RSS

Capítulo 2 pt.2

       – Faça um esforço… irmão desajustadinho… (Andréa era assim mesmo. Guardava as coisas na manga, para depois devolvê-las com a maior graça e leveza) Pense, como vamos abrir um açougue, como podemos fazer um investimento desses, enquanto esses fazendeiros malucos ficam aí, brincando de serem os donos da carne? Não pode. O governo tem que formar estoques, grandes estoques, para a carne não faltar, mesmo na entre-safra. Talvez até para que possa colocar seu estoque no mercado por um preço mais baixo, forçando os pecuaristas a serem razoáveis. 

      Rogério fez uma careta de admiração, mas, particularmente, aquilo lhe era indiferente, na prática. 

      Andréa percebeu que sua conversa não levaria a nada, pelo menos com aquele irmão. Com o outro, pensou ela, talvez tivesse mais sorte. 

      Depois de almoçar, Rogério foi para seu quarto e ligou o som de Eduardo. 

      Raramente se preocupava com o valor das coisas, e gostava de ter aquele conforto ali, de sorte que cuidava da conservação do aparelho, em benefício próprio. 

      Trocou de roupas, pegou o material da Educação Física e começou a organizar a mochila.  

      Ao sair, despediu-se de Eduardo, que chegava. 

      Estava, ainda, pensando em Luciana. Deu-se conta, então, de que esquecera o dicionário de Inglês, e voltou para apanhá-lo.

  

      A menina tinha os cabelos castanhos, claros e lisos, quase sempre presos num rabo de cavalo. Seus olhos eram castanho-claros, muito claros, seu nariz era reto, se pequeno ou comprido, Rogério não lembrava, combinava com o rosto dela, um rosto redondo, de bochechas delicadas, lábios carnudos, sempre vermelhos, ela sempre os pintara, de todas as vezes em que a vira. Era quase tão alta quanto ele, tinha um corpo bonito e quase sempre vestia jeans. 

      Rogério estava tentando impressioná-la, mas quase nada sabia sobre ela. Era amiga de uma das garotas de sua turma, esse era o maior problema, não estava próxima. Casualmente, para felicidade dele, ela tinha Educação Física naquela mesma tarde, no mesmo horário. Só que – só que – hoje, naquela tarde, ele tinha… Luciana.     

      Quando chegou ao colégio, Rogério reuniu-se aos colegas, quase todos estavam ali. De saída, foi alvo de gozações, ele e Fausto. 

      – Ih, turma, parem com isso. – disse ele, acanhado. – Eu não tenho nada com a Luciana. 

      – O Fausto acha que tem. – disse um dos outros. 

      – Eu não acho nada. – falou Fausto, com ar de defesa. 

      Rogério não era de falar muito. Se continuasse na conversa, fatalmente ver-se-ía na situação de vir a ter que revelar seu interesse pela outra menina, e aquilo não era do seu feitio. Por isso, calou-se e concluiu que era melhor falar com Luciana.

 

      Luciana chegou ao colégio e dirigiu-se para algum lugar de onde pudesse observar o campo de futebol. Os rapazes ainda estavam na ginástica. 

      Fausto, Rogério, os outros e uma outra turma, todos de camisetas brancas e calções pretos, e Luciana perguntou-se mais uma vez se aquela uniformização seria, realmente, necessária, como se estivessem num quartel. 

      “Está errado”, pensava ela, que não gostava de ter que usar uniforme. “Todos os que estão aqui são estudantes, e mesmo algum eventual visitante poderia ver isso.” 

      Luciana resolveu chegar mais perto. Sentou-se em um ponto de onde podia observar e ser observada, mas havia muitas outras meninas por ali, e ela achou que não chamaria muita atenção. 

      Seus olhos dirigiram-se para Fausto. Ele era bonito, tinha cabelos castanhos cortados curtos, bom porte físico e coxas grossas. Luciana observou por instantes o volume escondido sob o calção e pensou em sua irmã Rosele. Tinha dezenove anos, era independente e era sabido por toda família que ela costumava fazer amor com seus namorados. Geralmente, dois por ano. Ela mesma não escondia, era um fato aceito por todos, assim como era aceito o fato de Tiago praticar a mesma política. Ao que tudo indicava, Eveline ía pelo mesmo caminho, mas ela, Luciana, ainda não sabia se solicitaria os anticoncepcionais à sua mãe tão cedo. 

      Luciana pensava nos seus quinze anos. Naquela idade, sua chance maior era de envolver-se com meninos de sua idade, como Fausto, Rogério e outros que conhecia. Talvez consentisse a si mesma ir para a cama com um cara mais velho, mas estava convicta de que não se deteriam a conhecer-se um pouco mais, antes de irem para um motel. Por isso, concordava, estaria mais preparada quando chegasse mais perto dos dezessete, dezoito anos. Se não mais tarde. Agora, olhar para o volume nos calções de seus colegas não a emocionava, dava-lhe apenas estímulo para pensar. 

      

      Quando estourou o tempo do futebol, Luciana observou que Rogério se aproximou de uma garota que saía de dentro do ginásio onde as meninas praticavam vôlei. Os dois conversaram e Luciana ouviu-os combinarem de encontrar-se no bar, depois do banho. 

      Sentindo-se meio indignada, ela saiu de onde estava e chamou o rapaz. 

      – Oi, Luciana! – disse ele, sorrindo. – Você já está aí, é? 

      – Estou, sim, e eu sei que você me viu. E eu vi você combinar um encontro com aquela menina. 

      – E daí? 

      – E daí? Vou ter as minhas dicas, ou não? Não vim de casa e esperei à toa… 

      – Claro que não. – Rogério continuou sorrindo. – Olha, eu digo a ela que fica para outro dia. 

      Luciana caiu em si, naquele momento. 

      – Você esqueceu, não foi? 

      – Não. 

      – Esqueceu, sim.                                                                                                20.03.87 

      – Não esqueci. Trouxe meu dicionário, na mochila. 

      – Hum… 

      – Luciana… há uma coisa que eu tenho que falar com você… 

      – Ah, é? E o que é? 

      – Bom… Olha, deixa eu tomar um banho, ‘tá bem? 

      – ‘Tá, é claro que está… 

 

     Luciana cruzou os braços, muito chateada. Não estava habitua a ser deixada para trás pelos rapazes, mas reconhecia que sua indignação era um mau costume. O caso era que a maioria dos garotos que conhecia costumavam paquerá-la, e ela se chateava com isso. Agora, não estava sendo paquerada, então por que se chateava? 

      “Bobagem”, pensou ela. “O que me deixa… surpresa, é que eu vim para ter dicas de Inglês, e preciso delas. O que me chateia é que ele é o melhor e eu quero o melhor…”


Your Comment