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Cap. 37 – Pt. 2

      - Acho que o que me bloqueia é não ter espírito aventureiro, para deixar de lado a segurança do que faço, em favor de uma maior realização pessoal. Você não se realiza pessoalmente, fazendo o que faz, mesmo que tenha alta dose de aventura. Já imaginou se todos os grandes inventores não tivessem este espírito? Se tivessem desistido, quando suas primeiras experiências deram errado? Onde estaríamos, agora?

      Marjorie olhou para Geraldo com uma certa surpresa.

      – Sabe que eu nunca pensei nisso? – disse. – E também não imaginava que você pensasse sobre coisas assim…

      – Ah, é? – ele sorriu. – Sou meio chato, na maior parte do tempo, não sou?

      – A verdade? – ela começou a rir. – É, sim. Chato, turrão e só fala de coisas superficiais. Quer dizer que faz isso de propósito?

      – Bom…

      – Ernesto voltou meio contrariado com você, da ida ao médico.

      Geraldo também começou a rir.

      – Ele começou a falar sobre minha outra irmã, e eu lhe dei um gelo.

      – Por que este assunto o incomoda tanto, Geraldo? Eu compreendo que ela causou um bocado de estrago em sua vida. Mas eu soube que a vida dela também não era fácil, naquela época. Saiu da escola para cuidar de vocês. Era uma criança. Antes de dizer qualquer coisa, reconheça pelo menos o seguinte fato: depois que ela fugiu de casa e contou tudo para Gisela, a sua vida melhorou. Foi ou não foi?

      Geraldo concordou.

      – Então, meu querido… Ela também não queria mais sofrer. E não se esqueceu dos irmãos, ela fez com que vocês também ficassem bem.

      – Ela sumiu. Nos abandonou.

      – É só este o seu ressentimento? Isso significa que você a ama e sente falta dela.

      Geraldo ficou em silêncio, por instantes. Sem saber por quê, Marjorie não se surpreendeu ao ver lágrimas chegarem ao olhos dele.

      – Não precisamos falar disso, se não quiser. – ela colocou uma das mãos sobre uma das mãos dele. – Eu não estou aqui para falar disso. Estou aqui porque gosto de você. Ninguém me pediu para convencê-lo a querer ver Helena, e eu disse a Ernesto que isso era um problema que não me interessava.

      – Mas mudou de idéia, pelo jeito.

      – Talvez. Por sua causa.

      – Ah, é? Que foi que eu falei de diferente…?

      – Você reagiu de maneira diferente. O assunto aflorou na conversa e você não emburrou. Aliás, você tocou no assunto.
 
      Ele ficou olhando para ela, enquanto pensava. Era verdade, tinha reagido de forma diferente. Por quê? Boa pergunta.

      – Bom… – murmurou. – Eu… tem certas coisas, Marjorie, que são… difíceis para mim. Sempre penso em Helena como uma grande fazedora de maldades.

      – Ela tem dois filhos pequenos.

      Geraldo ficou ainda mais surpreso.

      – Como sabe?

      – Sou uma detetive.

      – Virgínia tem algo a ver com isso?

      – Tem tudo. Mas isso não tem nada a ver com você ter reagido de forma diferente. O fato de amar sua outra irmã e sentir falta dela parece assustar você…

      Ele balançou a cabeça.

      – Talvez. – admitiu.

      – Mas agora você não se esquivou de falar sobre ela. Por quê?

      – Não sei. Ou talvez até saiba…

      – Me diga.

      – Vou tentar… Eu… fui criado com meus primos, por Aurélio e Gisela. Virgínia e eu recebemos… amor, carinho, compreensão… tudo que nos faltou, antes. Mas… eueu não sei, ainda, expressar meus sentimentos. Com palavras, ou gestos. Ajo com uma certa rebeldia, em determinadas situações. Por exemplo, você. Gosto de você. Claro, você é tão linda quanto sua irmã. Não sei direito por que reagi de maneira diferente, mas, acredite, tem a ver com você. – ele parou de falar, ficando a olhar para ela com ar de desculpa.

      – Tudo bem, Geraldo. – ela acariciou a mão dele. – Vamos continuar, então. Você quer?

      – Se você estiver disposta…

      - Eu não importa. Você, sim, porque este é um assunto delicado para você. Estou disposta a estar ao seu lado, seja qual for o assunto.

      – ‘Tá bom. Me diga, então: você a viu? Viu os filhos dela?

      – Não. Só peguei informações. Estive com seus pais, Geraldo. Eles detestam Helena, não podem sequer ouvir falar no nome dela. Sabe por quê? Porque ela acabou com tudo. Ela nunca mais os procurou. Não quiseram me dar qualquer informação sobre ela.

      – E como soube que ela tem dois filhos?

      – Soube porque sou boa no que faço. Meu trabalho, muitas vezes, é descobrir coisas que as pessoas tentam esconder. Me especializei em pessoas desaparecidas. Não estou autorizada a falar sobre Helena, mas vou falar, mesmo assim. Eu descobri que ela está aqui mesmo, nesta praia. Descobri isso antes mesmo de obter a confirmação de seus tios.

      – Todos eles sabem disso? – Geraldo ficou perplexo.

      – Ela está querendo reencontrar-se com vocês. Na verdade, Elise disse que Virgínia até já poderia estar encontrando-se hoje com Helena. Disse isso em tom de brincadeira, para mostrar que o mundo é pequeno, mas nunca se sabe.

      Geraldo estava emocionado. Não sabia o que pensar. Não sabia como agir.

      - Vai ser difícil fingir que não sei de todas essas coisas.

      - Bom, não creio que seja preciso fingir muito. Pelo pouco que sei, Ernesto, Miranda e provavelmente Mônica também sabem disso. Augusto, então, já deve ter estado com ela várias vezes.

      Geraldo deu uma risada.

      - Tudo para escondê-la de mim?

      - Sua reação sempre foi contra ela, reconheça.

      - Eu sei disso. Tem razão.

      Marjorie fez uma pequena pausa. Baixou os olhos, concentrando-se no sorvete que tinha à sua frente.

      - Ei. – Geraldo levou a mão ao queixo dela, fazendo-a olhar para ele. – O que houve?

      - Nada. – ela sorriu levemente. – Apenas me dei o prazer de sentir o sorvete, sem mais nada.

      - Ah, não… – ele balançou a cabeça, sem acreditar nela. – Você ficou meio triste.

      Ela ficou em silêncio, por instantes. Por fim, disse:

      - Você não pensa em tornar a vê-la?

      Geraldo refletiu, por segundos.

      - Isso tem algo a ver conosco?

      - De jeito nenhum. Como eu disse, se você não quiser vê-la, isso não é problema meu. Foi apenas uma pergunta.


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