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Faltas Tantas

 E OUTROS CÍRCULOS

A frase tem um bom efeito, a título de jogo de palavras. Ela diz que olhando de perto, ninguém é normal. Mas o que é o normal? Olhando assim, de fora, é fácil concluir que para todas as pessoas – e eu disse todas – o normal é viver com a sensação de que alguma coisa está faltando.

E sempre alguma coisa está faltando, mesmo quando as pessoas pensam que encontraram. Porque logo depois alguma outra coisa vai estar faltando, pela simples razão de que todos temos que prosseguir. Não existe o chegar, porque sempre alguma coisa falta e sempre temos que perseguir o que ainda não está completo. Descobrir o que falta e ir atrás disso não significa que deixará de faltar alguma coisa. É um círculo.

Uma vez que dele tomamos consciência, nunca mais o abandonamos. Nós não o abandonamos. Não podemos não queremos, muito menos sabemos sair dele. Sempre vai estar faltando alguma coisa para que isso aconteça.

– Tá, e aí?

– E aí o quê?

– É esta a sua tese? Não vai terminar?

Silêncio pensativo.

– O que mais haveria para dizer? Está tudo ali.

– Me parece que falta alguma conclusão.

– No papel só faltou escrever o que acabei de dizer. Se for o caso de colocar uma última frase, anote ali que “nada mais há a dizer, está tudo aí”.

– Mas, então, se é assim, você chegou. Não está faltando mais nada.

– Ah, é? Quer que eu lhe diga o que está faltando?

– Do seu ponto de vista?

– Sim, porque do seu eu sei que acha que falta uma conclusão.

– Acho que posso concordar com isso. Mas do seu, o que falta?

– Falta você concordar com o fato de que o texto está bom do jeito que está.

– Quer dizer que se eu concordar com isso nunca mais vai escrever?

– Talvez não sobre este assunto, mas falta discorrer sobre outros tantos temas.


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