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Precisão e Querência

QUERER é UMA COISA, PRECISAR é OUTRA

(a diferença pode ser tão tênue quanto a escolha proposital de cores aí em cima

Outro dia duas pessoas me disseram a mesma coisa, com base no que eu falo sobre como me sinto com relação a estar sozinho comigo mesmo.

Uma delas disse que eu não me sinto sozinho, o que não é bem verdade, mas até que ela foi branda na avaliação. Outra me disse que eu não preciso de ninguém, que eu me basto, o que também não é verdade. Eu preciso do meu mecânico, preciso de pessoas que recolham o lixo da cidade, preciso da minha ortodontista, preciso do pessoal que trabalha os supermercados, preciso do pessoal que trabalha no transporte público, preciso do pessoal que trabalha na manutenção da empresa de telefonia, preciso de muitas pessoas, incluindo políticos e Polícia.

É um exagero dizer que não preciso de ninguém.

Claro que não era a este tipo de precisão que as pessoas estavam se referindo. Elas se referiam a ter que ter alguém do meu lado para me sentir bem e feliz. Se for pensar sobre isso, realmente, eu gostaria de ter alguém, mas não preciso ter. Quem precisa, quando não tem, não é feliz, não se sente bem, e eu, na minha imperfeição humana, não sei cair em lamentação quando estou sozinho comigo mesmo. Não foi uma lição que aprendi, entre tantas outras que sempre tive dificuldade de assimilar.

Mas qual é a minha dificuldade real, quando se trata disso? Andei pensando a respeito e tive algum vislumbre sobre o que acontece. Começando sempre por mim: por ser do jeito que sou, de saber conversar, de saber me expressar com alguma clareza, de não deixar dúvida sobre como me movimento no mundo, sobre que pessoa sou, geralmente acabo chamando a atenção das pessoas.

Pessoas gostam de falar comigo, querem ter a minha presença, algumas querem sair do mundo virtual e passar para o real, e eu até sinto a mesma coisa com relação a algumas dessas pessoas. Mas verdade é que eu realmente me tornei exigente, e hoje em dia está cada vez mais fácil eu admitir isso. Antes eu dizia que não, mas agora já admito.

A questão, então, é eu verificar a que tipo de exigência me refiro. Passei um outro tanto tempo tentando identificar, e depois de muito pensar cheguei à conclusão de que, infelizmente, a exigência tem a ver com a palavraimpressionar. O que menos acontece é alguém me impressionar. E quando não fico impressionado, não me interesso tanto assim. Impressionar positivamente é difícil. Quando alguém me impressiona negativamente não chega a constituir surpresa, não é nada mais que o esperado. O pior é que não sei sequer definir o que seria preciso para a pessoa me impressionar positivamente. Negativamente basta a pessoa ser igual a todo mundo, aliás, o que me parece o mais comum.

É como andar em círculos, sem solução.

Uma amiga, leonina, como eu, me contou que leu uma coisa, uma vez, e que me pareceu exatamente o que sinto com relação a isso tudo. Segundo o que ela leu, nós, leoninos, conhecemos muito da natureza humana. E para nos apaixonarmos, precisamos ser surpreendidos. Como sabemos muito da natureza humana, quase ninguém consegue nos surpreender. É bem isso. E quando alguém nos surpreende negativamente, não chega a ser surpresa, porque já sabemos que isso vai acontecer.

Já um amigo com quem estive falando sobre o assunto resumiu tudo usando a palavra “mesmice”, que é o que parece ser o máximo que se pode esperar das pessoas. Por isso, um dia, quando meu sobrinho Pedro, 8 anos, veio me dizer que eu era um dos poucos adultos que ele conhecia que não bebiam álcool, não perdi a op0rtunidade de dizer que então ele podia ver que não era preciso ele beber álcool para as pessoas gostarem dele.


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