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Renascendo – Cap. 15 Pt. 1

        SÁBADO de manhã, 2 de Janeiro.

      O sono de Marjorie tinha sido muito pesado, depois da dificuldade inicial para dormir. Quando ela abriu os olhos, custou a identificar o lugar onde estava deitada. Pouco a pouco sua memória providenciou as lembranças apropriadas, e ela logo se localizou. Sentou-se na cama devagar, sorrindo e dizendo para si mesma:

      – Bem vinda de volta à vida, sua maluquinha!

      Ergueu-se. Olhou-se no espelho, vestida com a camisola de Miranda. Caía-lhe muito bem. Decidiu ir assim mesmo até à cozinha.

      Abriu a geladeira e achou alguns refrigerantes, além de presunto, queijo, margarina e pão de sanduíche. Comeu com vontade.

      Pensativa, recordou-se novamente do susto do dia anterior, da ajuda que recebera, pensou em todas as pessoas que a ajudaram, nas que ficaram só olhando, nos bandidos. Pensou no que teria que dizer à sua cliente. Pensou no que queria da vida e decidiu que nada decidiria antes de conversar com o pessoal da agência.

      – Bom dia!

      A saudação era de Miranda, que estava com o filho nos braços.

      – Dormiu bem?

      – Muito bem. – Marjorie sorriu, hipnotizada pelos olhos muito abertos de Luciano. – Nem senti saudades do meu quarto.

      Miranda sorriu.

      – Fico contente que esteja bem.

      – Seu filho é uma gracinha, me dá ele aqui…

      A surpresa foi que Luciano parou no colo de Marjorie. A jovem brincou um pouco com ele, enquanto Miranda preparava mais sanduíches.

      – Ele já mamou?

      – Já, agorinha, foi a primeira coisa que fiz, dei de mamar a ele…

      Marjorie olhou para ele mais um pouco, deu-lhe alguns beijos por todo rosto, depois olhou para Miranda e disse:

      – Eu perguntei pelo seu marido a Ernesto, e ele me falou sobre seus problemas, e sobre a morte de seu pai. O que ele me contou serviu para que eu pensasse menos no fato de quase ter morrido e mais no de estar viva. Sinto muito pelo seu pai, mas me parece que você está reagindo bem à separação… Estou enganada? 

      Miranda ficou por instantes sem saber o que dizer, como a reflletir sobre o que sentia.

      – A morte de meu pai me dóis mais, realmente. Pelo menos ele me amava, e eu a ele.

      – Bom… – Marjorie sorriu. – O restante não vem ao caso. Mas você tem feito o quê, nestes dias? Por que não saiu com Ernesto, ontem? Está certo que escapou de participar da tremenda confusão que eu arranjei para o pessoal, mas… não consigo acreditar que você passou o dia inteiro aqui, fechada, sozinha, sem levar seu filho para pegar um solzinho…

      – É, eu… passei…

      – Ernesto e eu vamos… vamos até a casa do pessoal que nos ajudou. Viemos de lá no meu carro, o de Ernesto ficou lá. Quero agradecer novamente pelo que fizeram por mim, e me despedir, já que estarei voltando hoje para Porto Alegre. Quer vir com a gente?

      Miranda continuou olhando-a em silêncio, por instantes. Depois, tornou a baixar os olhos, com ar pensativo.

      – Você ontem quase fez um comentário sobre os rapazes. – falou, depois. – O que pensou em dizer?

      Miranda olhou-a com alguma surpresa.

      – Sabe que não me lembro?

      – Eu achei que fosse fazer um elogio a eles, ou a algum deles, não sei.

      Marjorie sacudiu a cabeça, com ar contrariado.

      – Não me lembro. Não deve ter sido nada importante. E você não respondeu à minha pergunta.

      Miranda sorriu.

      – Você está indo lá para se despedir e para ver Geraldo. Mas Ernesto vai para fazer amizade com as garotas. Porque, no fundo, sabe-se que o rapaz está bem, e agora sabemos, também, que ele vai lá para ver Virgínia, mais do que qualquer coisa.

      – Você acha que ele está errado?

      – Não, de jeito nenhum. Não estou condenando, estou comentando. E pensando se você não vai tentar bancar a cupido para cima de mim.

      – Com os rapazes? Mas eu nem os conheço!

      – Você quase fez um elogio a eles, ontem.

      Marjorie sorriu, em silêncio.

      – Miranda… o passeio será bom para você. Luciano precisa tomar sol. E você também. Não importa que não conheça as pessoas que vamos encontrar.

      – Marjorie, vou dizer-lhe uma coisa…

      – Não. Não diga nada. Me desculpe. Estou me metendo na sua vida. Tento retribuir o seu carinho, acho que de maneira equivocada. Mas não é por mal…

      – Eu sei… desculpe-me você. – Miranda sorriu, entristecida. – Você tem razão, sobre o passeio. Acho que já conseguiu me convencer.

      – Você não precisa falar com eles, se não quiser. Basta apenas sorrir, de vez em quando. Seu sorriso é tão bonito. 

      Miranda agora sorriu largamente.

      – Além de tornar-se uma prova viva do quanto é maravilhoso o irmão que tenho, se continuar assim vai acabar se tornando uma grande amiga…

      Marjorie olhou-a com um sorriso entre agradecido e enternecido e disse:

      – Nada me deixaria mais feliz. Tornar-me amiga da irmã do cara que salvou a minha vida. Ele é muito importante para você, não é?

      – Bem… considerando o inferno de onde ele me tirou, agora ainda mais…

      – Você agora tem que esquecer isso…

      – Pois é, moça, mas isso não será nada fácil. Esta noite, antes de dormir, eu me olhei no espelho. A imagem que vi era de alguém parecida comigo, mas não era eu. Não sei como lhe explicar. O rosto é o mesmo, mas eu já não sou a mesma.

       Marjorie refletiu por instantes. Sem dúvida alguma, aquilo era muito, mas muito diferente do que ela própria sentia.

      – Mas mesmo um deserto tem seus oásis. – falou, com seriedade. – Aliás, é deles que você está tirando o amor que dedica a este menino lindo.

      – Eu sei. – Miranda balançou a cabeça. – Mas as coisas que aconteceram parecem ter acabado comigo. Eu não sou mais a mesma, Marjorie. Ernesto me falou, anteontem, que alguém algum dia vai me amar muito e eu serei feliz. Eu pensei muito sobre isso e… bem, não estou bem certa. Eu me recordo… das minhas fases de depressão. Eu entristecia, sentia um nó no peito e na garganta, porque achava que deveria haver alguém, e não havia. Às vezes eu chorava tanto que chegava a desejar estar morta, de tão triste que me sentia. E agora, sabe o que acontece? Meus nervos ficaram tão abalados que o sofrimento se torna indiferente. Eu não me entristeço por ter sofrido. Entristeço porque não sou e nunca mais serei a mesma. Minha cabeça continuará vazia de emoções e cheia de indiferença. Acho que agora vai ser assim para o resto de minha vida. Já tive uma experiência ruim. Como vou poder arriscar a passar por isso outra vez, ao lado de alguma outra pessoa? Sofrimento e agitação? Eu estou farta… 


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