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Capítulo 1 pt.2

      – Porque imaginei logo, quando você falou comigo. Você nunca faz isso, seu normal é sair correndo na frente. 

      Luciana estava perplexa. Naturalmente, ele sabia muito bem sobre o que estava falando. 

      “Mas como ele pode estar dizendo isso, assim, com tanta calma?”, pensou ela, quase horrorizada. 

      – Ai… Ai, Rogério… me perdoe. Eu estava usando você… 

      – Eu sei. Sei como deve estar se sentindo tendo um cara como aquele dando em cima de você. Mas não se iluda comigo. Você é muito bonita para que eu não tente. 

      Luciana sorriu, pensando que aquela frase vinha de encontro a algo que ela estava pensando ultimamente. E ele estava sendo muito direto. Por isso, arriscou: 

      – Mas você não tentou, ainda, nenhuma vez. Não pense que estou sentindo falta disso, é só uma observação. 

      – Bem… ele já foi. Tudo bem? 

      – Tudo bem, mas eu quero lhe pedir um favor. 

      – Ah, é? – ele a olhou com curiosidade. – E sobre o que seria? 

      – Eu… preciso de umas dicas de Inglês… 

      – Bem… dependendo… 

      – Você é quem sabe mais, na nossa turma. É o melhor. 

      – Eu? Que é isso…? 

      – Não, é sério. Sou observadora, especialmente quando as coisas me interessam. Faço isso porque tenho alguma dificuldade com certas matérias. Você tem as respostas do Inglês na ponta da língua. 

      – Está certa até aí. Mas dizer que eu sou o melhor… 

      – Para mim, é. – insistiu ela, com grande convicção. 

      Rogério ficou quieto, por instantes. Para dar em cima daquela menina, precisava de uma aproximação, mas ela já tinha encurtado a distância. Sonhar era uma das poucas dádivas que Deus costumava conceder aos seres humanos, e Rogério não pretendia negar que Luciana o hipnotizava. Mas… 

      – Olha, se você acha… então está bem. Para quando quer as dicas? Estamos recém no primeiro mês… 

      – É, mas, como dizem os políticos, é preciso fazer um trabalho de base. Eu preciso disso para ontem. Já estive pensando… a gente podia se encontrar, hoje, depois da sua Educação Física. Eu venho, trago alguma coisa, principalmente exercícios de Gramática, e você me dá uma pequena aula, para começar. 

      – Tudo bem. 

      – Dicionários por sua conta? 

      – ‘Tá legal. 

      Os dois se separaram, e Luciana tomou o ônibus para casa.                               01.11.86 

 

      Quando chegou em casa, Luciana já esperava ter problemas pela frente. A confirmação chegou ao encontrar sua mãe, que saía. 

      – Eveline está furiosa com você. – disse Adriana, sorrindo. 

      – Onde ela está? 

      – No quarto do seu irmão. 

      – ‘Tá legal, vou falar com ela. 

      – Tchau, boa briga.

     

      O quarto de Tiago era um lugar neutro, que dava muita segurança, tanto a Eveline quanto a Luciana. Era um quarto de macho, com fotos de mulheres nuas, alguns troféus ganhos em competições escolares, alguns livros, discos, o som, um violão, duas raquetes de tênis e outras coisas, não muitas, pois ele estava dormindo provisoriamente no quarto que seria a dependência de empregada.            

      – Muito bem, Eveline, desembuche. – disse Luciana, logo que abriu a porta. 

      O sangue subiu à cabeça de Eveline, assim que viu a irmã com sua bermuda. Suas bochechas ficaram incrivelmente vermelhas. 

      – Você não sabe que eu tenho horário para sair, de novo, hoje? Desde quando…? 

      – Ah, pode parar com o sermão. – cortou-a Luciana, de pé, os braços cruzados. – Você põe meus sapatos, meus vestidos, e eu não armo nenhum barraco. 

      – Faz muito tempo que eu não uso nada seu, Luciana. E queria usar esta bermuda, agora à tarde! 

      – E daí? – Luciana deu uma volta sobre si mesma. – Está limpa, que eu saiba. Acha que não cuidei isso? 

      Eveline silenciou. Luciana tinha razão, muitas vezes pegara roupas dela. 

      – Está bem, Luci. Olha, descolei uma festa para a gente ir, no sábado. 

      – Já falou com o Tiago? 

      – Deveria? 

      – Deveria, sim. Fale com ele, primeiro, depois me convide.                                     04.11.86 

      – É aqui no bairro, mesmo, bem pertinho. 

      – Bom, pode ser que eu vá. 

      – Mana, você tem que parar com estes grudes com o Tiago. Ele é seu irmão, não seu namorado. 

      – Você já me disse isso, e eu já lhe respondi. 

      – Ah, tudo bem. – Eveline caminhou para a porta. – Tem até às duas para tirar a minha bermuda. 

      Foi a vez de Luciana suspirar.


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