Sim, ela percebia. Com intervalo de alguns dias, apenas, era a segunda vez que ele se envolvia numa briga, não tanto para defendê-la, como na vez anterior, mas em duas ocasiões a tinha visto com alguma segurança empunhando uma arma, e certamente não era o que ele esperava de uma namorada.
– Eu entendo que este é seu trabalho…
– Espere… – ela passou a mão nos cabelos dele. – Calma… olha… eu não preciso andar armada. Acho que exagerei, mesmo… na verdade, tenho que lhe pedir que me perdoe, pois arrisquei a sua vida…
– Você tentou evitar que alguém fosse assassinado… Mesmo assim…
– Eu sei… – Marjorie baixou a cabeça por alguns instantes, antes de prosseguir. – Eu não sei… o que eu não sei, agora, é de como vai ser a minha vida daqui para a frente. Você vai achar bobagem, mas há algo em você… sinto que por você eu faria qualquer coisa, Geraldo.
– ‘Tá, Marjorie, mas eu não quero modificar você…
– Mas eu posso ser diferente. E não é só por você. É por mim. Por Mônica… ela não está me dizendo nada, agora, mas eu a conheço, ela está enlouquecida para contar aos meus pais o que aconteceu…
– Claro, né? Ela teme por você…
– Eu sei. E acho que está na hora de eu começar a respeitar mais isso.
* * *
Ninguém estava mais enlouquecida naquela casa do que Virgínia. Embora estivesse preocupada com Miranda, sabia que, para sua amiga, o pior já havia passado, e cada segundo a punha mais e mais distante das complicações. Agora, estava preocupada com Helena, e não admitia que sua irmã fosse embora antes de falar com Geraldo.
Ela deixou o quarto em que Miranda estava com Ernesto, Mônica e Augusto e desceu as escadas rapidamente. Avistou Geraldo e Marjorie abraçados, sentados a um canto da sala, e saiu atrás da irmã.
Encontrou-a na cozinha, com Roberto e Daniel.
– Vocês não vão embora, não é? – falou, aproximando-se.
Helena a olhou com ar de desculpas, mas não teve tempo de falar.
– Onde estão as crianças? – continuou Virgínia.
– Lá nos fundos, dormindo. – respondeu a irmã. – Já passa da uma e meia da manhã, Virgínia.
– E daí? – Virgínia sentou-se com eles, à mesa. – Eles estão dormindo, mesmo, quando acordarem a agitação da noite já terá ficado muito para trás.
– E nós também queremos ir. – argumentou Helena.
Os olhos de Virgínia dirigiram-se para Roberto, com ar de súplica.
– Não a deixe fugir. – pediu.
– Não sou eu quem decide isso. – Roberto recostou-se na cadeira.
- Mas…
– Virgínia… – Daniel interveio. – Desculpe, é um assunto de família, eu sei… mas me parece que com tudo que aconteceu, os ânimos podem ainda estar exaltados…
– Eu não estou com medo de Geraldo, se é o que está pensando. – falou Helena. – Só quero ir para casa. Acomodar meus filhos. Ficar em silêncio, abraçada no meu marido.
– Todo mundo vai pensar que você fugiu. – argumentou Virgínia.
– Não estou preocupada com isso. Amanhã eu entro na casa de Aurélio e Gisela quando ele menos esperar e falo com ele.
– Duvido. – rebateu Virgínia.
– ‘Tá bom, e o que, exatamente, você espera que aconteça aqui, neste momento? Quer que eu vá lá falar com ele? Até aqui é que ele não vem. E aí?
– Vou até lá falar com ele… – ela saiu de onde estava.
– Não tem medo de arrumar uma outra confusão a esta hora?
– Vou falar com ele. Por favor, espere só mais um pouco, até eu voltar.
Helena apenas sacudiu os ombros e também se recostou na cadeira.
Virgínia puxou uma poltrona para perto de Geraldo e Marjorie, ficando bem próxima deles.
– Como vocês estão? – perguntou, baixinho.
Os dois a olharam, esboçaram sorrisos amarelos, e Marjorie disse:
– Acho que nos entendemos.
- Isso é bom. – foi a vez de Virgínia esboçar um sorriso. – Entendimento é algo que está fazendo falta ao mundo.
– E você? – indagou Marjorie.
– Preocupada.
– Como está Miranda?
– Ela ficará bem.
Houve uma pausa.
– E você, irmão?
Geraldo a olhou por instantes.
– Tem coisa demais acontecendo. – falou.
- Tem, mesmo. – admitiu Virgínia. – Mas tem mais para acontecer.
– Imagino que sim. Você conseguiu o que queria, afinal…
– Miranda o conseguiu para nós…
– Até Marjorie já veio sabendo que ela estava nesta praia…
– Mesmo? – Virgínia surpreendeu-se.
Marjorie lhe contou o que havia descoberto na Capital. Depois, Virgínia contou-lhes o que tinha acontecido, desde o dia anterior.
- Estou convivendo com ela novamente há algumas horas, apenas, mas… bom, quem a conheceu antes não teve dúvidas de que ela é uma pessoa encantadora.
Geraldo ficou olhando para a irmã, um pouco.
- Você também acha isso?
- É o que estou sentindo, Geraldo. Ela tem filhos, são nossos sobrinhos, não lindos, e a adoram…
Ele ficou quieto por alguns instantes.
- Bom, eu não esperava tornar a vê-la tão cedo, tão depressa, Já tinha dito a Marjorie que não criaria caso por causa disso.
- Mas não se sente preparado…
- Eu… não sei. Sei que acho que não conseguirei abraçá-la e dizer que a amo…
- Mas não tem ninguém esperando que faça isso, Geraldo.
- Que tal ir até ali, dizer a ela que vocês podem conversar numa boa, numa outra hora? – sugeriu Marjorie.
- Pois é, isso já ajuda. – concordou Virgínia. – Ela quer ir embora, por causa das crianças, mas eu pedi que ficasse…
Geraldo sorriu, ainda com ar de desconforto.
- Acho que posso fazer isso. – disse.
- Maravilha! – Virginia ergueu-se de um salto.
Porto Alegre