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Cap 38 – Pt. 2

     – Formaram uma comissão, essa foi boa. – Miranda tornou a rir. – Legal, e agora, o que vamos dar para estas crianças?

      – A Rúbia sabe o que dar a elas. – disse Valéria.

      – E você não estava se metendo, você estava na conversa. – disse-lhe Miranda.

      – Também acho. – concordou Helena.

      – E você está coberta de razão, a escalada da dominação é apenas uma questão de tempo.

      Helena suspirou.

      – Você não o conhece direito, Miranda.

      – E você é prima dele.

      – E daí?

      – Daí que pode não estar vendo as coisas com clareza.

      Foi a vez de Helena dar uma risada.

      – Eu o conheço muito mais do que conheço você. – falou. – E se até agora você não viu que ele é diferente, tem razão, ele se impressionou com a coisa – ou pessoa – errada.

      – Ah, Helena, qual é…?

      – Mas é verdade, Miranda. Nós não somos perfeitas. Como pessoas, estamos sempre nos policiando, reprimindo alguma coisa. Quando fazemos isso, que é o tempo todo, estamos sempre nos nivelando, sempre fazendo tudo igual. Mas com algumas pessoas da minha família as coisas são, sim, um pouco diferentes.

      – Está dizendo que seu primo se impressionou com o que Miranda foi capaz de fazer? – sugeriu Valéria.

      – Exatamente. – Helena balançou a cabeça. – Mesmo que nunca mais na vida ela o faça, aquilo foi algo que ela teve vontade de experimentar, e experimentou. Agora você sabe o que é jogar futebol na praia com um grupo de meninos, e a vida segue em frente.

      Miranda ficou olhando para as outras duas, por instantes.

      – Faz sentido. – murmurou. – Isso não quer dizer que vá rolar alguma coisa, também…

      Helena tornou a concordar.

      – Mas, mesmo assim, é preciso ter cuidado com o que há atrás da porta. – repetiu Valéria.

      – Você está me deixando assustada. – disse-lhe Miranda.

      Valéria riu, mas falou:

      – ‘Tá bem, vocês querem que eu diga a verdade, então eu vou dizer: quando me convidaram para vir para cá, só disseram que seria para ajudar a cuidar do filho pequeno da irmã recém separada do patrão. Mas ninguém conhecia você. Eu imaginei um pirralho mimado, de uns cinco anos, e você uma mulher mais velha, amargurada, chata, mandona. Me preparei para tudo, menos para você. Não que eu queira comparar com seu primo, por favor, não é nada disso – ela olhou para Helena com ar de desculpas. -, mas todo mundo aqui sabe que lá fora tem um maluco querendo matá-la. Nós estamos todas recém nos conhecendo, mas… não quero que nada lhe aconteça, Miranda. É só isso.

      Houve alguns segundos de silêncio, enquanto os olhos de Miranda se encheram de lágrimas. Ela não chegou a chorar, entretanto. Meio que sorriu e disse:

      – Parece que… fiz uma amiga…

      – Mais uma, né? – disse Helena. – E eu concordo de novo com ela. É preciso ter cuidado.

      – Você compreendeu bem o que eu quis dizer, né? – Valéria olhou para Helena com ar de desculpas, de novo.

      – Claro, querida. Você está certa. Muito embora eu saiba do que Augusto jamais seria capaz, não cabe a mim tentar convencê-las.

      – Não cabe a ninguém, a gente vai descobrir ou não conforme as coisas forem acontecendo. – disse Miranda.

                      *                   *                 *

      Depois de alguns minutos de deliberações sobre quais pizzas seriam pedidas, e em quais quantidades, Helena acomodou-se ao lado de Roberto, decidida a ficar observando.

      Começou por seu marido. Na verdade, fora ele, não queria observar as reações de mais ninguém. Roberto era sempre cordial, quando tinha a palavra. Preferia deixar que os outros falassem, mas sempre tinha alguma piada para contar, algum caso para comentar.

      Estavam mais ou menos numa roda, onde apenas Augusto parecia mais distante, embora não deslocado. Ele lançava alguns olhares na direção da cozinha, eventualmente, mas mantinha-se atento às conversas, e seu jeito de falar e agir, em especial em relação a Mônica, deixava claro que, fosse o o que fosse que tivesse acontecido entre eles, que Helena sabia muito bem, ele estava curado.

      No entanto, embora seu interesse por Miranda estivesse despontando, alguma coisa fazia com que ele se mantivesse calmo, enquanto demonstrava carinho e respeito por Mônica.

      Aquele, pensou Helena, era o Augusto que ela conhecia, e conhecia bem.

      Quando Miranda finalmente veio para a sala, foi Ernesto quem mais mostrou entusiasmo pela presença dela.

      – Até que enfim, irmãzinha. – comentou ele. – Achei até que teria que organizar um abaixo-assinado, para você vir para cá.

      – Engraçadinho, foi você que organizou a comissão que foi ao banheiro, me procurar?

      – You bet. Pode apostar.

      – Que exagero. – ela sorriu. – Peço desculpas, mas depois de um dia inteiro fora, praticamente, estava com saudades do meu filhote. Ajudei Valéria com os filhos de Helena, também, e agora estou aqui. Alguém lembrou de pedir uma pizza de atum?

      – Bah! – Virgínia começou a rir. – Insisti para que viessem pelo menos duas.

      – Ainda bem. – Miranda a olhou com admiração.

      A conversa continuou animada, até o momento em que as pizzas chegaram.

      E com elas os problemas da noite.

                         *                       *                   *

      Foram precisas duas motos para aquela entrega. Afinal, eram nada mais, nada menos, do que quinze pizzas grandes, com cinco garrafas de dois litros de refrigerantes.

      Pelo adiantado da hora, Mauricio e Fabiano sabiam que seria a última entrega do dia. Eles estacionaram as motos bem na frente da casa e se preparavam para a entrega, quando o homem apareceu.

      Como eles eram dois, não deram importância à aproximação do sujeito. E quando perceberam, ele estava com uma arma discretamente apontada em sua direção.

      – Olha, cara, nós não temos dinheiro. – falou Fabiano.

      – Não se preocupe com isso. – respondeu o homem. – Eu só quero entrar na casa.

      – Está cheio de pessoas aí, eles pediram quinze pizzas. – argumentou Fabiano, mantendo a calma e tentando ganhar tempo.

      – Não vai ser mole assaltar essa gente. – disse Mauricio.

      – Eu não quero assaltar. Só quero entrar. Quando eles abrirem para vocês, eu entro, se não me complicarem, vocês não se machucam.

      – Nós só queremos dar o fora, cara, entregar as coisas e ir embora.


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