O médico tinha liberado Geraldo do enfaixamento no peito. Quando ele e Ernesto chegaram de volta do ambulatório, Marjorie estava à espera, e ele foi tomar um banho, para que depois saíssem para jantar.
Ernesto ficou a sós com ela na cozinha. Gisela, Aurélio, Elise e Marcelo estavam na churrasqueira.
– Você já chegou a falar com Virgínia? – indagou ele à jovem.
– Não. Ela saiu com Miranda, foi o que me disseram…
– Sim. Foram fazer umas compras…
– Eu passei na sua casa, mas elas já tinham saído. Tinha um monte de pessoas que eu não conhecia…
– É o pessoal que veio para ajudar a gente.
– Me confundiram com Mônica, foi uma zoeira. – ela riu. – Mas não houve maiores problemas. Geralmente me dou bem com as pessoas.
– Não vai ser assim com Geraldo, se você o forçar a falar sobre Helena.
Marjorie ficou um pouco em silêncio. Depois, falou:
– Por que acha que vou tentar forçá-lo a falar sobre isso?
– Não sei. Para tentar ajudar Virgínia. Ele ameaça com uma chantagem sentimental, toda vez que escuta ela falar sobre a irmã…
– Eu falei com os pais deles. Não podem nem escutar o nome daquela filha. Acham que ela os traiu.
– É o mesmo que Geraldo pensa.
– Bobagem…
– Não vai ser fácil convencê-lo disso.
Marjorie tornou a silenciar por segundos.
– Vou dizer uma coisa que acho que você não vai gostar, Ernesto.
Ele ficou olhando para ela com atenção, à espera.
– Eu… tenho um compromisso com Virgínia. Descobri o que ela queria saber sobre a irmã. Vou comunicar-lhe o que descobri. Mas não pretendo discutir o assunto com Geraldo. Isso é um problema pessoal dele. Não tenho que me meter. Quando o vi, na primeira vez, senti vontade de conhecê-lo melhor. Talvez por ter percebido que havia algum problema com ele. Mas me conformo com o fato de ter que conviver com isso. Não quero afastá-lo de mim. Vou sair com ele, conversaremos, e então vou saber o que ele pensa sobre amor, namoro, essas coisas. Se me servir, não importa que ele não queira ver à irmã.
Ernesto ficou em silêncio, lutando intimamente para não fazer julgamentos sobre o que ela lhe dissera.
* * *
– Eu aproveitei a caminhada para ir colocando os pensamentos em ordem. Decidi passar uma borracha sobre o que me aconteceu nos últimos meses, em termos de estagnação como ser humano.
Augusto ficou à espera de que ela continuasse.
– Sei que nunca mais voltarei a ser a pessoa que era antes de me casar. Mas não há motivo para que eu me distancie demais daquele modelo.
– Até porque o modelo é você mesma.
– Hum… exatamente. – ela o olhou com uma expressão de admiração. – Você captou bem o que eu queria dizer.
– Posso dizer mais uma coisinha?
– Claro, né?
– Bom… eu diria o seguinte, o que aquele cara, lá, o seu ex-marido, quis fazer com você, foi algo que você não escolheu. Não é razoável mudar, apenas porque esteve casada com alguém.
– Hum, hum, concordo. A pessoa que eu era antes de casar ainda está dentro de mim, ou pelo menos uma parte dela. E esta pessoa nunca teve a preocupação de ser outra coisa que não ela mesma, o tempo todo.
– Bom… se ela mesma se parece com o que vi, ainda há pouco, espero que nunca mais aconteça de correr o risco de mudar.
Miranda riu.
– Mas não pretendo jogar futebol com cada grupo de garotos que encontrar pela rua. Pelo menos enquanto estiver fora de forma…
– Imagino que não, mesmo. – Augusto também riu.
Houve um segundo de silêncio.
– Miranda, eu quero lhe pedir desculpas. Fui meio ríspido com você e Helena me puxou as orelhas. As meninas adoraram o seu gesto.
– Acho que roubei o seu brilho naquele momento, não foi?
Mais um instante de silêncio antes que ele dissesse:
- Todo mundo pensa isso, mas a coisa não funciona assim. A vida pode ser um palco para muitas pessoas, mas não para mim.
Miranda sorriu. Duvidou até à morte daquela última frase dele.
– Engraçado você dizer isso. – falou ela. – Eu tenho a impressão de que você passa o tempo todo representando.
Augusto olhou para ela com uma expressão de contrariedade.
– Estou com a impressão de que você está tentando me provocar, de alguma maneira. Está, mesmo? Por quê?
– Não estou tentando provocá-lo, Augusto. Estou apenas emitindo a minha opinião. Se estiver errada, podemos conversar, podemos acabar conhecendo melhor um ao outro.
– Por que acha que estou sempre representando?
– Pelas coisas que vejo em você. Não sou psicóloga. Mas acho que você apenas finge não querer envolver-se com ninguém. No fundo, me parece que é apenas um pretexto para esconder sua busca eterna.
- “A mulher ideal”? – ironizou ele.
- Pior que isso, a mulher “perfeita”. Alguém que seja bonita, gostosa e que tenha um tipo de cabeça que se afine com a sua. Claro, no meio dessa procura, se tiver oportunidade de transar com as “imperfeitas” que encontra, melhor para você…
Augusto sorriu, pensativo, e disse:
- Fico imaginando como seria se fosse psicóloga.
Miranda riu.
- Acho que até já mudei de assunto… Me diga, então, Augusto, por que ficou tão zangado com o que eu fiz, hoje?
- Eu… não sei. Bobagem, eu acho. Temia que, por algum motivo, Virgínia estivesse nos enganando.
- Você não conhece sua prima, então. O que ela lucraria com isso?
- Não sei; nunca se sabe. As pessoas às vezes fazem coisas que a gente julga que jamais seriam capazes de fazer. Dizer a verdade é uma virtude, mas mentir é comum a todas as pessoas.
- Hum… até aí concordo com você. Mas torno a perguntar: que lucro tiraria Virgínia disso, de mentir para tentar reaproximar-se de Helena? Não me parece lógico.
- Além do mais, nós sempre achamos que colocar as duas frente a frente sem um aviso prévio seria um choque muito grande para as duas.
- Pois é. Eu não tinha como saber o que efetivamente aconteceria. Mas achava que a surpresa colocaria para fora os verdadeiros sentimentos de ambas.
- Você também duvidava de Virgínia?
Porto Alegre