sou uma cidadã do mundo. Andar por estas ruas é uma bênção.
– Você e eu somos iguais neste ponto, pelo jeito. – ele sorriu. – Foi isso que eu quis dizer sobre sua irmã, ontem. Acho que falta isso a ela.
– Bem, somos gêmeas, mas Marjorie é alguma coisa diferente de mim. E eu dela. Não tenho a coragem que ela tem. Quase morreu, dois dias atrás, e parece que não aprendeu nada.
– Impressão sua. Eu diria que ela aprendeu que tem que se cuidar mais, e vai usar isso em sua profissão.
– É, talvez você tenha razão. Mas eu não teria coragem de continuar.
– Certo. Mas talvez você tenha um tipo de coragem diferente da dela.
– Hum… você diz isso porque tentei ajudar a defender Miranda, hoje?
– Não. Outro tipo de coragem. Marjorie disse que você provavelmente chegaria a este lugar pedindo carona na estrada.
Mônica deu uma risada.
– Pois é, ela não se enganou. Pelo menos, da entrada de Osório para cá. Eu… faço, mesmo, coisas que outras pessoas não fariam.
– Do mesmo jeito que sua irmã. Vocês duas são muito parecidas.
– Minha mãe costuma dizer que não sabemos viver uma sem os riscos da outra. Mas os meus não são de ir ao extremo do risco de morte. O que Marjorie fez foi um exagero.
– Engraçado ouvir você falar que gosta de assumir riscos. Afinal, você é uma professora, e tem um jeito, assim, de gente sensata.
– E teria que parecer insensata, para assumir riscos?
– É… presumo que não.
Ele se levantou.
– Vou botar uma roupa. Que tal beliscarmos alguma coisa? Eu estou com fome. Batemos um papo, enquanto isso.
– Você decide. – Mônica sorriu. – Eu topo qualquer parada.
– Não está, mesmo, a fim de ir à festa, né?
– Não. No momento, estou escolhendo descobrir que tipo de experiência poderá ser passar algum tempo com você.
– E eu vou saber o resultado?
– Isso você sabe muito melhor do que eu saberei. Ou não está habituado a passar, assim, algum tempo com um uma garota? Nisso eu não acredito. Apesar de você ter concordado muito depressa com a desistência de Miranda.
– Achou isso? – ele voltou a sentar-se, mais próximo dela.
– Bobagem, talvez. Num primeiro momento, tive a impressão de que você ficou seriamente preocupado com ela. Depois, você simplesmente aceitou a decisão dela de não sair mais com você. Isso de certo modo me confundiu.
– Bom, mas o que eu podia fazer? Você estava lá, eu posso apenas imaginar o que ela passou…
– É, não foi brincadeira.
– Achei natural ela não querer se expor, assim, andando pela praia. Você pensou que nosso acerto tinha alguma segunda intenção?
– Não… não sei. Vocês saíram juntos, ontem, ela é bonita, você é bonito, sei lá…
Augusto riu, sacudindo os ombros.
– Eu apenas precisava esclarecer umas coisas com ela. Algo com relação a uma pessoa que ela viu, ontem.
– Eu sei, Helena.
O olhar de Augusto, além de surpresa, deixou transparecer uma grande contrariedade. Mônica o percebeu e disse:
– Ei, não pense mal de Miranda, ela não falou nada. Eu conheci Helena na praia, hoje de manhã bem cedo.
– Conheceu Helena?!
– Sim. Saí bem cedinho, seis horas, para caminhar na praia. Ela também tinha saído cedo, nos encontramos por acaso. Começamos a conversar, e aí você pode imaginar o restante das coincidências.
Augusto ficou em silêncio, pensativo, olhando para ela.
– Bem, e a que conclusões chegou? – indagou, depois.
– Várias conclusões. Uma delas, é que sua prima Helena é uma mulher maravilhosa. Aqui, agora, posso até dizer que comecei a amar a pessoa dela. Uma outra conclusão, é que você e sua família, seus pais e sua irmã, são pessoas maravilhosas. Você é maravilhoso. E pelo menos uma coisa me balançou: o fato de ela ser casada, e muito bem casada, segundo me pareceu.
– Bem casada em que sentido?
– Mais uma vez, você sabe melhor do que eu. Bem casada no sentido de que ela continua livre. Veja bem, ela estava na praia, vestindo biquini! Sozinha, com aquele corpo todo certinho. Ela casou, mas continua livre. Eu suponho que Roberto seja uma pessoa muito aberta, consciente da individualidade de Helena. E ambos conservam seu amor, apenas sendo o que são, como são. Achei lindo, e de certa forma inacreditável.
- Sobre isso, temos, então, dois exemplos bem distintos. Dois extremos. Helena e Roberto, Miranda e Márcio.
- Eu diria três exemplos. Aurélio e Gisela. Esses, então, não dá para crer. Ou até dá, até demais.
- O que aconteceu com Miranda deveria reforçar minha convicção de que é melhor não se envolver demais com alguém.
- Conhecer Helena balançou a minha. Mas por que o que houve com Miranda não reforçou a sua convicção?
- Não sei. Sinto estar mais forte a certeza de que devo continuar como sou.
- Helena falou que vocês são um pouco parecidos.
- É… acho que sou. Elise também.
- E como você é? Como se auto define?
Augusto sorriu. Pensou um pouco e acabou dizendo:
- Sabe que não sei? Não sou de jeito nenhum. Sou o momento presente. Não sei como me definir com palavras. Sou um conjunto de atos e pensamentos. Pensamentos em constante mutação.
- Mas você tem ao menos uma convicção, não tem? Nunca se envolver demais com alguém… ?
– É, até pode ser. Mas, como lhe disse, nunca é muito tempo. Posso querer não me envolver, mas então, no momento seguinte, pode acontecer. Às vezes tento fugir, outras vezes não.
- Hum… Imagino que alguém o tenha feito sofrer muito, para que pense assim…
Porto Alegre