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Cap. 36 – Pt. 2

       O médico tinha liberado Geraldo do enfaixamento no peito. Quando ele e Ernesto chegaram de volta do ambulatório, Marjorie estava à espera, e ele foi tomar um banho, para que depois saíssem para jantar.

      Ernesto ficou a sós com ela na cozinha. Gisela, Aurélio, Elise e Marcelo estavam na churrasqueira.

      – Você já chegou a falar com Virgínia? – indagou ele à jovem.

      – Não. Ela saiu com Miranda, foi o que me disseram…

      – Sim. Foram fazer umas compras…

      – Eu passei na sua casa, mas elas já tinham saído. Tinha um monte de pessoas que eu não conhecia…

      – É o pessoal que veio para ajudar a gente.

     – Me confundiram com Mônica, foi uma zoeira. – ela riu. – Mas não houve maiores problemas. Geralmente me dou bem com as pessoas.

      – Não vai ser assim com Geraldo, se você o forçar a falar sobre Helena.

      Marjorie ficou um pouco em silêncio. Depois, falou:

      – Por que acha que vou tentar forçá-lo a falar sobre isso?

      – Não sei. Para tentar ajudar Virgínia. Ele ameaça com uma chantagem sentimental, toda vez que escuta ela falar sobre a irmã…

      – Eu falei com os pais deles. Não podem nem escutar o nome daquela filha. Acham que ela os traiu.

      – É o mesmo que Geraldo pensa.

      – Bobagem…

      – Não vai ser fácil convencê-lo disso.

      Marjorie tornou a silenciar por segundos.

      – Vou dizer uma coisa que acho que você não vai gostar, Ernesto.

      Ele ficou olhando para ela com atenção, à espera.

      – Eu… tenho um compromisso com Virgínia. Descobri o que ela queria saber sobre a irmã. Vou comunicar-lhe o que descobri. Mas não pretendo discutir o assunto com Geraldo. Isso é um problema pessoal dele. Não tenho que me meter. Quando o vi, na primeira vez, senti vontade de conhecê-lo melhor. Talvez por ter percebido que havia algum problema com ele. Mas me conformo com o fato de ter que conviver com isso. Não quero afastá-lo de mim. Vou sair com ele, conversaremos, e então vou saber o que ele pensa sobre amor, namoro, essas coisas. Se me servir, não importa que ele não queira ver à irmã.

      Ernesto ficou em silêncio, lutando intimamente para não fazer julgamentos sobre o que ela lhe dissera. 

                             *                  *                *

      – Eu aproveitei a caminhada para ir colocando os pensamentos em ordem. Decidi passar uma borracha sobre o que me aconteceu nos últimos meses, em termos de estagnação como ser humano.

      Augusto ficou à espera de que ela continuasse.

      – Sei que nunca mais voltarei a ser a pessoa que era antes de me casar. Mas não há motivo para que eu me distancie demais daquele modelo.

      – Até porque o modelo é você mesma.

      – Hum… exatamente. – ela o olhou com uma expressão de admiração. – Você captou bem o que eu queria dizer.

      – Posso dizer mais uma coisinha?

      – Claro, né?

      – Bom… eu diria o seguinte, o que aquele cara, lá, o seu ex-marido, quis fazer com você, foi algo que você não escolheu. Não é razoável mudar, apenas porque esteve casada com alguém.

      – Hum, hum, concordo. A pessoa que eu era antes de casar ainda está dentro de mim, ou pelo menos uma parte dela. E esta pessoa nunca teve a preocupação de ser outra coisa que não ela mesma, o tempo todo.

      – Bom… se ela mesma se parece com o que vi, ainda há pouco, espero que nunca mais aconteça de correr o risco de mudar.

      Miranda riu.

      – Mas não pretendo jogar futebol com cada grupo de garotos que encontrar pela rua. Pelo menos enquanto estiver fora de forma…

      – Imagino que não, mesmo. – Augusto também riu.

      Houve um segundo de silêncio.

      – Miranda, eu quero lhe pedir desculpas. Fui meio ríspido com você e Helena me puxou as orelhas. As meninas adoraram o seu gesto.

      – Acho que roubei o seu brilho naquele momento, não foi?

      Mais um instante de silêncio antes que ele dissesse:

      – Todo mundo pensa isso, mas a coisa não funciona assim. A vida pode ser um palco para muitas pessoas, mas não para mim.

      Miranda sorriu. Duvidou até à morte daquela última frase dele.

      – Engraçado você dizer isso. – falou ela. – Eu tenho a impressão de que você passa o tempo todo representando.

      Augusto olhou para ela com uma expressão de contrariedade.

      – Estou com a impressão de que você está tentando me provocar, de alguma maneira. Está, mesmo? Por quê?

      – Não estou tentando provocá-lo, Augusto. Estou apenas emitindo a minha opinião. Se estiver errada, podemos conversar, podemos acabar conhecendo melhor um ao outro.

      – Por que acha que estou sempre representando?

      – Pelas coisas que vejo em você. Não sou psicóloga. Mas acho que você apenas finge não querer envolver-se com ninguém. No fundo, me parece que é apenas um pretexto para esconder sua busca eterna.

      – “A mulher ideal”? – ironizou ele.

      – Pior que isso, a mulher “perfeita”. Alguém que seja bonita, gostosa e que tenha um tipo de cabeça que se afine com a sua. Claro, no meio dessa procura, se tiver oportunidade de transar com as “imperfeitas” que encontra, melhor para você…

      Augusto sorriu, pensativo, e disse:

      – Fico imaginando como seria se fosse psicóloga.

      Miranda riu.

      – Acho que até já mudei de assunto… Me diga, então, Augusto, por que ficou tão zangado com o que eu fiz, hoje?

      – Eu… não sei. Bobagem, eu acho. Temia que, por algum motivo, Virgínia estivesse nos enganando.

      – Você não conhece sua prima, então. O que ela lucraria com isso?

      – Não sei; nunca se sabe. As pessoas às vezes fazem coisas que a gente julga que jamais seriam capazes de fazer. Dizer a verdade é uma virtude, mas mentir é comum a todas as pessoas.

      – Hum… até aí concordo com você. Mas torno a perguntar: que lucro tiraria Virgínia disso, de mentir para tentar reaproximar-se de Helena? Não me parece lógico.

      – Além do mais, nós sempre achamos que colocar as duas frente a frente sem um aviso prévio seria um choque muito grande para as duas.

      – Pois é. Eu não tinha como saber o que efetivamente aconteceria. Mas achava que a surpresa colocaria para fora os verdadeiros sentimentos de ambas.

      – Você também duvidava de Virgínia?


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