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Dia 101 – 2014

sexta

Gosto de gastar algumas horas pensando que não tenho nada em que pensar. É bom não pensar em nada mesmo quando há tanto em que pensar. Penso que se não estou aqui rabiscando palavras que sozinhas quase não são nada, mas que juntas também quase não fazem sentido. Se quase não fazem, então em algum momento fazem algum, mas ainda não atinei que sentido seria este.

Lá fora o vento me desmente, como me desmentiram no mês passado as fotos que eu disse que não eram nem fotos, nem vídeos. Eu jamais saberia se não tivesse tentado baixá-las da máquina para ver no que poderiam dar. E o pior é que deram em alguma coisa. Curiosidade que me ajudou.

Depois meio que me arrependi de publicar algumas delas, mas aí já era tarde. É o que dá ter muitas horas para pensar e depois agir sem fazer isso.

Sou uma daquelas pessoas que adoram momentos de introspecção. Não tenho problemas em ficar sozinho com meus pensamentos. Aliás, a minha cabeça não é daquelas que ficam o tempo todo de falatório. Embora eu tenha todos os dias algumas boas ideias, a maior parte delas aparecem quando estou sentado na frente da televisão me iludindo ao pensar que não estou pensando em nada.

Tenho meus  momentos de silêncio, assim como tenho aqueles em que me dedico a ficar quieto lendo, ou fazendo palavras cruzadas, ou só ouvindo música, ou escrevendo, ou só deitado, quieto. Há pessoas que não aguentam a própria companhia, tendo que estar sempre ou cercadas de gente, ou de algum tipo de barulho, ou tagarelando, simplesmente porque não se suportam se ficam sozinhas com os próprios pensamentos.

E há pessoas que não sabem, ou não conseguem conviver com quem tem momentos de quieta e reflexiva introspecção. Há pessoas inseguras, que acham que qualquer momento de quietude da outra pessoa pode significar algum tipo de ameaça.

Desde que me vi morando sozinho, depois que os filhos saíram de casa, cada vez mais tenho apreciado momentos de solidão reflexiva. Já pensei comigo mesmo que se tivesse um órgão musical, aqui, já teria composto uma ou duas dublês de sinfonias, ou algo parecido, porque teria tempo e silêncio para me concentrar.

Pensando sobre o significado muito importante, para mim, de poder exercer meu direito de ficar quieto num canto, na companhia dos meus pensamentos, ou aprendendo a passar mais tempo naquele espaço vazio entre um pensamento e outro, é que chego à conclusão de que sinto certo receio de me envolver com alguém que não respeite, ou não aceite, ou não consiga conviver com este meu lado.

O pior, e é o que uma pessoa insegura teria dificuldade para entender, é que este meu lado só é perigoso para quem não o aceita. É o medo de que possa estar me perdendo que fará com que me perca, se nã me deixar ficar quieto, de vez em quando. E isso não tem hora, pode acontecer a qualquer momento.

Meu problema, então, é eu querer experimentar descobrir se existe alguém que vai saber conviver com isso. É o que muitas vezes me faz relutar em dar um passo adiante. Não é um mistério que precise de uma solução, é um problema que aparentemente não tem uma.

Também faz parte de um conjunto de barreiras que ergui à minha volta, nem tanto para impedir que alguém se aproxime, mas principalmente para impedir que eu me aproxime de alguém. Se alguém tentar se aproximar do meu mundo a porta vai estar aberta para que ela entre (e para que saia, se se arrepender de ter entrado). Mas da mesma porta aberta eu não me aproximo, porque tenho grande desconfiança sobre o que vou encontrar lá fora.

Menos mal que se eu resolver sair meu GPS pessoal vai continuar funcionando para me mostrar o caminho de volta, se lá fora eu não conseguir espaço para ficar quietinho em silêncio em algum canto, de vez em quando.


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