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Renascendo – Cap. 37 Pt. 1

      Mônica estava na sala, quando Virgínia chegou com Helena, Roberto e as crianças. Ela desviou o olhar do livro que tinha nas mãos e não escondeu a surpresa.

      – Oi, gente. – falou, erguendo-se. – Vieram jantar?

      – Não viemos para isso. – falou Helena, sorrindo. – Mas não nego que é uma bela perspectiva.

      – Ernesto está por aí? – indagou Virgínia, rindo de Helena.

      – Está, sim, com Luciano.

      – E Miranda?

      – Ainda não apareceu. Mas Augusto saiu pela praia, atrás dela.

      – Hum… – Virgínia suspirou. – Se ele a encontrou pelo menos não estará sozinha.

      A campainha soou de novo e Mônica não esperou pela empregada para ver quem era.

      – Oi. – disse Daniel, da porta, vendo pessoas que não conhecia. – Posso falar com Ernesto?

      – Claro… – Mônica sorriu, reconhecendo-o. – Você é o advogado, não é?

      – Sou…

      – Bom, que eu saiba, você é de casa, fique à vontade.

      – Mas não moro aqui. – Daniel sorriu. – E vejo que estão com visitas…

      Mônica fez as apresentações. Daniel e Roberto logo ficaram trocando experiências afins. Virgínia voltou com Ernesto e Valéria, fazendo com que esta última saísse dali acompanhada de mais duas crianças, o que Luciano adorou.

      Helena percebeu que Mônica parecia estar com astral muito diferente naquele momento do que estivera naquela manhã. Estava mais alegre, mais viva, embora falasse pouco.

      Olhando para Ernesto e Virgínia, Helena verificou que, no visual, formavam um belo par. Virgínia era glamurosa, não havia dúvida.

      Daniel e Roberto estavam muito à vontade, como se fossem velhos amigos, e era indisfarçável o interesse do primeiro por Mônica.

      – Bom, Ernesto, antes que Miranda volte, vou falar algumas coisas. – disse Daniel. – O camarada ainda está pela praia. Seu vizinho que chamou a Polícia, naquela hora de aperto, chegou mesmo a informar a placa do Gol que ele estava usando. A Polícia Rodoviária não registrou a passagem do carro pelo posto, mas também não se pode saber quanto tempo as duas polícias levaram para se comunicar.

      – E ele pode ter fugido em direção a Torres. – argumentou Roberto.

      – Pode. – concordou Daniel. – E aí complica, porque são dezenas de pequenas praias…

      – Preciso agradecer ao vizinho. – falou Ernesto. – A Polícia informou quem foi?

      – Me deram o número, foi o do outro lado da rua, em linha reta.

      – Vou até lá, amanhã.

      – O que a Polícia está efetivamente fazendo? – indagou Virgínia.

      – É… – Daniel a olhou com um meio sorriso. – A Polícia não pode, efetivamente, fazer muita coisa. Não podem por ninguém a cuidar especialmente de Miranda. O que podem fazer, e farão, é atender imediatamente a algum chamado que se relacionar a este problema. Vão investigar toda e qualquer informação que chegar sobre o possível paradeiro do sujeito.

      – Ou seja, as históricas limitações da segurança pública. – falou Helena.

      – Por aí. – concordou Daniel. – A prisão preventiva dele já foi pedida, mas…

      – Isso quer dizer que ela vai continuar correndo perigo, se ele quer mesmo matá-la. – disse Roberto. – Pode acontecer de se encontrarem de novo…

      – Augusto saiu há horas para tentar encontrá-la, e até agora nada… – falou Mônica.

      – Ela me foi bem clara. – disse Virgínia. – Disse que voltaria caminhando pela praia.

      – Miranda vai detestar a idéia. – falou Ernesto, fazendo uma pequena pausa. – Mas vou ser obrigado a contratar seguranças para ela.

      – Ela pode até detestar. – disse Virgínia. – Mas suicida ela não é.

      A porta de entrada se abriu naquele momento, e todos se surpreenderam com o estado de Miranda, mas ela logo os tranqüilizou, rindo muito, e indo logo de uma vez tomar um banho.

      – Você a viu jogando? – indagou Virgínia ao primo.

      – Vi, sim. Como estivesse se divertindo, esperei até que terminassem.

      – Minha irmã é uma irresponsável… – balançou a cabeça Ernesto, dando uma risada.

      – Você aqui se preocupando, e ela bem bela, se divertindo. – Virgínia beijou-o.

      – Bom, gente, eu vou indo, então. – disse Daniel.

      – Não vai jantar aí? – estranhou Ernesto.

      – Bom, a casa está cheia, como se fosse dia de festa, mas não é, né? – Daniel deu uma risada. Evitou olhar para Mônica.

      – Mas nós não vamos ficar. – informou Helena. – Já vamos recolher as crianças…

      – Ah, não. – protestou Virgínia. – Não, não, não, vamos mandar buscar um churrasco, um galeto, sei lá, mas daqui você não sai tão cedo.

      Foi a vez de Roberto rir.

      – Bah, está complicado chegarmos a algum acordo. – falou Ernesto.

      – Vamos colocar em votação. – sugeriu Mônica, como boa professora.

      Os outros concordaram, e decidiram esperar que Miranda voltasse do banho.

                               *                    *                  *

      – O conforto material não é tudo, e às vezes me pego me perguntando por que trabalho tanto. No fundo, acho que não estou construindo nada.

      – Mas isso não é verdade. Você tem uma casa, com a sua irmã. Já eu, sim, vivendo do jeito que vivo, não estou construindo nada.

      – É um pensamento engraçado, este. E contraditório. Por mais que se pense em apenas levar uma vida tranqüila, longe da celebridade, sempre se pensa em não apenas passar pelo planeta sem deixar lembrança alguma.

      – O que também evidencia um certo medo da morte, mesmo que seja alguém como eu, que nunca penso nisso.

      – Mas você esteve próxima dela, dias atrás.

      – Eu sei disso. Mônica já cansou de me dizer umas e outras coisas, mas eu sempre achei que não conseguiria viver como ela, sendo professora, trabalhando três turnos, tendo a vida controlada pelos humores do Governo.

      – Sua única opção seria ser professora?

      – Não; nem tenho habilitação para isso. Mas o trabalho assalariado em si. Você, por exemplo, ganha por comissão. Eu também.

      – Mas o seu risco é enorme, Marjorie.

      – Bom. Tudo bem, é mesmo.


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