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Ensaio Filosófico (2)

A FELICIDADE

Alguém escreveu muito sabiamente que a felicidade não é deste mundo. Muito sabiamente. Ela realmente não é.

A grande maioria das pessoas não sabe que a felicidade não é daqui. Por causa disso, nunca a encontram. Supondo que a felicidade não se encontra em coisas, mas em pessoas, muitos de nós se concentram em outras pessoas, como se através delas a felicidade pudesse se manifestar. Como as outras pessoas também estão em busca de uma coisa que não será encontrada aqui, o que mais acontece entre as pessoas são desencontros. 

A felicidade não é daqui. Mas se for parar para pensar, eu também não sou. Assim como a felicidade, minha alma, meu ser interior, que casualmente sou eu, não sei de onde veio. Meu espírito em algum lugar estava, antes de ganhar este corpo. O corpo eu sei de onde veio. O espírito não sei. O que sei é que ele não veio deste mundo. Seja lá o que for que vá acontecer depois, tenho uma vaga ideia de para onde o corpo vai, ou o que acontecerá com ele, ao final dos seus dias. Com meu espírito, minha alma, não sei. Não tenho a menor ideia. Na totalidade do tempo não penso nisso. A questão é bem simples: não é algo sobre o qual eu tenha controle. Não posso dizer à minha alma que ao final dos seus dias ela vá para este ou aquele lugar. Porque, para começar, não tenho certeza sobre a finitude da alma. 

Posso pensar uma série de coisas sobre ela. Uma, no entanto, me parece clara em sua inexplicabilidade: assim somo sei como o corpo que abrigou minha alma neste planeta foi gerado, não tenho a menor noção de como meu espírito ou minha alma foram gerados. Não sei onde estavam antes de ocupar este corpo. Não sei como foram gerados. Posso supor que uma vez compostos de algum material etéreo, ou simplesmente suspensos no ar, são infinitos. Estavam em algum lugar (ou em lugar nenhum) antes de assumirem este corpo e provavelmente para lá voltarão quando chegar a hora. Nunca ouvi falar em decomposição da alma ou do espírito. Mesmo assim, se isso alguma vez acontecer, ou se eu admitir que existe uma finitude para eles, preciso então pensar que foram criados em algum momento por alguma coisa que não foi alguém.

Pensando em tudo isso, em que não sou daqui e a felicidade também não, por definição não posso encontrá-la fora de mim. Só tem um jeito de eu ser feliz: fazendo de conta que viemos do mesmo lugar. Se ela vem de um lugar diferente de onde eu venho, bom, é uma outra questão a discutir. Mais uma vez, trata-se de no que a gente acredita.

Há pessoas que creem que não merecem a felicidade. Sendo assim, não a procuram. Quando a encontram, sabotam-na. Há os que procuram e se iludem pensando que a encontraram em alguma coisa ou alguém, mas não é mais que mera ilusão. A felicidade está, afinal, dentro de cada um. Está no que cada um pensa, no que cada um sente a partir do que pensa, no que que cada um acredita depois que pensa alguma coisa.

Quem não crê na felicidade interior dificilmente a encontrará fora de si. Por quê?

Porque a felicidade está no mundo de cada um.


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