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Capítulo 2 pt.1

     QUANDO entrou em seu quarto, Luciana percebeu que não perguntara a Rogério a que horas terminavam seus períodos de Educação Física. Aquilo, realmente, era uma coisa que ela não sabia. Calculou, porém, que não devia ser cedo, pois dava tempo dele ir em casa, almoçar e voltar. 

      Bem, ela podia chegar um pouco antes.                                                               17.03.87 

                       *                         *                       *                     * 

      Rogério não era do tipo de pessoa que tinha muitos problemas de caráter existencial. Vivia no mundo dos seus dezesseis anos. Jovem, rebelde, detestava os estudos, em sua essência, conformando-se com a obviedade de o estudo ser a base para quase qualquer coisa na vida. Provinha de um lar de não muitos recursos, era o filho mais novo de um casal de trabalhadores, o pai era fiscal de obras da Prefeitura, a mãe dividia com os irmãos a propriedade de um pequeno armazém, herança deixada pelo avô de Eduardo, Andréa e Rogério. 

      Andréa era tida como o exemplo da família, estudiosa, tinha dezenove anos e já estava na universidade, cursando Comunicação Social. Era uma bela jovem, com um corpo escultural, facilidade para conversar e muito inteligente. Sensível, não concordava em ser citada pelo pai, quando este queria convencer Eduardo e Rogério a estudar. 

      Mas Eduardo tinha vinte anos, tinha um bom emprego – obtido com concurso – no Banco do Brasil, tinha um carro, uma namorada que era uma loura esvoaçante, e não pensava em continuar os estudos. 

      E Rogério… bem, Rogério era uma incógnita. Dentro de casa, ninguém o conhecia muito, ele era de falar pouco, gostava de ler, ouvir música, jogar xadrez, e eventualmente escrevia alguma coisa. 

      Um dos principais traços da personalidade de Rogério era que quase não tinha pressa para nada, e não gostava de ser forçado a nada. Quando, por vezes, via-se em situação desfavorável, geralmente concordava com as pressões, apenas para ver-se livre delas. Mas na medida do possível fazia as coisas à sua maneira. 

      Pois bem, quando chegou em casa, naquela tarde, foi saudado pela irmã, que terminava de almoçar. 

      – Oi, Rogério. – falou Andréa, estendendo imediatamente alguns papéis na direção dele. – Aí está a papelada para as minhas passagens escolares. 

      – Sexta-feira. – respondeu ele, atravessando a cozinha. 

      – Nã-nã-nã-nã-nã-nã… Preciso disso para ontem. Você vai hoje, lá. 

      – Sexta-feira é amanhã. Hoje não dá. 

      Andréa bateu com a mão na mesa. 

      – Pô, Rogério, qual é? Você disse que ía fazer isso para mim! Estou esperando!! 

      – ‘Tá, Déa, deixa aí em cima. Sexta-feira, sem falta. – repetiu ele, começando a rir. 

      – Sexta-feira ! Até lá, meu dinheiro foi todo! 

      Rogério riu mais ainda. 

      – A mãe ajuda você. Ou, então, peça ao pai um passe da S.M.T.! 

      – Ele não pode conseguir um. O único que ele pode me arranjar é o de sexagenária, mas quem vai acreditar nisso? 

      Rogério continuou rindo. Sentia-se um pouco nervoso com o “compromisso” de ter que dar aulas, ou dicas, a Luciana. Não sabia explicar por quê. Tinha uma amizade relativamente boa com Fausto e era, em princípio, respeitador dos sentimentos alheios. E Fausto estava interessado em Luciana. E havia aquela outra menina… Não, ele não queria pensar. 

      – … e agora tem boi sobrando por aí. – estava dizendo Andréa, quando Rogério retornou a este mundo. 

      – O quê? – indagou ele, começando a servir-se do almoço. – O que você disse? 

      Andréa o olhou, por instantes, com uma expressão de quem não acreditava que ele não a tivesse escutado. 

      – Você não ouviu nada do que eu falei? 

      – Desculpe. Estava pensando em outra coisa. 

      – Estou falando sobre a idéia da mãe, de botar um açougue no bar… 

      – Armazém. 

      – ‘Tá, tudo bem… 

      – E o que  estava dizendo? 

      – Eu disse que isso só será possível quando o governo comprar os bois que estão no pasto, a fim de formar estoques reguladores. 

      – Hum… 

      – Hum… Hum, ele diz. Irmão, você precisa se integrar mais. 

      – O quê? Nã-nã-nã-nã-nã-nã… – ele imitou à irmã. – Me recuso a fazer parte do sistema. 

      – Ah, é mesmo? – Andréa riu. – E de qual sistema o beleza aí quer fazer parte? 

      – Não sei. Mas não quero ser um ajustadinho, como você. 

      – Isso é tolice. Eu não sou ajustadinha. 

      – Claro que não. 

      A ironia era evidente, mas Andréa não comprou a briga. 

      – Olhe, Rogério… Você se lembra do final do ano passado, a crise da carne…? 

      – Lembro. 

      – Pois é. Isso aconteceu por causa da especulação, com gente querendo ganhar muito dinheiro às custas das fome do povo. É claro que o governo também tem culpa, mas eu não consigo acreditar que deixar o capim crescer naturalmente dê trabalho a alguém. E eu não posso aceitar que os fazendeiros dissessem que não havia boi, e agora o boi aparece na televisão e ri na nossa cara. O pessoal começou a comer menos carne, depois que o preço foi liberado. Se pagava ágio, antes, mas quando o preço passou a ser oficial as pessoas se retraíram. 

      – E foram burras, pagando ágio. 

      Nós fomos burros. Fomos roubados, e quem roubou, quem sonegou a carne, está solto numa boa, e agora estão a todo momento baixando o preço dela, porque ninguém compra. E estão soltos! Agora, a mamãe quer botar um açougue no bar. 

      – Armazém. 

      O olhar que Andréa lhe dirigiu fez com que Rogério reavaliasse o nível de atenção que estava dando a ela. Quase engasgou com a comida, antes de dizer: 

      – E no que entra a sua idéia dos estoques reguladores? 

      – Não lhe parece óbvio? 

      – Ah, ‘tá, obrigado por me lembrar que sou burrinho.


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