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Cap. 38 – Pt. 3

      – E eu quero entrar na casa. Vocês colaboram comigo, eu colaboro com vocês.

      Fabiano não acreditou naquilo O homem sabia que eles chamariam a Polícia, quando fossem embora.

      – Olha, cara, eu tenho filho pequeno. – falou, mentindo.

      – Meu filho também está aí dentro. – respondeu o homem. – Vamos lá, peguem as coisas e chega de papo.

      Mauricio estava raciocinando sobre a situação. O homem não era um ladrão comum, não estava ali para assaltar, segundo palavras dele. Provavelmente queria entrar na casa para ver o filho, talvez para ferir alguém, a mãe do menino, quem sabe. Apesar de estar armado, nada indicava que estivesse disposto a fazer mal a ele ou a seu colega.

      Mesmo não disposto a tentar bancar o herói, sabia que tudo era uma questão de Matemática: eles eram dois, o agressor era um.

      Quando pegou sua caixa com as pizzas, Mauricio ainda não tinha bem certeza do que queria fazer. Ele olhou para Fabiano, sem saber o que o colega e amigo pensava, mas ambos pareciam estar se preparando para tentar resolver o problema de uma maneira rápida e segura.

      Fabiano tentou, ainda, uma nova cartada negociada, antes de pretender desafiar a paciência do homem armado.

      – Olha, cara, nós não temos como entregar as coisas todas de uma vez. Vamos precisar de ajuda do pessoal da casa…

      Márcio nunca fora do tipo de pessoa que tomava grandes decisões na vida. Nunca ambicionara coisas grandiosas. Sempre se considerara um sujeito normal, que queria ter uma vida normal, com filhos, uma esposa, um emprego, nada de mais.

      Com o que talvez não tivesse mesmo contado, foi com o fato de ter-se apaixonado (e ter sido notado) por uma menina tão bonita quanto Miranda. Uma menina de família rica, possivelmente herdeira de uma fortuna. Ele nunca tinha se incomodado com aquilo, nunca se sentira ameaçado, até o dia em que ela anunciou a gravidez. Desde aquela época, ele sabia que seu salário seria insuficiente para sustentar a família, mas ele não queria que ela pedisse ajuda ao pai.

      Na verdade, ele nunca conhecera direito a família dela, nunca soubera ao certo que tipo de pessoas seriam, mas ele imaginava que onde houvesse muito dinheiro haveria, também, muitos interesses, e nem mesmo a disposição de Miranda de acompanhá-lo para onde fosse, como sua esposa, com o consentimento da família, foi suficiente para mantê-lo seguro de que ela permaneceria ao seu lado, para o que desse e viesse.

      Quando ela manifestara, pela primeira vez, ainda grávida, sua disposição de arrumar um emprego para ajudar nas despesas, ele se sentiu inferiorizado. Sabia que o próximo passo seria ela pedir ajuda financeira ao pai, o que ele não admitiria de maneira alguma. Tirara-a de casa, haveria de sustentá-la sozinho, e depois ao filho deles, também. Se não conseguisse, ela poderia querer tentar uma outra vida, talvez ao lado de uma outra pessoa, levando o filho com ela, e a idéia de perdê-la era-lhe insuportável.

      Agora mesmo, ali, não sabia direito o que fazer, nem o que estava disposto a fazer. Queria entrar na casa, era uma idéia fixa, mas, uma vez lá dentro, se o conseguisse, não sabia ao certo quais seriam as suas atitudes.

      Mauricio percebeu que o homem armado estava distraído, e estava se preparando para ensaiar uma reação, quando algo inesperado aconteceu: um carro estacionou perto das motos, e depois de dois ou três minutos, que pareceram horas, um rapaz e uma moça desembarcaram.

      Marjorie sentiu seu faro de detetive se aguçar, quando Geraldo parou o carro à frente da casa.

      – Tem alguma coisa errada, Geraldo. – falou, abrindo a bolsa devagar.

      – Como assim? – ele sentiu um arrepio ao perceber que ela estava procurando sua arma. – O que você vai fazer?

      – Acho que está havendo uma tentativa de assalto, aí na frente.

      – O quê? 

      – Não olhe. Não temos muito tempo. Ou você arranca e vamos chamar a Polícia, ou vamos ter que ajudar os rapazes da pizza.

      – Como pode saber o que está acontecendo?

      – Você não viu, mas o cara que está com eles tem um revólver. Ou quer assaltar os dois, ou quer assaltar a casa.

      – E o que você vai fazer?

      – Precisamos ganhar tempo. Melhor você me deixar e ir chamar a Polícia.

      – Não vou a lugar algum sem você.

      – Tudo bem. Vamos sair do carro, então. Ele não vai poder ver que estou armada. – ela abriu a porta do seu lado, deixando o revólver sobre o banco que ocupava. – Por favor, fique calmo, espere eu contornar o carro, e eu vou tentar negociar uma solução.

      – Certo, a heroína é você.

      Eles deixaram o carro, aproximando-se devagar, de mãos dadas.

      Marjorie não tirava os olhos do homem armado.

      – Que é que está acontecendo aqui, gente? – falou Geraldo.

      Márcio recuou dois passos e ficou evidente o que acontecia.

      – Vocês vão ajudar os rapazes a levar as coisas para dentro da casa.

      – Para que a arma, o que você vai fazer? – indagou Marjorie, fingindo assustar-se.

      – Cala a boca e ninguém se machuca.

      Fabiano estava achando toda aquela situação meio ridícula. Um homem só, meio amedrontado, com uma arma, dominando quatro pessoas, ele precisava fazer alguma coisa.

      – Cara, eu não vou entrar lá. – falou. – Você não vai nos deixar sair. Eu tenho um filho pequeno, qual é? Deixa a gente ir… Você já tem mais dois reféns… 

      Houve um instante de distração, onde Márcio pareceu considerar a idéia, e naquele momento de guarda baixa foi quando Mauricio resolveu agir.

      Ele avançou na direção do homem armado. Márcio virou-se para ele, e foi a vez de Fabiano atirar-se sobre a mão que empunhava o revólver.

      Geraldo ficou meio sem saber o que fazer, não queria que Marjorie se machucasse.

      – A chave, Geraldo, depressa. – falou ela.

      Depois de alguns segundos, ele conseguiu passar as chaves do carro a ela, quando decidiu também partir para cima do homem armado, que desferia coronhadas e ameaçava disparar contra os outros dois jovens.

      – Não acredito que estou entrando de novo em uma outra briga… – murmurou ele, para si mesmo.

      Marjorie não sabia que chave usar, mas correu para o outro lado do carro, desesperada.

      Estava lúcida o suficiente para conseguir abrir a porta e pegar o revólver. Correu de volta para a calçada, enquanto via a porta da casa se abrir e percebeu que um assassinato estava para ser cometido, contra um dos motoboys.

      – Parado! – gritou, para o homem armado. – Não me obrigue a atirar!

      Ela não foi ouvida. Levantou a arma e disparou para o alto.

      – Não vou falar de novo! – tornou a gritar.

      Seus ouvidos captaram sirenes de viaturas policiais.

      Houve mais um instante de perplexidade, quando o homem armado virou-se para ela.

      – O que vai fazer? Me matar?


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