RSS
  Porto Alegre
Siga @Aliadopoars

Cap. 35 – Pt. 3

     - Para mim, você foi uma vítima. Você era uma criança e não tinha culpa alguma. Você tinha uma natureza boa, a mesma que tem hoje. Tem filhos que eu já vi que a adoram. Até me envaideço um pouco em saber o quanto estava certa nas coisas que pensei. Mas meu irmão se recusa a pensar como adulto, quando se trata de você. Eu amo vocês dois, mas sou intolerante para com a intolerância.

      – Incrível ouvir isso tudo de você. – Helena mostrou-se entristecida. – O que me deixa curiosa para saber o que foi que a levou a pensar a meu respeito.

      Virgínia afastou os olhos para o horizonte, balançando a cabeça.

      – Isso eu nem sei direito. – tornou a olhar para a irmã. – Pode ter sido depois de alguma conversa com alguém… Eu não sei. Mas quando a idéia tomou corpo, deixei que amadurecesse, e não quis mais parar de pensar.

      – Não tentou afastar os pensamentos…?

      – Não. Não me pergunte, eu não sei. Comecei a lembrar daquele tempo, comecei a ver à minha frente todos aqueles momentos e, de repente, descobri que muitas vezes vi você tremer de medo. Me lembro de uma das vezes em que você levou uma surra, bem na nossa frente. Como podia ser naturalmente ruim, se também passava por tudo aquilo? Compreendi que o que fazia, você o fazia por medo.

      Helena ficou em silêncio, refletindo.

      – Lembrando tudo aquilo, parece até que não foi comigo, mas acho que houve momentos em que cheguei, mesmo, a ser ruim. 

      – Eu não duvido. Mas concorde que não foi voluntário. E não tente me fazer acreditar que o foi.

      – Eu não vou fazer isso. – Helena sorriu. – Sei que não foi voluntário, mas não quero deixar de assumir a culpa pelas coisas que fiz.

      – Mas não era você

      – Agora que você está aqui… aquilo tudo perdeu o sentido.

      – Um sentido que na verdade nunca existiu, mesmo. Foram doze anos de distância. Mesmo que apenas de um tempo para cá eu estivesse sentindo falta de você, muito tempo tem que ser recuperado. Roberto vai me detestar, mas não quero sair de perto de você. Vou levá-la comigo, no bolso.

      Helena continuou sorrindo, por instantes.

      - Ele tem tanta coisa para compreender que não sei como consegue. – falou. – Sinto que o amo cada vez mais. Às vezes ele passa por maus bocados em sua profissão. Ele me conta algumas coisas, assim, de maneira descompromissada. O jargão judiciário me encanta…

      – Mas e com relação a você, como ele reage? O que ele pensa sobre o que aconteceu, e o que você queria fazer?

      - Bom, ele sempre soube que um dia eu precisaria deste reencontro. Ele quer que eu seja feliz, antes de qualquer outra coisa.

      - Ele tem jeito de ser um cara legal…

      - Você vai adorá-lo, quando o conhecer mais.

      - E você, pediatra! Eu… admito que não esperava ver você tão… atraente, como pessoa. E ao mesmo tempo me sinto muito… feliz, com isso.

      - Eu… compreendo. E agora, tudo se foi. Estou satisfeitíssima, mesmo que não consiga o mesmo de Geraldo.

      – Mas vai conseguir. Nós vamos conseguir. Basta que ele a veja. No meu entender, agora que tudo está esclarecido entre nós, você não precisa evitar aparecer na casa de tia Gisela. Agora, mais do que nunca, você tem que estar lá, com toda a sua família. De mais a mais, o tamanho de Roberto há de fazer algum efeito sobre ele, não acha?

      - Intimidar o meu irmão? – Helena tornou a rir. – Roberto não é pugilista.

      - Não foi isso que eu disse. – Virgínia também riu. – Só acho que Geraldo não vai ter coragem de engrossar com você, pelo menos fisicamente. Com palavras a gente pode dar um jeito. 

      Helena ponderou a idéia da irmã, por instantes.

      - É, eu acho que você está certa.

      Virgínia comemorou a concordância de Helena.


Your Comment






  Porto Alegre
Siga @Aliadopoars