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Renascendo – Cap. 36 Pt. 1

      Miranda tinha andado vagarosamente pela praia.

      Molhara os pés, bebera água mineral e pensara na vida. Em seus pensamentos, Luciano.

      Havia muita gente à beira do mar, e ela se sentia muito segura e confiante.

      Pensou em Augusto e Mônica e de repente pareceu-lhe fácil aceitar o fato de que pudesse estar havendo alguma coisa entre os dois. Na verdade, ao dar a entender a Mônica que pudesse estar sentindo alguma coisa por ele, poderia tê-los colocado numa situação constrangedora. Se fora esse o caso, tinha que se desculpar com ambos.

      Estava próxima de casa quando teve sua atenção despertada para um grupo de meninos que jogavam futebol num terreno baldio. Eram cinco meninos pequenos, com média de idade não superior a nove, dez anos. Miranda parou, olhando-os jogarem.

      Depois de algum tempo, resolveu intervir. Para seu gosto, aquela situação de dois contra três era um negócio injusto.

      Aproveitou um momento em que a bola rolou até perto dela, para dizer:

      – Ei, meninos, posso jogar com vocês?

      Eles pararam, olhando-a com desconfiança.

      – Eu juro que sei jogar. – continuou ela. – Eu jogava, quando era pequena.

      – Conhece as regras? – perguntou um dos meninos que estavam em inferioridade, visivelmente interessado.

      – Vocês estão jogando sem impedimento, que eu sei.

      – ‘Tá bom, deixa ela jogar. – disseram os outros meninos, já impacientes.

      E então a brincadeira recomeçou.

      Miranda divertiu-se muito. Deu chutões desesperados à frente, caiu, rolou na terra, fez um ou dois gols, fez amizade com os garotos, até que apareceu mais um menino, trazendo consigo um apito, com o quê entrou em cena a “juíza” Miranda.

                            *                    *                   *

      Augusto deixou Mônica na casa de Ernesto e Miranda, onde ficou sabendo que esta última ainda não tinha chegado.

      Como Ernesto não estivesse, ele e Mônica não alertaram às outras pessoas para o fato de Miranda ter decidido voltar para casa caminhando sozinha pela praia.

      Com a ajuda de Mônica, Augusto se certificou de que o ex-marido de Miranda não estava na redondeza e resolveu sair ele mesmo pela praia, para tentar encontrá-la.

      Já estava mais conformado com a idéia de que Mônica não queria se envolver.

      Pela primeira vez em sua vida experimentava a sensação de estar do outro lado. Mônica queria vê-lo apenas como um amigo e não fazia, aparentemente, muita questão de tê-lo por perto. Mesmo sendo atenciosa e delicada com ele, estava deixando bem clara a sua posição, exatamente como ele fizera, algumas vezes, com outras pessoas. Claro que, sabendo exatamente como ela deveria estar se sentindo, não a sujeitaria a maiores constrangimentos, insistindo para que reconsiderasse. Simplesmente, aceitava a decisão dela.

      Desta vez, o bloqueio estava funcionando contra ele. Mas ao mesmo tempo era diferente. Era como uma sensação que ele deixara que surgisse, quando se sentia prestes a envolver-se emocionalmente com alguém. Geralmente se manifestava na forma de uma série de defeitos que encontrava na outra pessoa.

      No caso de Mônica, ele sequer podia dizer que ela não era boa de cama. Ao contrário, ela fizera tudo que ele gostaria que fizesse, sem que ele precisasse dar dica nenhuma, espontaneamente, e muito bem feito. Era bonita, sensual, tinha um corpo perfeito, era morena clara, como ele gostava, tinha uma boa cabeça. Mas ele não esperava que fosse tão convicta na idéia de não se envolver.

      Todos aqueles pensamentos atravessavam sua mente, distraindo-o tanto que quase lhe escapou o movimento do outro lado da rua. Sem saber como nem porquê, teve a atenção alertada para o que jamais pensaria que veria, um dia: Miranda estava jogando futebol com alguns garotos. Reconheceu-a pelos cabelos e pela roupa.

      – Está brincando comigo. – murmurou, atravessando uma das pistas da avenida à beira-mar.

      Divertiu-se muito com as quedas de Miranda, com os gols dela, com sua arbitragem por vezes desastrada, enfim, achou-a encantadora no meio daquelas crianças. Pensou na sorte que Luciano teria se ela conservasse aquele pique, quando ele estivesse do tamanho daqueles garotos.

      Já havia juntado bastante gente, pessoas de todas as idades, que passavam, paravam, riam, íam embora, e Miranda evidentemente estava se divertindo muito, aparentando não dar importância ao que os outros pudessem estar pensando.

      Quando a brincadeira terminou, Miranda ainda conseguiu arrancar beijos dos seis garotos. Estava com um joelho sangrando, por dentro da calça, tinha uma mão esfolada, e mancava um pouco, pois tinha torcido um pé.

      Algumas pessoas que ainda estavam ali ficaram olhando para ela, e Augusto achou que agora era a sua vez. Saindo de onde estava, aproximou-se e chamou-a.

      Ao ouvir seu nome, Miranda virou-se, parando. Seu coração disparou quando ela viu quem era, mas conseguiu controlar a emoção. Sorriu, apenas, limitando-se a ficar onde estava.

      Augusto atravessou a pista e chegou mais perto.

      – Fiquei olhando você com as crianças.

      - É mesmo? – ela continuou sorrindo, ofegante. – Claro que eu sabia que estava fora de forma, mas… é impressionante… – deu uma risada.

      – Achei que você se deu bem.

      – Para quem teve que provar que conhecia regras… – ela balançou a cabeça. – Mas pelo menos brinquei bastante. Fazia tempo que não me metia numa boa farra.

      – E pelo jeito saiu meio machucada.

      Miranda olhou para as próprias pernas, as próprias mãos e disse:

      - Com mais algumas rodadas eu aprendo a cair.

      E tornou a rir.

      - O pessoal está preocupado, em sua casa. Então eu saí a pé pela praia, para ver se a encontrava…

      – Vai me acompanhar de volta?

      - Com certeza.

      - Mesmo assim como estou? Horrorosa, toda suja, ensangüentada, desgrenhada? Suada…

      - Mesmo assim. É a sua presença que conta.

      - Hum… – ela balançou a cabeça de novo. – Então ‘tá, se é assim…

      Atravessaram a rua e tomaram a direção da casa da jovem.

                             *                    *                 *

      Ernesto chegou de volta do ambulatório do HPS com Geraldo sentindo-se ligeiramente aborrecido. Em sua opinião, para alguém que trabalhava com o público, o irmão de Virgínia tinha uma personalidade muito, muito difícil. Por outro lado, concedia-lhe o desconto de que nenhum dos seus clientes provavelmente tentava dar palpites em sua vida particular.

      Mas Ernesto estava tendo uma péssima experiência com Geraldo. Ele falava pouco, ou falava muito sobre banalidades, o que tornava incompreensível para Ernesto que Virgínia conseguisse conviver diariamente com ele, especialmente depois que ela decidira tentar reencontrar Helena.


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