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Cap. 40 – Pt. 3

      – Bom… – murmurou. – Eu concordo com Virgínia… Está sendo uma noite difícil para todos nós… Antes… antes de virmos para cá, Marjorie e eu estávamos jantando… conversamos sobre você, sobre as impressões dela… – ele fez uma pausa. – Não sabíamos que você estaria aqui, nesta casa… Eu disse… disse a ela que não… criaria mais caso por sua causa… Que havia muitas pessoas falando muito bem de você… e que não seria eu quem se indisporia contra elas…

      – E agora…?

      – Agora…? – ele sorriu amarelo, mas continuou a encará-la firmemente. – Bom… você é minha irmã…

      Os olhos de Helena encheram-se de lágrimas e ela estendeu lentamente uma mão sobre a mesa, na direção dele. Geraldo imitou o gesto dela, e ela apertou a mão dele com força.

      – Espero que tenha paciência comigo. – continuou ele. – Agora, neste momento, não sou capaz de dizer que amo você, mas…

      – Não precisa dizer isso… – falou ela. – Eu amo você. Me perdoe…

      – Não, Helena, não peça isso. – disse ele, também com lágrimas nos olhos. – Não foi culpa sua… só… me dê um tempo, está bem?

      – Claro, querido…

      Virgínia bateu palmas e se agarrou ao pescoço do irmão, beijando-o muito.

                           *                        *                       *

      – A pior parte, deixe eu lhe dizer qual foi… Foi eu ter deixado tudo para trás, meu pai, meu irmão, as comodidades todas, para ir para uma cidade do interior viver com ele.

      – Você o amava muito, no começo.

      – Amava. Agora, não tenho mais pai… meu irmão… Virgínia é uma gracinha, vai tomar o tempo dele… a família que me restou, além do meu filho… foram pessoas com as quais eu nunca fui muito justa…

      – Eu… entendo…

      – Ao mesmo tempo em que me separei, soube da morte de meu pai… e estava… e ainda estou… decidida a me aproximar de meus dois meio-irmãos… talvez me tornar amiga da mãe deles, já que meu pai a amou…

      – Eu… compreendo… 

      – Você compreende que andei perdendo algum tempo na vida…? E que preciso se não recuperá-lo, ao menos tentar compensar um pouco isso?

      – Sim… claro, Miranda…

      – Por outro lado… agora existe você… são tantas coisas em que pensar… tanto a fazer… e eu sou uma só…

      – E a maior parte delas você terá que resolver sozinha…

      – Exatamente. Ao mesmo tempo, sei que sozinha não conseguirei… Lá, em Porto Alegre, acho que não tenho mais nenhuma das amigas que tinha, antes de casar… Posso procurá-las, mas…

      – Mas lá você terá Virgínia, Mônica, Helena… seu irmão…

      – Valéria… ela é uma gracinha, a babá…

      – Eu gostaria de ajudá-la, mas só há uma maneira de eu fazer isso….

      – E qual é?

      – É não atrapalhando. É lhe dando o tempo que precisa.

      – Mas não é justo com você. Você aqui, eu lá, que graça isso vai ter? Eu não vou suportar a idéia de você se envolvendo com outras garotas, aqui. E não me diga que isso não vai acontecer… Não tenho a menor vontade de estar do outro lado, da pessoa que sente ciúmes…

      – Ei… calma… vamos achar uma solução, se é que é isso mesmo que queremos…

      – Você fala com tanta certeza…

      – Olha, Miranda… meus pais continuarão vivendo neste lugar… e eu… posso vir para cá nos finais de semana…

      Miranda sentiu um novo arrepio.

      – Você está dizendo…

      – Que abriria mão, por você. Para você estudar, se formar, se aproximar das pessoas de quem quer se aproximar. Dou um jeito, arrumo um emprego por lá, sei lá…

      – E se você ficasse, e fosse me ver nos finais de semana?

      – Não sei. O que ficasse bem para você, para mim, para todos nós.

      – E por quê, Augusto? Por que você faria isso?

      – Não sei…. sei que esta noite senti por você uma coisa que até hoje não havia sentido por mais ninguém. Senti medo, Miranda. Pensei que… se você morresse, lá fora, não haveria mais sentido na vida, para mim.

      – Assim? Do nada? Sem nunca termos sequer… nos beijado…?

      – O beijo seria um complemento maravilhoso… Mas as suas reações, esta noite, fizeram minha admiração crescer… Você não ficou se lamentando, não entrou em pânico, você quis resolver a situação mesmo com o risco da própria vida…

      – Mas eu estava apavorada…

      – Mesmo assim… a impressão que tive foi de que a apavorava ainda mais a idéia de que algum daqueles rapazes se ferisse sem que você fizesse alguma coisa.

      – Bom…

      – Pois é. E depois, quando tudo acabou, mesmo desabando, você foi forte. Eu admiro isso, e não precisei ir atrás para descobrir…

      – Você acha isso normal?

      – Não sei. Acho que algumas pessoas são assim. E eu não quis perder o seu tipo de pessoa. Se eu pensar nisso, agora, continuo achando que não posso mais viver sem você.

      – Daqui a alguns meses aposto que vai me achar uma chata.

      – É um risco que terei que correr, inclusive de que você também me encare desta maneira.

      – É… não existem garantias, não é?

      – Existe uma garantia, sim… a de que não saberemos se não tentarmos.

      – Hum… muito conveniente… – ela deu uma risada.

      – Concordo. É o caminho mais fácil. Só que a felicidade não passa pela estrada de tijolos amarelos, nem por um mar de rosas. Teremos altos e baixos, mas este é o caminho.

      – Poderemos contar com Helena e Roberto?

      – Quem sabe…?

      Os olhos ficaram se encarando por instantes, após o que surgiu aquele que seria o primeiro de muitos beijos.

                                                                                                 F I M 

                                                                                          22.08.2003


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