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Cap. 40 – Pt. 2

      – Eu nunca tive medo de perder Mônica. Nunca pensei em dizer a ela o que acabei de lhe dizer, agora.

      – Mas gostaria de ter tentado.

      – Acho que sim. Não preciso negar isso, né?

      – De jeito nenhum. 

      – Isso não a incomoda?

      – Um pouco. Acho que mais pelo fato de que eu poderia ter deixado passar uma oportunidade única de chegar até você.

      – Mônica é muito mais resistente a envolvimentos do que eu.

      – Bom… de toda maneira, eu disse que acabou, e você não me desmentiu. Isso, para nem falar que eu já percebi nela uma certa mudança, com relação a nós dois. Ela está deixando o caminho livre.

      – Ela gosta muito de você.

      – Eu sei. E gosto muito dela, também. O que acha que seus pais vão achar da idéia?

      – Eles não vão se meter. Gostaram de você.

      – São pessoas diferentes. Pena que você não vai conhecer os meus…

      – É… mas eles deixaram… você… Ernesto…

      – Mas por um lado, não gosto de não saber como minha vida será, daqui para a frente. Eu queria tanto trabalhar… voltar a estudar… Não posso mais ficar parada na vida, Augusto.

      – Eu sei.

      – Será que isso pode ter uma solução?

      – Eu… não sei.

      – Mas é algo em que preciso pensar.

      – Você agora terá bastante tempo, livre de pressões…

      – Antes fosse… mas não é só você que tem medo… não quero perder você… Só queria ter uma vida normal… só isso…

      – Mas você ainda pode ter…

      – Será?

      – Eu acho que pode.

      – Agora…?

      – Agora.

      – Com você?

      – Comigo ou sem…

      – Nós dois temos medo de perder um ao outro… mas temos outras coisas a perder, se nos dedicarmos um ao outro… não é justo.

      – Dá vontade de sair correndo.

      – Para onde? Para onde não precisemos pensar? Existe tal lugar?

      – É que é um impasse muito forte. Você passou por coisas que não quero que passe novamente. Não por minha causa.

      – Mas você está me dando a chance de escolher. É uma espécie de… prova… que eu não esperava receber…

      – Eu só quero que você seja feliz.

      – Mesmo que isso significasse abrir mão…?

      – Não se pode forçar ninguém a ficar junto. Cada um tem um caminho a seguir.

      – Mas então… se é assim… para que serviu tudo isso…?

      – Não sei. Para mostrar que aquilo sobre o que tínhamos dúvidas… não é impossível…

      – Mas se tornou quase impossível…

      – Quase já diz muita coisa… fisicamente. Espiritualmente… está aqui.

      – Queria que durasse para sempre…

      – Não é justo.

      – Bom… Agora sabemos que existe. Você está estabelecido. Preciso eu, agora. Não sei como…

      E ficaram em silêncio.

                 *                   *                    *

      Mônica e Ernesto desceram as escadas no mesmo momento em que Geraldo, Marjorie e Virgínia estavam se dirigindo para a cozinha.

      – Mônica, você de importa de fazer companhia ao Daniel, aqui na sala? – indagou Virgínia. – Vou pedir licença a ele…

      – Tudo bem.

      Mas ela nem precisou dizer nada. Quando percebeu o que estava para acontecer, Daniel saiu de onde estava, cumprimentou Ernesto com um aperto de mãos e deixou a cozinha.

      Helena estava de mãos dadas com Roberto. Virgínia fez questão de que Ernesto ficasse a seu lado, e Marjorie segurou com força a mão de Geraldo, indicando que não sairia do lado dele.

      Houve um momento de silêncio, quebrado por Helena, que disse: 

      – Ah, gente, qual é? – ela se levantou, encaminhando-se para a porta dos fundos. – Isso não vai dar certo…

      – Espere aí, Helena. – Virgínia foi atrás dela, segurando-a pela mão. – Espere um pouco…

      – Esperar o quê? – ela se virou e olhou para o irmão. – Veja, ele não está com jeito de quem vai conseguir falar…

      – Espere… – repetiu Virgínia. – Olhe… – ela reconduziu a irmã gentilmente à mesa. – Está sendo uma noite difícil para todos nós…

      Ela fez com que Helena tornasse a sentar.

      – Não a deixe sair daí. – disse ao cunhado, que sorriu.

      – Vou tentar… – disse ele.

      – Ótimo. – Virgínia se virou para o irmão. – Geraldo… este é Roberto, o marido de Helena, nosso cunhado. Roberto, este é Geraldo, nosso irmão. Esta é Marjorie, irmã de Mônica, é fácil perceber, né?, e namorada do Geraldo. Marjorie, esta é Helena, minha irmã, e irmã do Geraldo…

      – Oi… – disse Marjorie a Roberto e Helena.

      – Oi… – falou Helena, com os olhos fixos no irmão.

      – Eu queria lhe dizer… – Marjorie continuou olhando para Helena. – Bom… sou detetive particular…

      – Você é a moça que os guris ajudaram, dias atrás, numa sorveteria…

      – Isso… eles foram maravilhosos…

      – Você teve muita sorte, mesmo.

      – Pois é. Então… depois disso… sem saber… e sem eu também saber que você estava nesta cidade, Virgínia me pediu para tentar descobrir por onde você andava… Eu… sou boa no que faço, sabe? Falei com seus pais… o que não deu em nada, mas… depois… obtive uma informação que me levou ao condomínio onde vocês moram… e lá eu soube que estavam aqui…

      – Ela ainda não havia falado comigo, até ainda há pouco. – disse Virgínia. – Mas quando chegou, era o que tinha a me dizer… que você estava aqui, na praia…

      – Independentemente de coisas que aconteceram… ou de como foram feitas… – continuou Marjorie… – O que eu queria lhe dizer é… que antes mesmo de vê-la, eu já sentia grande admiração por você. Para mim, é um prazer estar conhecendo você…

      Enquanto ela falava, Helena percebia que as mãos dela e de Geraldo estavam firmemente entrelaçadas. Percebia que ele a olhava fixamente, mas que não havia hostilidade em sua expressão. Mas o que estaria ele pensando?

      – E você, não vai dizer nada? – perguntou ao irmão.

      Geraldo moveu a cabeça, com ar de dúvida. Olhou para Virgínia, depois para Roberto, depois para Helena, novamente.


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  1. Marta Bertolini Bastos #
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    As pessoas tentam viver suas vidas , com um propósito de que somente aquela pessoa será a sua felicidade, como se não conseguissem mais nada se não ficarem juntas. Isso dá uma depressão!!!!



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