Geraldo olhou para ela, seus ombros, seus braços, seu rosto. Não havia dúvida alguma de que o tipo de beleza de Marjorie era o de uma beleza contida, com traços comuns, no rosto de queixo largo e lábios finos. Ela era diferente de Mônica, mesmo sendo gêmeas. Um pouco mais magra, Marjorie dava, também, a impressão de ser mais delicada.
– Ainda não sei se quero ver Helena de novo, mesmo depois do que você me disse. Mas tendo em vista todas essas coisas, de agora em diante não há mais por que eu me indispor com as pessoas que tocarem no nome dela. Até você eu acho que está morrendo de vontade de conhecê-la.
– E estou, mesmo. O pouco que sei dessa mulher me induz a pensar o melhor sobre ela. Tudo indica que é alguém que vale muito a pena conhecer.
– Certo. Eu… vou com você, então.
– Geraldo…
– O quê?
– Eu não vou gostar menos de você, se não quiser fazer isso. Não faça nada que não queira, apenas para me impressionar.
– Acha que é isso?
– Melhor se não for.
– Talvez seja, em parte. Mas um monte de pessoas está falando bem dela. Meus tios, meus primos, agora você… Não posso nadar contra essa corrente, não sou suicida. Eu até concordo que deva ser marcado um encontro com alguma antecedência, para que eu e ela possamos nos preparar. Não há por que evitar até à morte esse encontro. Mesmo que a gente se dê bem a uma certa distância, é melhor do que ignorar que ela existe, não é?
– Se é uma coisa que você sente, de coração…
– Quero tentar. Me ajuda?
– Claro. – ela tomou a mão dele e beijou-a.
– Legal.
Ela tinha terminado seu sorvete e eles saíram.
– De quanto tempo serão suas férias, Geraldo?
– Trinta dias. Até o final do mês, fico aqui.
– Eu não sei por quanto tempo poderei ficar. Não tirei férias. Estou, de certa forma, fugindo de uma situação difícil.
– De certa forma? – ironizou ele.
– Estou sendo otimista. – ela riu.
– Já falou com Ernesto sobre isso?
– Não. Mas quando saí daqui fui com um convite dele e de Miranda, para que voltasse. Agora eles estão com a casa cheia de pessoas. Eu, Mônica… sequer somos da família. Mônica ainda está de férias, pode dar algum dinheiro para as despesas…
– Está brincando, não é? Eles são ricos, Marjorie.
– Pronto, lá vem o seu lado materialista, outra vez.
– Não. Não, mesmo. Quero apenas dizer que, se as convidaram para ficar lá, não estão se importando com o gasto extra que isso pode gerar. Além disso, para facilitar as vidas de todos, trouxeram empregados… Tenha dó, não é, querida?
– Bem. Mesmo assim, vou falar com eles sobre minha situação.
- Eu concordo. E qualquer coisa, fale comigo, eu banco a sua parte.
– Ah, ‘tá legal. – falou ela, ironicamente, e enroscando-se no braço dele.
Fora da sorveteria, Geraldo parou de andar. Marjorie ficou a olhar para ele, os olhos castanhos com jeito manso, sereno.
- Gosto de você, Marjorie.
- Ah, é? Gosta quanto?
- O suficiente para não querer que vá embora.
Ela sorriu.
- Acho que, para começar, assim está bom.
- Isso pode aumentar, você sabe.
- Estou contando com isso. – ela riu.
– Mas não vá se arrepender, hein?
– Acho que não. Mas vai depender de nós dois… E vamos que você se arrependa? – ela continuou rindo.
Segundos depois, aconteceu o primeiro beijo.
Porto Alegre