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Cap. 36 – Pt. 3

      – Não sei, acho que não. Ela sempre me pareceu muito sincera.

      – Você teve muita sorte.

      – Concordo. As duas se toparam de cara. – Miranda sorriu. – Sabe, Augusto… Meu pai se casou de novo, depois que minha mãe morreu. Teve filhos. Dois meninos, que nunca aceitei como meus irmãos. Nunca aceitei o segundo casamento dele. A mulher era mais jovem que minha mãe… enfim, foi uma estupidez, por puro preconceito. Não o incomodei, mas também nunca dei à mulher uma chance de demonstrar que tipo de pessoa era. Ernesto sempre me disse que ela era uma boa pessoa, mas eu nunca, nunca mesmo, dei o braço a torcer. Até ontem. Hoje sei que, embora não possa dizer que os amo, me sinto capaz de aceitar meus irmãos, e sou até capaz de dizer que começo a pensar neles com carinho. Convivi algum tempo com eles, antes de casar. Vou me aproximar deles e tentar que sejam meus amigos.

      – E onde acha que começou a mudança?

      – Não sei. Não tenho tido tempo para pensar nas coisas que me têm acontecido, ultimamente, mas sei que tem a ver com elas. Conhecer você e sua família, conhecer Helena, sofrer uma tentativa de assassinato, a morte de meu pai… Até mesmo perder você para Mônica pode ter influenciado.

      Houve um instante de silêncio, quando Augusto recebeu aquela última frase dela. Os pares de olhos ficaram se fitando, como que à procura de palavras.

      – Do que é que você está falando. Miranda? – disse ele, meio assustado.

      – Ops, acho que falei demais. Desculpe… – ela riu.

      – Não, Miranda, espere… Está todo mundo pensando a mesma coisa, só porque não fomos à festa, ontem…

      – Ah, Augusto, eu não sou cega. Ela me evitou, hoje. Mas acontece, também, que nem você, nem ela, têm culpa disso, de eu ter me permitido gostar de você.

      O olhar de Miranda era penetrante, sincero, assustador. Era tristonho, cristalino, inocente. Augusto sentiu, também, que as palavras dela eram muito verdadeiras, que não havia nenhuma espécie de rancor em seu tom de voz. Quem era ela, afinal?

      – E mais uma vez, me desculpe. – falou ela. – Não era minha intenção causar-lhe qualquer tipo de constrangimento.

      Estavam chegando a seu destino. Já estava escuro, e quase todas as luzes da parte frontal da casa estavam acesas.

      – Eu não estou constrangido, Miranda. Estou surpreso. Geralmente as pessoas não dizem as coisas tão diretamente, mas, mesmo assim, está havendo um mal entendido.

      Miranda ficou em silêncio, por instantes.

      – Mas se todo mundo imaginou a mesma coisa… – falou. – Será que estamos todos errados? O fato de eu ter dito a ela que estava apaixonada por você não muda uma coisa que não depende nem de mim e nem dela, que é o fato de você ser quem é.

      – ‘Tá, e quem você pensa que eu sou?

      – Eu não sei… mas não é apenas isso. É o que a Natureza fez com você. Com a mistura das raças de seus pais, você é um cara lindo. Tem o que noventa por cento dos homens do mundo não têm, ou seja, a beleza física. Você não é rico, mas não precisa de dinheiro para conquistar as mulheres que estão ao seu alcance. Você não precisa fazer força, é o que estou querendo dizer. Você é do tipo que desperta paixões apenas quando se olha para você. E nós sabemos como é grande a quantidade de pessoas que passam pela vida sem ter o prazer de provocar uma paixão violenta, ou uma atração pelo simples visual. Falo de homens, porque conosco a coisa é muito diferente. Você é um cara bonito, tem um visual perfeito. Claro, se você joga seu charme sobre Mônica, e ela sabe que você é um cara lindão, não há como resistir. Agora, garanto que ela está se sentindo culpada.

      – Você está partindo de uma premissa errada, Miranda. Não há nada entre Mônica e eu. Não que não a julgue atraente, mas conversamos muito sobre Helena, ontem. E tínhamos mais a conversar, hoje.

      – Hum…

      – Tudo bem, se você não acredita. Não vou tentar convencê-la. Me preocupa mais, agora, o que você disse que sente por mim.

      Ela ergueu as sobrancelhas, refletindo, antes de falar:

      – Isso realmente lhe interessa? Quero dizer, o que é que muda, se tocarmos nesse assunto?

      – Não sei. Pode ser interessante saber como você enfrenta essa questão, posso aprender como me defender, também.

      – Ora, Augusto, que eu saiba, você sabe se defender muito bem, uma vez que não se permite gostar de ninguém.

      – Posso ter uma recaída, de vez em quando.

      – E se isso acontecer, por que fugir? 

      – Mas é o que está pensando em fazer, não é?

      – É. Tecnicamente, é isso mesmo. Você não lançou seu charme sobre mim nenhuma vez, e eu me deixei envolver por meus pensamentos sobre você. Agora, quero fugir das coisas que pensei.

      – Hum… acho que entendi aonde quer chegar. Você se deixou pensar, e eu não faço isso. Existe uma diferença.

      – Exatamente. Eu não fugiria se você tivesse tentado me conquistar. Poderia até me recusar a pensar nisso, mas, uma vez que tivesse aceitado sua corte, como se diz, não fugiria.

      – Então, acho que você não está fugindo.

      – O que significa que não está tentando me cortejar? – ela sorriu, olhando-o incisiva e divertidamente.

      Augusto sorriu.

      – Eu estava falando de você, não de mim. – respondeu.

      – Como assim?

      – É que ao falar diretamente comigo sobre o que sente, você está enfrentando uma situação, não está fugindo como tecnicamente afirmou que estava.

      – Hum… – Miranda sacudiu a cabeça. – Acho que posso concordar com isso. – falou. – E eu até nem gostaria de interromper esta conversa, mas estou com uma fome…

      – Isso, sem contar que lá dentro muita gente está preocupada com você.

      – Vamos entrar? Daí eu tomo um banho e quem sabe a gente pode sair, ou jantamos aí mesmo… Temos tanto tempo para continuar…

      – Certo. Tudo bem, estou por você. 

      Encaminharam-se para dentro da casa, então.


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