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Intercomunicado

MISTURADO

Era uma coisa que ele gostaria de fazer todos os dias. Gostaria de poder fazer. Todos os dias, antes de dormir, escrever algumas linhas. Algumas muitas linhas. Nem sempre podia. A agenda cheia de compromissos a cada dia não permitia.

Que bobagem.

Não havia grandes compromissos. Havia um único horário de manhã cedo. Isso o impedia de fazer uma coisa de que muito gostava. Não sabia, ainda, por quanto tempo seria assim. Podia ser um ano, dois ou seis. Não sabia.

Todos os dias sentava em frente à televisão. Olhava para ela muitas vezes sem reparar a pilha de folhas que ele mesmo colocara na estante ao lado dela. Estavam ali para ser usadas. Esperavam por alguma ideia luminosa que lhes preenchesse o vice-versa de seus espaços. De vez em quando seus olhos caíam ali. Mas nunca as usava. Até que algum dia pensasse em alguma coisa.

Mas pensar era o que ele fazia o tempo todo. Seu trabalho era sua mente. Nunca parava de funcionar. Vivia misturando fatos da vida real com fatos de fantasia. Podia jurar que era capaz de ocupar todo aquele material se tivesse tempo. Manteria sempre a cabeça funcionando. O que foi que leu, fazia pouco? Alguém com visão para ver o que ninguém vê. Descobrir o que quase ninguém descobre. Mas todo mundo vê tudo, todo mundo descobre tudo. Há uma diferença entre ver e registrar.

O que será que ele registra?

O que é sabedoria?

Quem a tem? Quem a detém? Potencialmente todos podemos ser sábios. Existem sábios de todos os tipos. Há os sábios especialistas. Há os genéricos. O sábio pode não ser alguém que tudo saiba. Mas pode ser alguém que saiba expressar ideias em palavras.

Como o sábio que disse que não conversar sobre gostos pessoais é um reflexo da incapacidade humana de conviver com as diferenças. Uma incapacidade da Humanidade atual, que todo mundo sabe (até mesmo quem finge não saber, ou prefere não pensar nisso para não ter que admitir) que está doente. Porque uma pessoa dizer que gosta de uma coisa e outra dizer que gosta de outra é simplesmente uma troca de informação, mas não é assim que as pessoas vêem. Gostar de uma coisa diferente, desde uma bebida até um clube de futebol, ter uma visão de mundo diferente, é uma ameaça, ou assim é visto pelas pessoas.

Não é mais um jeito de as pessoas se conhecerem, mas de afastar umas das outras, mesmo que em nenhum momento esteja sendo colocado como pré-requisito para coisa alguma pensar e/ou sentir igual, ou gostar ou não gostar das mesmas coisas. Bastou ser diferente para a doença da inflexibilidade apresentar seus sintomas. Quem gosta de alguma coisa diferente não precisa necessariamente estar pretendendo modificar a outra pessoa.

Repito: é pura troca de informação. Interpretar a troca de informação como uma ameaça, ou ficar contrariado porque o outro pensa e sente diferente é apenas (como se fosse pouca coisa) um sintoma da doença da Humanidade. Todo mundo sabe que faz parte desta doença, mas é mais fácil pensar que só acontece com os outros.


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  1. picida ribeiro #
    1

    Interessantes observações, muito bem escritas.



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