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Cap. 4 Pt. 2

          Marina começou uma canção de ninar, acariciando os cabelos da mãe. Helena fez-lhe cócegas e ambas rolaram sobre a cama, dando gargalhadas. 

          – Olha! – disse Helena, parando de repente. 

          Marina parou, também. Era o ruído da fechadura, indicando a chegada de Roberto e Felipe. 

           – O papai chegou. – disse Helena à filha. 

            De um salto, Marina saiu da cama e correu para a sala. 

           Helena pegou o aspirador e foi para o outro quarto. No meio do caminho, uma lembrança de infância, relacionada com a cena recém vivida, trouxe-lhe alguma tristeza. Caminhou até a janela e ficou olhando para fora, com ar pensativo. Não soube precisar por quanto tempo esteve ali, até ouvir a voz de Roberto. 

           – O que houve, Helena? 

           Ela demorou um pouco para responder. 

           – Lembranças… 

           – Assim, de repente? – ele se aproximou. 

           – Não, de repente não. – Helena olhou-o com um sorriso. Ainda estava com ar pensativo. – Foi por causa da alegria de Marina ao vê-los chegarem. É tão lindo… Passou por minha cabeça que eu sempre tive medo da hora em que meus pais chegavam em casa. Era um inferno… 

           Roberto sorriu, meio entristecido. 

           – Mas você não precisa ficar com essa cara. – ela ampliou o sorriso. – Já passou. Olhar para você me corta qualquer linha de pensamento. O presente tem tudo a ver comigo, não o meu passado. Apesar de… – ela voltou a olhar para fora. – Não é só o meu passado, como pode imaginar. Virgínia e Geraldo nunca sentiram esta alegria que Marina sente. Era o diabo…! 

           – Mamãe! – Marina parou ao lado dos dois. – Por que eu nunca vi a tia Virgínia? 

           – Porque a mamãe foi ruim para ela. – respondeu Helena, prontamente. – Mamãe adora vocês, mas ela errou com seus tios, e eles hoje não gostam da mamãe. 

           – Por que você foi ruim para eles? 

           – Porque eu não sabia. Tinha medo do vovô e da vovó. 

           – Por que você tinha medo? 

           – Porque eles me batiam… Eu… Não fazia nada… E eles me batiam… 

           Helena abaixou-se para falar com a filha. 

           – Mas isso agora passou. Apenas nós… não temos… oportunidade, uma chance de falar com os irmãos da mamãe. 

           – Se eles não gostam de você, eu não quero falar com eles. – argumentou a menina. 

           Helena sorriu. 

           – Pois é, está certo. Muito certo. E agora, vamos comer ou não?


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