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Cap. 39 – Pt. 2

      Sim, ela percebia. Com intervalo de alguns dias, apenas, era a segunda vez que ele se envolvia numa briga, não tanto para defendê-la, como na vez anterior, mas em duas ocasiões a tinha visto com alguma segurança empunhando uma arma, e certamente não era o que ele esperava de uma namorada.

      – Eu entendo que este é seu trabalho…

      – Espere… – ela passou a mão nos cabelos dele. – Calma… olha… eu não preciso andar armada. Acho que exagerei, mesmo… na verdade, tenho que lhe pedir que me perdoe, pois arrisquei a sua vida…

      – Você tentou evitar que alguém fosse assassinado… Mesmo assim…
      – Eu sei… – Marjorie baixou a cabeça por alguns instantes, antes de prosseguir. – Eu não sei… o que eu não sei, agora, é de como vai ser a minha vida daqui para a frente. Você vai achar bobagem, mas há algo em você… sinto que por você eu faria qualquer coisa, Geraldo.

      – ‘Tá, Marjorie, mas eu não quero modificar você…

      – Mas eu posso ser diferente. E não é só por você. É por mim. Por Mônica… ela não está me dizendo nada, agora, mas eu a conheço, ela está enlouquecida para contar aos meus pais o que aconteceu…

      – Claro, né? Ela teme por você…

      – Eu sei. E acho que está na hora de eu começar a respeitar mais isso. 

                        *                      *                    * 

      Ninguém estava mais enlouquecida naquela casa do que Virgínia. Embora estivesse preocupada com Miranda, sabia que, para sua amiga, o pior já havia passado, e cada segundo a punha mais e mais distante das complicações. Agora, estava preocupada com Helena, e não admitia que sua irmã fosse embora antes de falar com Geraldo.

      Ela deixou o quarto em que Miranda estava com Ernesto, Mônica e Augusto e desceu as escadas rapidamente. Avistou Geraldo e Marjorie abraçados, sentados a um canto da sala, e saiu atrás da irmã. 

      Encontrou-a na cozinha, com Roberto e Daniel.

      – Vocês não vão embora, não é? – falou, aproximando-se.

      Helena a olhou com ar de desculpas, mas não teve tempo de falar.

      – Onde estão as crianças? – continuou Virgínia.

      – Lá nos fundos, dormindo. – respondeu a irmã. – Já passa da uma e meia da manhã, Virgínia.

      – E daí? – Virgínia sentou-se com eles, à mesa. – Eles estão dormindo, mesmo, quando acordarem a agitação da noite já terá ficado muito para trás.

      – E nós também queremos ir. – argumentou Helena.

      Os olhos de Virgínia dirigiram-se para Roberto, com ar de súplica.

      – Não a deixe fugir. – pediu.

      – Não sou eu quem decide isso. – Roberto recostou-se na cadeira.

      – Mas…

      – Virgínia… – Daniel interveio. – Desculpe, é um assunto de família, eu sei… mas me parece que com tudo que aconteceu, os ânimos podem ainda estar exaltados…   

      – Eu não estou com medo de Geraldo, se é o que está pensando. – falou Helena. – Só quero ir para casa. Acomodar meus filhos. Ficar em silêncio, abraçada no meu marido.

      – Todo mundo vai pensar que você fugiu. – argumentou Virgínia.

      – Não estou preocupada com isso. Amanhã eu entro na casa de Aurélio e Gisela quando ele menos esperar e falo com ele.

      – Duvido. – rebateu Virgínia.

      – ‘Tá bom, e o que, exatamente, você espera que aconteça aqui, neste momento? Quer que eu vá lá falar com ele? Até aqui é que ele não vem. E aí?

      – Vou até lá falar com ele… – ela saiu de onde estava.

      – Não tem medo de arrumar uma outra confusão a esta hora?

      – Vou falar com ele. Por favor, espere só mais um pouco, até eu voltar.

      Helena apenas sacudiu os ombros e também se recostou na cadeira.

      Virgínia puxou uma poltrona para perto de Geraldo e Marjorie, ficando bem próxima deles.

      – Como vocês estão? – perguntou, baixinho.

      Os dois a olharam, esboçaram sorrisos amarelos, e Marjorie disse:

      – Acho que nos entendemos.

      – Isso é bom. – foi a vez de Virgínia esboçar um sorriso. – Entendimento é algo que está fazendo falta ao mundo.

      – E você? – indagou Marjorie.

      – Preocupada.

      – Como está Miranda?

      – Ela ficará bem.

     Houve uma pausa.

      – E você, irmão?

      Geraldo a olhou por instantes.

      – Tem coisa demais acontecendo. – falou.

      – Tem, mesmo. – admitiu Virgínia. – Mas tem mais para acontecer.

      – Imagino que sim. Você conseguiu o que queria, afinal…

      – Miranda o conseguiu para nós…

      – Até Marjorie já veio sabendo que ela estava nesta praia…

      – Mesmo? – Virgínia surpreendeu-se.

      Marjorie lhe contou o que havia descoberto na Capital. Depois, Virgínia contou-lhes o que tinha acontecido, desde o dia anterior.

      – Estou convivendo com ela novamente há algumas horas, apenas, mas… bom, quem a conheceu antes não teve dúvidas de que ela é uma pessoa encantadora.

      Geraldo ficou olhando para a irmã, um pouco.

      – Você também acha isso?

      – É o que estou sentindo, Geraldo. Ela tem filhos, são nossos sobrinhos, não lindos, e a adoram…

      Ele ficou quieto por alguns instantes.

      – Bom, eu não esperava tornar a vê-la tão cedo, tão depressa, Já tinha dito a Marjorie que não criaria caso por causa disso.

      – Mas não se sente preparado…

      – Eu… não sei. Sei que acho que não conseguirei abraçá-la e dizer que a amo…

      – Mas não tem ninguém esperando que faça isso, Geraldo.

      – Que tal ir até ali, dizer a ela que vocês podem conversar numa boa, numa outra hora? – sugeriu Marjorie.

      – Pois é, isso já ajuda. – concordou Virgínia. – Ela quer ir embora, por causa das crianças, mas eu pedi que ficasse…

      Geraldo sorriu, ainda com ar de desconforto.

      – Acho que posso fazer isso. – disse.

      – Maravilha! – Virginia ergueu-se de um salto.


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